Quarta-Feira, 19 de junho de 2013
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Artigos - Opinião
26.06.12
[ Mundo ]
Sem ilusões
Valdemar Menezes
Adital

A Rio+20 não fez mais do que expressar a relação real de forças existente no mundo. O documento não poderia ir além dessa realidade de poder. As insatisfações são justas. Mas, não se pode culpar o governo brasileiro pelos limites da declaração. Ao contrário, o Brasil cumpriu bem sua responsabilidade de anfitrião. Fez mais: colocou a questão da erradicação da pobreza como meta incontornável de um desenvolvimento sustentável. A pobreza é a mais contundente expressão de degradação de um mundo ecologicamente violentado. Os itens específicos de proteção da Natureza nem por isso são menos importantes, mas seria cômodo ficar apenas na bitola da agressão aos recursos naturais. Sem encarar a injustiça social, restaria apenas o lado fashion do protesto ambientalista.

DERRAPADA

É indisfarçável o choque provocado nos admiradores de Lula pela foto de seu encontro com Maluf, quando firmavam uma aliança eleitoral para a Prefeitura de São Paulo. Além de críticas sinceras, houve muitas de teor hipócrita (como a dos tucanos e de outros segmentos que não pestanejariam um momento sequer em fazer o mesmo). As regras da política têm muito a ver com as da guerra (quanto mais se agregar forças contra o adversário, mais factível a vitória). Mas, há certas alianças que só devem ser feitas diante de situações extremas, como uma catástrofe ou uma ameaça à integridade nacional. Quando isso acontece, o que importa é salvar o principal.

BRECHA

Não dá para considerar ameaça mortal à democracia uma eventual derrota do PT em São Paulo (embora vencer os tucanos, ali, seja de extrema importância estratégica para o projeto histórico que o PT tem para o Brasil). No entanto, subestimar aspectos simbólicos da política e passar a impressão de relativismo de valores pode ter sido um erro (mesmo se levada em consideração a afirmação de que Paulo Maluf não interferirá no programa de governo de Haddad). Sua imagem de corrupto é muito forte para ser relativizada nos embates de uma eleição.

PROPAGANDA ELEITORAL

O que induziu o PT à constrangedora aliança com o PP malufista (pois o PP nacional já está na base do governo federal) foi a necessidade de aumentar seu tempo na TV. Essa é uma das tantas deformações do atual sistema eleitoral, que faz uma distribuição antidemocrática do tempo da propaganda eleitoral eletrônica. Quem dispõe de mais tempo para vender seu peixe, tem maiores chances de vitória. Ora, isso violenta a democracia. Favorece o congelamento de uma dada relação de forças, decorrente, muitas vezes, de uma conjuntura política já superada. Assim, impede-se o florescimento de novas opções. Mais: virou uma moeda de troca imoral. Todos os partidos deveriam dispor de tempo igual - o mesmo deveria acontecer com as coligações (assim se evitaria a necessidade de acoplar partidos para obter mais tempo de propaganda).

RETROCESSO

O continente assiste a uma nova investida golpista - semelhante à de Honduras - desta vez no Paraguai. O Congresso, dominado por uma casta latifundiária e de contrabandistas expulsaram o presidente eleito pelo povo, usando o impeachment, apenas porque não concorda com o programa social do governo Fernando Lugo, sobretudo, a reforma agrária. Lá, os privilégios bancados pela longa ditadura de Stroessner continuam intocáveis. O Brasil, também, não pode se vangloriar demais de sua democracia. Aqui, as forças que apoiaram a ditadura ainda tutelam o País, como ficou demonstrado na recente resposta do Estado brasileiro à OEA, recusando-se a apurar a morte de Vladimir Herzog e punir os responsáveis. Já, na Argentina, as forças incomodadas com a nacionalização da petrolífera YPF/Repsol tentam desestabilizar a presidente Cristina Kirchner.

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