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15.06.12 - Brasil
O Rio Grande do Norte e o Nordeste vêm se tornando o ‘território da energia’. Entrevista com Ângelo Magalhães Silva
IHU - Unisinos
Instituto Humanitas Unisinos
Adital

Sexta, 15 de junho de 2012

Quando digo isto, afirmo que é o Estado também quem orienta o capital, especialmente promovendo mais infraestrutura e diminuindo os riscos do "negócio dos ventos”, do petróleo, do turismo, além de outros, explica o docente.

"As condições de emprego geradas em decorrência de um Parque Eólico não são as mesmas que os gerados por um Parque Hoteleiro”, frisa o sociólogo Ângelo Magalhães Silva, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Em se tratando de território, continua, ambos são invasivos, mas "em se tratando de efeitos de empregabilidade local, penso que são diferentes”. A pergunta é quem emprega mais e por mais tempo. Segundo ele, são tipos de serviços distintos, porém sujeitos a mudanças climáticas. "Qualquer estrutura produtiva gera impactos, e ainda há dúvidas relativas a quanto de território é e pode ser destinado à atividade eólica no Polo Costa Branca, e se isso limita os investimentos do turismo imobiliário”. Para Ângelo, a questão importante nesse sentido diz respeito à infraestrutura gerada pelo turismo e saber se ela complementa a logística do setor eólico. "Isso é importante, pois possui relação com o passado dos investimentos turísticos que foram destinados ao RN nos anos 1980 e 1990, com o PRODETUR” diz.

Ângelo Magalhães Silva confessa que não sabe ao certo se o Nordeste vive um bom econômico. "Percebo que alguns setores da economia foram bastante ativados recentemente, especialmente por programas de incentivos governamentais à produção e acesso a crédito. Mas não tenho dúvidas que o nordeste e demais estados brasileiros vivem um boom do consumo, especialmente com o renascimento da classe 'C', expressão adequada ao fordismo periférico que marca alguns setores de nossa economia”.

Ângelo Magalhães Silva é licenciado e mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. É doutor em Ciências Sociais na área de Política, Desenvolvimento e Sociedade, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da mesma universidade. É ainda professor adjunto de Sociologia da Universidade Federal Rural do Semiárido – UFERSA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor afirma que o Nordeste vem se tornando um espaço de "território da energia". Como se manifesta essa "nova fronteira" de exploração na região?

Ângelo Magalhães Silva –
Geralmente as estruturas produtivas de ganhos de capital em escalas necessitam de território. A história do Nordeste é, em grande medida, a de atividades econômicas organizadas também a partir desta "vantagem comparativa”. Não se acumula capital sem território; a terra é fundamental especialmente para os vários tipos de renda, como ocorre em Mossoró, cidade do oeste do Rio Grande do Norte, com os altos preços do aluguéis. Mas não é qualquer terra. O território mais apropriado é aquele sujeito a um processo que na geografia crítica vem se chamando de acumulação por despossessão, onde se varre qualquer resistência política e econômica e cria-se uma artificialidade nova, produtiva.

Em boa parte do Nordeste e do Rio Grande do Norte isso foi assim com a atividade têxtil, a agricultura irrigada e outras mais modernas como o petróleo. A mudança na paisagem é apenas uma consequência inicial. A acumulação por despossessão se expressa no RN e seria impensável sem a relação entre Estado e grupos econômicos do setor energético. Quando digo que o Nordeste e o RN vêm se tornando o "território da energia”, afirmo que é o Estado também quem orienta o capital, especialmente promovendo mais infraestrutura e diminuindo os riscos do "negócio dos ventos”, do petróleo, do turismo, além de outros.

IHU On-Line – Construiu-se a ideia de que o investimento em energia eólica é sempre bem vindo por se tratar de energia limpa e renovável. Qual é o impacto dos parques eólicos nos territórios locais?

