A mineração e seus efeitos negativos afetam diversos países da América Latina, entre eles o Equador. Para fazer frente a atividade exploradora e contaminadora a população está se organizando e resistindo. Um exemplo desta luta para preservar o meio ambiente e garantir um futuro saudável para as próximas gerações é a Frente de Mulheres Guardiãs da Amazônia, formada por campesinas da província de Morona Santiago. Elas decidiram enfrentar os problemas socioambientais para assegurar o sustento de suas famílias e a conservação de rios, bosques e demais bens naturais da região.
Cientes de que só o envolvimento ativo e a mobilização dão resultados concretos, amanhã (14), as Guardiãs da Amazônia se reunirão em Gualaquiza para o Encontro "Mulher, Direitos Humanos e da Natureza no contexto dos Conflitos Socioambientais” com o objetivo de fortalecer seu papel de defensoras de direitos e dar continuidade à luta contra os interesses desmedidos de Governos, Estado e empresas transnacionais nos recursos naturais de Morona Santiago.
Para falar mais sobre a luta das mulheres ADITAL conversou para Inés Fajardo, integrante do Diretório das Guardiãs da Amazônia. Confira a entrevista.
Adital - Nesse contexto de conflitos socioambientais, qual é o papel das mulheres ante estes problemas?
Inés Fajardo: Antes de responder a pergunta quero fazer um agradecimento a Adital por esta entrevista e fazer-lhes conhecer que a Frente de Mulheres Guardiãs da Amazônia agrupa mulheres de comunidades campesinas afetadas pela mineração na província de Morona Santiago que está ao sul da Região Amazônica do Equador. Em nossa zona estamos afetadas diretamente por megaprojetos de como são Pananza-San Carlos e Mirador, ambos pertencentes à corporação chino-canadense Corriente Resources, a qual se apoderou de milhares de hectares em nossos territórios, em especial ao sul de nossa província de Morona Santiago e norte da vizinha Zamora Chinchipe.
Respondendo já à pergunta diria que nós mulheres temos sido protagonistas dos processos de resistência que acontecem em torno destes conflitos há mais de uma década em nossa província. As mulheres têm consciência e sentem os problemas socioambientais de uma maneira particular porque o que está em risco é a própria vida, a sobrevivência das futuras gerações e de nosso planeta. No caso da Amazônia, sendo esta "o pulmão do mundo”, nós mulheres sabemos a importância de defendê-la e por isso participamos de maneira ativa na resistência a todos os projetos de morte que vão prejudicar nossos frágeis ecossistemas amazônicos, como são os grandes projetos de mineração.
Adital – Como estes conflitos afetam direta ou indiretamente às mulheres? E como elas estão se organizando antes estas ameaças?
Inés Fajardo: Estes conflitos afetam as mulheres de maneira direta porque colocam em risco as fontes de sobrevivência de nossas famílias. Nós vivemos à base da agricultura e da pecuária, mas ao governo só interessa a mineração, a qual contaminará o solo, a água e o ar, e será impossível que possamos viver nestas condições. Já não poderemos produzir alimentos saudáveis como fazemos agora e nossos filhos serão os mais afetados por todas as enfermidades que a mineração traz, isso sabemos bem porque temos investigado muito, inclusive temos ido a Cajamarca no país irmão Peru, para ver qual é a realidade dessas comunidades afetadas pela mineração e é algo desumano, por isso agora em Cajamarca estão lutando duro contra o projeto Conga.
O governo em lugar de apoiar ao campesinado o que faz é impor políticas de controle como o famoso areteo (identificação eletrônica do gado) de nosso gado.
Por todas essas razões nós mulheres não duvidamos em sair em defesa de nossa Amazônia, mas quando o fazemos somos encarceradas, processadas, perseguidas, mal vistas pelas autoridades. Tivemos casos de companheiras acusadas até de "terroristas” pelo único delito de defender a vida.
Frente a isto temos visto que organizar-nos é uma necessidade indispensável para conhecer nossos direitos, para exigir proteção ao Estado para nossas comunidades e famílias. Desta maneira nos convertemos em Defensoras de Direitos e isso nos coloca em uma situação de maior responsabilidade com nossos princípios, mas ao mesmo tempo de vulnerabilidade ante os grandes interesses econômicos e políticos, e por isso necessitamos nos comprometer mais com nossa própria organização e buscar nos unir com outras organizações que tenham os mesmos objetivos de lutar por nossa Amazônia, pela soberania de nosso país e pelo planeta em geral. É por isso que somos parte da Coordenadora Nacional pela Defesa da Vida e da Soberania do Equador e em nível regional da União Latino-americana de Mulheres – Ulam.
Adital – No Encontro de 14 de julho o tema será "Participação das Mulheres em Defesa dos Direitos Humanos e da Natureza no contexto dos conflitos socioambientais”. O que motivou a realização deste Encontro?