Ângelo Magalhães Silva – Ainda não sabemos quais os impactos precisos gerados no território com os parques eólicos. O discurso empresarial corrente é de que os impactos são mínimos, algo bastante questionável. E são poucos os diagnósticos socioeconômicos que os explicitam. A questão é saber o que se chama de impacto quando se trata da relação energia eólica e território. Na sociologia, esses estudos são poucos e precisam observar os princípios da governança corporativa e responsabilidade socioambiental, caro a muitas empresas do setor energético, e especialmente se elas as efetivam.

O Grupo de Estudos sobre Desenvolvimento e Violência – GEDEV do qual faço parte iniciou esses estudos recentemente. Como disse, a mudança na paisagem é apenas um desses impactos, os visíveis, e revela, sim, um outro território construído. Basta saber ainda que consequências esse novo território causa para comunidades pesqueiras locais, fazendas, pequenos municípios e os trabalhadores locais. Estudos dessa ordem não existem para o Polo Costa Branca, aqui no RN. Em algumas entrevistas realizadas em alguns municípios que compõem o "Polo", é comum relatos de moradores afirmando o fim de algumas vegetações nativas, mudança no comportamento de aves, privatização de antigas áreas comunais de plantio, pesca e criação de animais. Basta ainda saber quais os impactos de ordem subjetiva, ou seja, as expectativas de famílias e indivíduos com a presença dessas estruturas produtivas. Não sabemos se os fortes ventos mudam positivamente e com força o futuro de alguns municípios, e o sentido de uso que passa a atribuir os habitantes às suas terras.

IHU On-Line – Os investimentos em energia eólica no Nordeste são em sua maioria privados ou públicos? Os grupos que investem são nacionais ou transnacionais?

Ângelo Magalhães Silva – Quando se fala no Brasil e no Nordeste sobre modernas estruturas produtivas, há muito capital investido, mas da associação entre Estado e grandes grupos econômicos. Na maioria dos casos, como sabemos, o Estado, além de orientar o capital, os incentiva. É dinheiro público a serviço da acumulação privada, sob o manto da contrapartida do emprego, renda e, agora, da proteção ambiental. No caso dos investimentos em energia eólica no Nordeste, basta olhar para os incentivos do BNDES. Recentemente, este banco público liberou R$ 378 milhões em financiamento para os parques eólicos da Bahia e do Rio Grande do Norte. Claro que há um montante significativo de capital privado no negócio, como é de se esperar, e de muitos grupos econômicos com vários braços como Google, DuPont, Iberdrola e muitos outros.

Segundo o BNDES, são 107 Parques Eólicos na linha de financiamentos, representando R$ 8,4 bilhões em empréstimos. É preciso muito vento para pagar esse financiamento. É muita empresa e muito Estado juntos. Claro que isso varia de estado para estado. O Ceará faz uma campanha forte para atrair empresas do setor e instalar fábricas de aerogeradores, alguns com destino ao uso no varejo, algo novo. O RN ainda ensaia estes passos. Para efeito de pesquisa acadêmica séria, o oportuno era saber o volume dos investimentos externos diretos (IDE) que chegam ao Brasil e atraídos pelas empresas do setor, especialmente suas oscilações frente às mudanças recentes na economia mundial. Ou seja, os investimentos aumentam ou diminuem? Isso é importante, pois saberíamos em que medida se dá esse dinamismo corporativo e sua capacidade diversificadora aqui no Brasil e em estados pobres como o RN, para além do PROINFA, por exemplo.

IHU On-Line – No caso do Rio Grande do Norte, que tem recebido muitos investimentos em energia eólica, quais são as contradições e problemas que surgem junto às comunidades locais? Os investimentos são bem recebidos? Há tensões?

Ângelo Magalhães Silva – Não há explicações científicas sobre isso ainda. Para o RN não há estudos socioeconômicos sérios a tal respeito. Nós do GEDEV estamos iniciando. Há mudanças nas comunidades locais, como ocorre como os pequenos municípios ao chegar uma fábrica de tecido ou um bairro de uma cidade que passa a ser destino turístico. Há alguns indicativos de certa mudança no mercado de terras local, onde famílias e pequenos capitalistas passam a atribuir outro sentido de uso ao solo. Isso não é algo restrito ao litoral nem efeito somente dos empreendimentos do setor eólico. Programas de incentivo à casa própria com longos financiamentos contribuem para mudanças no intraurbano de cidades como Natal e Mossoró, no preço da terra e na mobilidade.

Tensão – turismo e energia eólica

Outra questão séria e que leva tempo diz respeito aos impactos nos municípios que vivem do turismo, como alguns do Polo Costa Branca. Há uma tensão entre turismo e energia eólica? É difícil saber e, talvez, ainda cedo. Penso que a saída para compreender essa tensão e a existência de impactos associados a essa combinação passa pela questão ambiental, especificamente as áreas de proteção ambiental que existem no Polo Costa Branca e que estão sob a mira do capital internacional.

IHU On-Line – O senhor destaca que, no litoral do Polo Costa Branca no Rio Grande do Norte, são os chamados "parques eólicos" e não os parques hoteleiros que convivem com a caatinga e entre dunas de areia, sal e falésias vão ocupando a paisagem local. Esse investimento é menos invasivo, gera empregos? Que oportunidade econômica possibilita?

Ângelo Magalhães Silva – Essa é uma questão interessante, pois as condições de emprego geradas em decorrência de um Parque Eólico não são as mesmas que os gerados por um parque hoteleiro. Em se tratando de território, ambos são invasivos. Porém, em se tratando de efeitos de empregabilidade local, penso que são diferentes. A pergunta é quem emprega mais e por mais tempo. São tipos de serviços distintos, mas sujeitos a mudanças climáticas. Qualquer estrutura produtiva gera impactos, e ainda há dúvidas relativa a quanto de território é e pode ser destinado à atividade eólica no Polo Costa Branca, e se isso limita os investimentos do turismo imobiliário. A questão importante nesse sentido diz respeito à infraestrutura gerada pelo turismo e saber se ela complementa a logística do setor eólico. Isso é importante, pois possui relação com o passado dos investimentos turísticos que foram destinados ao RN nos anos 1980 e 1990, com o PRODETUR.

IHU On-Line – O nordeste brasileiro vem assistindo a um boom econômico. Qual tem sido a dinâmica desse crescimento e como impacta o território regional/local?

Ângelo Magalhães Silva – Não sei ao certo se o Nordeste vive um boom econômico. Percebo que alguns setores da economia foram bastante ativados recentemente, especialmente por programas de incentivos governamentais à produção e acesso a crédito. Porém, não tenho dúvidas que o nordeste e demais estados brasileiros vivem um boom do consumo, especialmente com o renascimento da classe "C”, expressão adequada ao fordismo periférico que marca alguns setores de nossa economia. Penso que as atividades do setor energético no Brasil e aquelas que se expressam no Nordeste têm possibilidades de conectar escalas, especialmente as regionais e suas estruturas produtivas já presentes.

Temos que discutir, como afirmei em outro lugar, se isso é possível sem um projeto mais amplo de desenvolvimento e não apenas de crescimento. Podemos incorrer no risco do acirramento da guerra fiscal, dos desequilíbrios regionais e de um país que não se desenvolve e cresce setorialmente. Teríamos, assim, manchas de crescimento e áreas inteiras estagnadas. O RN é um exemplo disso. O retorno à ideologia do localismo vem contribuindo negativamente para isso, e o território é visto apenas como vantagem econômica e competitiva, e não como elemento capaz de integrar o futuro do econômico e o futuro do social.

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Leia também:

Energia solar no Brasil: um desafio. Entrevista especial com Emilio Lèbre La Rovere

Por IHU Unisinos, 09 de junho de 2012

Ao analisar a situação da energia solar hoje, o engenheiro afirma que as células fotovoltaicas são atualmente a tecnologia mais promissora e viável economicamente em curto prazo.