Inés Fajardo: Primeiro o fato de que em nossas comunidades existe este problema permanente, que nos toma todos os dias ocupando tempo, ânimo e inclusive recursos familiares para fazer frente. As empresas mineiras chegaram carregadas de dinheiro e apoiadas pelo Estado e os governos. O que nós tínhamos?
Assim aprendemos que somente nosso envolvimento ativo para as reclamações e mobilização dá frutos efetivos e isso nos fez em muitos casos abandonar nossa vida "normal” e converter-nos em Defensoras de Direitos. Isso é todo um processo de mudança importantíssimo na vida de muitas mulheres campesinas, algumas quase analfabetas que tivemos que capacitar para reclamar por nossos direitos. Que temos tido que aprender a dar-nos tempo para a organização e a luta além de ser mães de família e trabalhadoras do campo.
Então queremos falar sobre isso, sobre como é difícil nossa participação, o que implica às vezes ter que deixar só nossos/as filhos/as, dos conflitos inclusive intrafamiliares que são gerados por nossa decisão de ser parte da luta.
Queremos compartilhar com outras mulheres o difícil que é ter que afrontar um julgamento sem recursos econômicos, com o risco de ficar anos na cadeia, e com a empresa e o governo pressionando contra nós.
Mas também queremos falar de que a pesar de tudo isso estamos firmes em nossa decisão de defender a Amazônia, a vida, a soberania do país, já que os governos ‘vendepatria' não o fazem, e mais além já estão dando sinal verde ao nefasto projeto Mirador de Ecuacorriente, com o que assinaram o primeiro contrato mineiro.
Adital – Vocês poderiam enumerar alguns dos principais conflitos ambientais na região?
Inés Fajardo: Em nossa província de Morona Santiago o conflito principal que temos é com os mega projetos mineiros. Os que nos afetam mais diretamente são os de Pananza-San Carlos que estão nas regiões de Limón Indanza e San Juan Bosco, e o de Mirador que está na vizinha província de Zamora Chinchipe. Mas também temos uma invasão de pequenos mineiros ilegais que rondam nossos rios em busca de ouro. Conjuntamente com as mineradoras vêm as hidrelétricas, e assim há alguns projetos propostos para estrangular nossos rios, em especial o rio Zamora.
Nesse contexto, as comunidades campesinas e indígenas que habitam nesta província ficam sobrando. Para as grandes corporações, o Estado e o governo nós somos um estorvo para seus "planos estratégicos”, e por isso fazem de tudo para tirar-nos de nosso território, para deixar-nos sem nenhum direito e sem possibilidade de reclamar.
Adital – Como o governo tem atuado ante estas demandas?
Inés Fajardo: Está atuando colocando-se ao lado das grandes corporações transnacionais, declarando o projeto Mirador e Pananza San Carlos como "projetos estrelas”, apesar de que jamais foram nem sequer consultados com as comunidades. Atuou desacatando o Mandato Mineiro que extinguiu as concessões de todas aquelas empresas que não haviam realizado processos de consulta, que estão em áreas protegidas e bosques protetores, e que tenham mais de 3 concessões vigentes. No caso de Panaza-San Carlos não se fez efetiva essa extinção apesar de que nunca se realizou processos de Consulta Prévia e se mantém 13 concessões vigentes desta empresa em nossa província.
Atuou perseguindo e criminalizando nossa luta e nosso trabalho como Defensoras de Direitos Humanos, e montando uma campanha permanente de desinformação sobre a suposta "mineração responsável”, e de que o projeto Pananza-San Carlos será a segunda mina de cobre maior do mundo e que com ele se acabará a pobreza no país.
Atuou com artifícios e total incoerência com o que prega. Em 2007, o recém eleito presidente Rafael Correa disse em Gualaquiza: "Entendamos que nossa maior riqueza não é o petróleo não são as minas, é nossa gente e nossa terra e conservemos essa natureza... se dará privilégio, um lugar privilegiado aos direitos ancestrais e coletivos de nossa gente, e se há uma nacionalidade indígena habitando na terra e queremos uma exploração mineira nessa terra, temos que pedir autorização dessa comunidade indígena, senão simplesmente não se poderá explorar...”. Isso foi dito ante tanta gente que tinha a esperança de que esse governo ia estar do lado povo.
Agora diz que nos projetos dos setores estratégicos o povo não tem nada que opinar, diz que sem mineração a vida já não é possível, que devemos apostar tudo na mineração, inclusive o futuro de nossas gerações, e o presidente Correa disse até que dada a importância que terá a mineração seu binômio para a reeleição poderia ser um especialista em mineração.
Frente a esta posição do governo nosso caminho é a resistência e o que esperamos é que neste Encontro consigamos sair fortalecidas para continuar nosso duro, mas indispensável trabalho.
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