Apesar de o interesse pela energia solar ter surgido ainda na década de 1970 em função da crise do petróleo, foi somente depois da Eco-92 e do crescente debate acerca das mudanças climáticas que a "pesquisa de energia solar voltou a ser prioritária”, diz o pesquisador Emilio Lèbre La Rovere (foto abaixo) à IHU On-Line. Em entrevista concedida por telefone, ele explica que "em nível mundial, o investimento em energia solar nunca foi comparável com o que se investiu em pesquisas para aprimorar a tecnologia dos combustíveis fósseis e mesmo da energia nuclear”.

Embora o percentual de energia solar na matriz energética brasileira seja "praticamente zero”, o desafio do futuro é garantir o uso eficiente da energia. Conforme esclarece Rovere, a proposta é "consumir menos, sem prejuízo da qualidade dos serviços, do bem-estar, do conforto do consumidor. Ou seja, ter um consumo de energia menor para o mesmo serviço”. Segundo ele, a ampliação das fontes energéticas alternativas ajudará a "diminuir a necessidade de construção de novas usinas e, obviamente, vai diminuir o impacto ambiental do sistema energético”.

Emilio Lèbre La Rovere possui graduação em Engenharia Elétrica de Sistemas e Industrial pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio, graduação em Economia e mestrado em Engenharia de Sistemas e Computação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e doutorado em Técnicas Econômicas, Previsão, Prospectiva pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Atualmente é professor do Programa de Planejamento Energético do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pesquisa e Pós-Graduação de Engenharia – COPPE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente e o Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Pode nos dar um panorama de como a energia solar tem evoluído no Brasil? 

Emilio Lèbre La Rovere – O interesse pela energia solar começou com mais força depois da crise do petróleo em 1973, 1974, quando houve uma quadruplicação do preço do petróleo, que antes era muito baixo (cerca de 3 dólares o barril) e passou para 12. A partir daí se iniciou um programa de pesquisa e desenvolvimento em energia solar apoiado pela Financiadora de Estudos e Projetos – Finep, que na época pertencia ao Ministério do Planejamento, pois ainda não tinha sido criado o Ministério de Ciência e Tecnologia. Depois da segunda crise do petróleo, no período de 1979, 1980, 1981, tivemos a confirmação de que a crise de 1973 era realmente estrutural, mais do que conjuntural, o que faria com que o petróleo se tornasse mesmo mais caro.

IHU On-Line – Como a opção pela energia solar é vista pelo governo federal atualmente? Há incentivo para ampliar esse modelo energético?

Emilio Lèbre La Rovere – Em nível mundial, o investimento em energia solar nunca foi comparável com o que se investiu em pesquisas para aprimorar a tecnologia dos combustíveis fósseis e mesmo da energia nuclear, que era vista, depois da segunda guerra mundial, como a grande promessa de energia abundante e barata, mas que depois não se concretizou devido aos riscos de acidentes radiativos. Mesmo assim, até há poucos anos se gastava muito mais dinheiro em pesquisa em energia nuclear e combustíveis fósseis do que nas energias renováveis, como solar e eólica.

No Brasil, tivemos um período inicial de constituição de grupos de pesquisa em universidades, como a Unicamp, a Universidade Federal da Paraíba, a PUC-Rio, que foram pioneiras nessa área. Depois, em meados da década de 1980, com a queda do preço do barril do petróleo, houve certo desestímulo ao incentivo nessa área de energias renováveis. Só mais recentemente, com as quedas de custos observadas nas pesquisas com células fotovoltaicas, é que houve um interesse maior novamente. Entre esses dois períodos, houve uma penetração ainda tímida, mas já chegou ao mercado com uma tecnologia viável o aquecimento de água por coletores solares planos. Em alguns países isso se deu mais fortemente, como a Grécia e a Espanha. O Brasil já teria condição de ocupar um nicho de mercado bem mais significativo nessa área. Mais recentemente, em função das preocupações ambientais, que na década de 1990 foram crescendo, depois da Rio-92 e da assinatura da Convenção do Clima, e também à medida que a questão das mudanças climáticas emerge como de grande importância e o risco dessas mudanças se agrava, a ênfase na pesquisa de energia solar voltou a ser prioritária.

IHU On-Line – Qual o potencial e a eficiência energética da energia solar num país como o Brasil? A proposta para a ampliação da energia solar consiste em investir em um modelo de energia descentralizado ou num modelo centralizado?

Emilio Lèbre La Rovere – Existem vários nichos de mercado para a energia solar. O principal é justamente o aquecimento solar de água nas residências, hotéis, etc. Mas existe também uma série de outros nichos de mercado para geração de energia elétrica. Por exemplo, as células fotovoltaicas são agora a tecnologia mais promissora e viável economicamente em curto prazo. Fizemos um estudo recente, um relatório técnico, para preparação da Carta do Sol, que foi um manifesto político, lançado no final do ano passado no estado do Rio de Janeiro, e depois encampado pelo Fórum dos secretários de energia de todos os estados do Brasil. A exemplo do que tinha sido feito na Carta dos Ventos, esse relatório justificou por que essa energia é importante para o país, quais as barreiras para sua penetração e, diante dos benefícios, colocou uma série de propostas para viabilizar a energia solar no Brasil, em particular a energia solar fotovoltaica, que é a mais viável em curto prazo.

Fizemos nesse relatório uma avaliação preliminar de qual seria o potencial nos diversos nichos de mercado. E chegamos a números que são indicativos e dão uma ideia de ordem de grandeza que temos, por exemplo, com uma expansão, pensando num horizonte até 2020, chegando a algo de potência instalada no Brasil da ordem de 2400 megawatts. E dentre os mercados que temos, o mais importante seria algo como o que chamamos de coletivo conectado, ligado à rede elétrica. Nessa característica, teríamos tetos, fachadas, áreas de aeroportos. Então, serviria para a autoprodução e geração de energia elétrica para abastecer aeroportos, por exemplo, mas ligados à rede, injetando energia elétrica a essa rede no período em que não estivesse sendo consumida a energia, de forma que ela estaria disponível. Por exemplo, num estádio de futebol se usa a energia geralmente em partidas noturnas, daí não tem geração solar e para não ter que ter muita bateria para estocar energia solar, se usa a energia da rede. Nos dias da semana, quando não tem jogo, durante o dia, vai gerando energia e injetando-a na rede. Isso é o segmento de mercado coletivo e conectado à rede, e que tem o potencial maior.

IHU On-Line – Isso já existe, na prática?

Emilio Lèbre La Rovere – Sim, e podemos citar o exemplo do estádio de futebol de Pituaçu [1], na cidade de Salvador. Porém, no Brasil, nossa rede de energia é radial, não tem muita redundância, é uma rede em uma área aberta. Temos muitas pontas de linha em Minas Gerais, na Bahia, no Espírito Santo, áreas que são abastecidas por uma linha de transmissão que chega até lá. Em termos de sistemas elétricos, significa uma maior dificuldade de ter, primeiramente, um suprimento com garantias, porque qualquer problema na linha dá-se o corte da energia na ponta; e, em segundo lugar, em relação à qualidade, que não é muito boa, porque há muita flutuação de tensão. E esse é um nicho muito importante que pode ser aproveitado pela energia fotovoltaica no Brasil. Por exemplo, no caso do estádio de Pituaçu, a Companhia Elétrica do Estado da Bahia Coelba, que é a empresa de distribuição de energia elétrica da Bahia, constatou que, caso não fosse feita essa usina solar nesse ponto, teria que ser reforçada a rede de subtransmissão e de distribuição para poder fornecer uma potência relativamente elevada naquela ponta de linha. O que geraria uma despesa grande para o reforço da rede.

Colocando a usina na ponta, evita-se esse problema. Isso somado ao fato de que as tarifas de energia elétrica no nível do consumidor final no Brasil são muito elevadas. O custo de geração de energia elétrica é baixo no Brasil comparado aos outros países, mas existem os custos de transmissão e distribuição, além de uma série de impostos e encargos colocados sobre o preço final da energia elétrica, como, por exemplo, o Programa Luz Para Todos, com a expansão da rede para aqueles domicílios que ainda não estão conectados a ela. E isso acaba encarecendo muito o preço para o consumidor final. Então, em estados como Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo temos preços muito elevados, da ordem de mais de 500 reais por megawatt/hora de energia elétrica consumida nas residências desses estados. No futuro, pensamos que, a partir da constituição desse mercado inicial de instalações coletivas, possa-se chegar ao ponto em que os consumidores residenciais e os condomínios também tenham coletores solares, gerando energia elétrica e injetando-a na rede quando não estão precisando dela. Isso abateria a conta final da energia que a concessionária oferece a eles.

IHU On-Line – A partir dessa lógica de armazenar energia solar, poderíamos não depender mais da energia elétrica como reserva, para um dia que não faz sol, por exemplo?

Emilio Lèbre La Rovere – O problema é que a bateria, que seria o elemento de estoque, é muito cara e tem que ser jogada fora depois de um tempo. E ela tem impactos ambientais, além de ser uma energia muito cara. Não passando pela bateria, só o custo dos painéis, onde estão montadas as células fotovoltaicas do sistema hoje, estão custando algo em torno de R$ 400,00 por megawatt/hora, que é muito maior do que o custo de uma hidrelétrica, de uma central eólica ou do gás natural que custa algo em torno de R$ 100,00 por megawatt/hora. Por outro lado, temos um custo menor do preço final para o consumidor, que é da ordem de R$ 500,00 megawatt/hora. A energia solar fotovoltaica não teria condições de competir com a eólica e de hidrelétricas para a geração de energia elétrica.

Porém, do ponto de vista do consumo, isso seria viável, desde que tivéssemos também a chamada "rede inteligente”, com medidores de energia elétrica como os que estão começando a ser instalados, que podem medir nos dois sentidos o fornecimento de energia. Aqueles "relógios de luz” das nossas casas normalmente eram para a concessionária ver quanto que aquela residência consumia. Basicamente, o que temos agora é um medidor bidirecional que permitiria que se contabilizasse não apenas o que a concessionária está mandando de energia para o consumidor, mas também o que o consumidor poderia injetar na rede do seu sistema solar. Isso já está acontecendo na Europa, em países como Espanha, Itália, Alemanha, países que têm incentivado os consumidores a instalarem as telas fotovoltaicas. Na Alemanha, eles estão incorporando no próprio desenho arquitetônico dos prédios, nas fachadas, sendo as telas solares um elemento constitutivo. E com isso se gera uma energia local já no ponto de consumo, mais viável economicamente.

IHU On-Line – Que percentual da matriz energética brasileira é composta por energia solar?

Emilio Lèbre La Rovere – Hoje é praticamente zero. Nem aparece na estatística. Então, esses 3 mil megawatts que mencionei, que seriam entre 2 e 3 mil em 2020, seria algo como 2 a 3% da potência instalada do sistema elétrico nacional, que está chegando em 100 mil megawatts em breve. Então, temos ainda um percentual muito pequeno. Ainda vai demorar para haver uma penetração dessa fonte, o que é característico do setor elétrico, marcado por uma inércia muito grande. As fontes começam a penetrar muito devagar, mas, na medida em que conseguem, vai aumentando a escala de fabricação, o que ajuda a reduzir custos. Os fabricantes já consideram que há uma projeção, nesse horizonte até 2020, de que o custo possa baixar, por exemplo, de R$ 400,00 para R$ 300,00 o megawatt/hora. Aí já começa a melhorar a economicidade e a velocidade de penetração no mercado.

IHU On-Line – Muitos especialistas argumentam que as energias alternativas não são suficientes para gerar a energia necessária. É possível investir em uma matriz energética alternativa, composta de energia solar, eólica, biomassa e ainda assim garantir a eficiência energética? Em que consiste o uso eficiente da energia?

Emilio Lèbre La Rovere – Na verdade são duas óticas complementares. Na ótica da oferta, faz todo sentido diversificar de forma a ter uma maior segurança de fornecimento. Principalmente, faz sentido diversificar até para fontes mais caras, que normalmente é a crítica maior que se faz à solar (que é muito cara), para que ela possa, através dos incentivos iniciais ganhar escala, reduzir seu custo e se tornar competitiva. Isso é aconselhado para fontes renováveis que têm impactos ambientais muito menos importantes do que todas as fontes que usam combustíveis fósseis, as quais, ao queimar, produzem gases poluentes locais, regionais, aumento do efeito estufa e mudanças climáticas.

É nesse contexto que faz sentido incentivar a energia solar, que é uma fonte que tem esse benefício ambiental e também social. A geração de empregos direto na energia solar é muito maior do que, por exemplo, nas energias como gás natural, carvão mineral e petróleo. São cerca de cem vezes mais empregos pela mesma quantidade de energia. Ela demanda uma mão de obra qualificada, que paga um salário razoável para técnicos que vão fazer instalações e manutenção. Então gera muito mais emprego por unidade de energia e isso até é um dos gargalos do desenvolvimento: formar uma mão de obra capaz de fazer as instalações de boa qualidade e duráveis. Isso porque, se quebrar o coletor solar ou a célula, aí obviamente esse investimento inicial que se faz mais elevado não será recuperado.

Os benefícios sociais e ambientais justificam a concessão de um incentivo, por exemplo, um subsídio ou incentivo fiscal, ou seja, uma incidência menor de impostos estaduais, federais, como foi feito para a energia eólica, em que se reduziu imposto de importações para componentes a fim de poder justamente baratear a energia eólica e, com isso, também conseguir chegar hoje num patamar que a energia eólica é competitiva até com a geração convencional, a gás natural.

A energia eólica estava nessa mesma situação da energia solar voltaica há 10 anos. Havia só um fabricante no Brasil e havia um custo muito maior de fabricação. Hoje, depois desses incentivos serem concedidos, nós temos 11 fabricantes de componentes de turbinas, pás, centrais eólicas do Brasil cadastradas no FINAME, que é o programa de financiamento do BNDES à empresa nacional de máquinas e equipamentos feitos no Brasil, para verticalizar a cadeia produtiva. Hoje a energia eólica é plenamente competitiva. O que se quis com a Carta do Sol foi seguir o exemplo que tinha sido proposto na Carta dos Ventos, para que a energia solar fotovoltaica trilhe esse caminho que a energia eólica fez com sucesso. Então, um benefício dessa ordem é um incentivo justificado. Isso é do lado da oferta.

Do lado da demanda, o uso mais eficiente também é muito importante. Não é necessário se ter eletrodomésticos que puxem da tomada uma quantidade de energia muito alta para gerar o serviço que eles fornecem. Então, existem geladeiras mais eficientes do que outras, eletrodomésticos mais eficientes. Isso que é o uso eficiente da energia: consumir menos, sem prejuízo da qualidade dos serviços, do bem-estar, do conforto do consumidor. Ou seja, ter um consumo de energia menor para o mesmo serviço. Isso vai diminuir a necessidade de construção de novas usinas e, obviamente, vai diminuir o impacto ambiental do sistema energético, porque, para a mesma qualidade de vida, industrial e de transporte, se usará menos energia. Esse uso mais eficiente da energia vai complementar uma geração mais renovável de energia no sentido de ter um sistema energético de desenvolvimento com menor impacto ambiental.

IHU On-Line – Como vê o investimento em energia hidrelétrica atualmente? O Brasil acerta em investir neste modelo ou deveria intensificar o investimento nas fontes alternativas?

Emilio Lèbre La Rovere – Tudo é uma questão de prazo, de tempo. A tendência em longo prazo vai ser essa, de passar para fontes como a eólica, a solar, a biomassa, por exemplo. Vamos viver uma transição nesse sentido. Mas como no caso da energia solar, isso vai levar bastante tempo, não vai ser para amanhã. Nos próximos 10 anos, como eu disse, a penetração razoável projetada da energia solar na matriz ainda é pequena. Então, não podemos, de uma hora para a outra, interromper a construção de hidrelétricas. Creio que já está havendo uma evolução no próprio desenho das hidrelétricas, que estão sendo feitas de uma forma menos impactantes para o meio ambiente e para as populações locais do que era feito no passado.

A construção de hidrelétricas remanescentes no Brasil, principalmente na Amazônia, que é um ecossistema frágil, tem o problema de, na tecnologia convencional, necessitar inundar grandes áreas, grandes reservatórios para armazenar a água e, portanto, ter um elemento de estoque de energia no sistema. Esse modelo, que deu origem a usinas como Balbina, Tucuruí, São Manuel, que foram muito impactantes sobre o meio ambiente, só puderam ser construídas porque o Brasil vivia em um momento autoritário.

Hoje em dia, a gente já tem uma segunda geração de projetos. A usina de Belo Monte, as do Madeira, Santo Antônio e Jirau já têm reservatórios muito menores em relação à quantidade de energia elétrica que elas proporcionam. Elas são impactantes? Sim, continuam sendo impactante, mas em uma escala muito menor do que Balbina, Tucuruí e São Manuel foram. Agora há também a perspectiva de viabilizar o procedimento com hidrelétricas de grande porte a das usinas plataforma, que, particularmente pensando na Amazônia, seriam usinas que não abririam estradas para a condução de uma obra, o que traz, com as estradas, o acesso de um fluxo migratório para a região, o aumento da população, de uma série de impactos sociais negativos e também ameaça de aumento de desmatamento.

Então a ideia da usina plataforma seria um canteiro isolado no meio da floresta, em que você levaria o material para lá de helicóptero e faria uma construção sem abrir vias de acesso, apenas com os trabalhadores necessários durante o período da obra e que depois, na verdade, não daria margem a criação de uma nova cidade. Depois seria desativado esse canteiro, se regeneraria a floresta e, com isso, ficaria só o pessoal necessário para a operação da usina. Com isso, você viabilizaria a construção de hidrelétricas com um impacto ainda menor do que hoje. É claro que o setor elétrico está pagando um preço por isso já em Belo Monte e nas usinas do Madeira. Têm reservatórios que não conseguem armazenar a quantidade de energia elétrica que o setor elétrico desejaria. Em outras palavras, na época de cheia, tem que se jogar muita água fora, muita água vai pelo vertedouro, sem ser turbinada e gerar energia elétrica. Mas me parece que esse é um compromisso aceitável. Ainda assim, o custo da construção dessas hidrelétricas é competitivo com as outras formas de energia disponíveis em curto prazo e, por isso, se justifica a sua construção.

NOTA

[1] O Estádio Governador Roberto Santos, ou Estádio Roberto Santos, é um estádio de futebol localizado no bairro de Pituaçu, em Salvador, de propriedade do estado da Bahia. Possui uma capacidade para 31.677 espectadores e já foi palco de grandes jogos. É mais conhecido como Estádio Metropolitano de Pituaçu, ou simplesmente Estádio de Pituaçu. O estádio ganhou o prêmio de melhor gramado da Série B de 2010 concedido pela Confederação Brasileira de Futebol. É um dos estádios baianos candidatos a centro oficial de treinamento durante a Copa do Mundo FIFA de 2014, uma vez que a Arena Fonte Nova receberá os jogos.

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