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Quinta-Feira, 23 de maio de 2013
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22.03.12 - Brasil
As religiões diante dos desafios das migrações internacionais
Roberto Marinucci
Pesquisdor do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios – CSEM
Adital

Até alguns anos atrás, raramente a dimensão religiosa entrou na pauta dos debates relacionados com a mobilidade humana. Uma difundida mentalidade secularizada relegava o fato religioso ao foro interno da pessoa, tornando-o, desta forma, irrelevante na análise dos fenômenos sociais.

No entanto, recentemente estão se multiplicando estudos que apontam a religião e a religiosidade dos migrantes como fatores que podem interferir nos motivos da saída da terra de origem, na escolha da terra de destino e, inclusive, nos processos de integração no novo contexto sócio-cultural. Além disso, numerosas pesquisas revelam como as migrações internacionais podem provocar importantes mudanças tanto na religiosidade dos migrantes quanto na estruturação das próprias tradições religiosas.

Prova desse renovado interesse pela dimensão religiosa é um recente relatório do Pew Forum on Religion & Public Lifedo Pew Research Center, que apresenta dados inéditos sobre a afiliação religiosa dos migrantes internacionais. Trata-se apenas de estimativas, mas que permitem ter um quadro geral da relação entre migrações internacionais e afiliação religiosa.

Conforme esse relatório, que se refere ao ano 2010, os cristãos representam cerca da metade dos migrantes internacionais (49%), seguidos pelos muçulmanos (27%), os hinduístas (5%), os budistas (3%) e os judeus (2%). Membros de outras religiões – sikhs, jainistas, taoístas, afiliados a tradições africanas e chinesas, entre outras – totalizam 4%, sendo o restante (9%) composto por pessoas não afiliadas a nenhuma instituição religiosa.

No caso da América Latina e do Caribe, o México é o maior emissor de migrantes cristãos do mundo, com mais de 12 milhões, seguido pela Colômbia (11º lugar, com 2 milhões), Porto Rico (14º lugar, com 1,5 milhões), Brasil (16º lugar, com 1,3 milhões), Salvador (19º lugar, com 1,1 milhões) e Equador (21º lugar, com 1,09 milhões). De afiliação cristã são cerca de 91% dos emigrantes oriundos da América Latina e Caribe e cerca de 85% dos imigrantes que chegam na região - entre o reduzido número de não-cristãos, destaca-se a chegada de muçulmanos.

Os resultados do relatório levantam alguns importantes desafios. Em primeiro lugar, ao que tudo indica as migrações estão provocando uma rápida alteração do campo religioso de vários países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a histórica hegemonia das tradições protestantes está sendo atenuada pela forte imigração de católicos, judeus, muçulmanos, sikhs, hinduístas e budistas – atualmente, os afiliados a tradições protestantes são cerca da metade da população dos EUA, sendo que eram 2/3 em 1960. Importantes mudanças estão ocorrendo também na Europa, pela crescente presença muçulmana, e nos países do golfo Pérsico, pela imigração de trabalhadores asiáticos e africanos afiliados ao cristianismo ou religiões orientais. As migrações, em outros termos, estão contribuindo de forma determinante a quebrar os monopólios religiosos.

O relatório contribui, também, para superar determinados estereótipos sobre as migrações. Por exemplo, na União Europeia, o número de migrantes afiliados ao cristianismo (cerca de 26,3 milhões) é mais que o dobro em relação àqueles afiliados ao Islã. Mesmo considerando apenas a imigração extra-UE, o número de migrantes cristãos continua superior (13,1 milhões, contra 12,6). Na realidade, conforme o relatório do Pew Forum on Religion & Public Life, entre os primeiros 10 países receptores de migrantes de afiliação islâmica, 6 são de tradição muçulmana – o primeiro em absoluto é a Arábia Saudita. Esses dados nos levam a assumir um olhar mais crítico em relação à assim chamada "islamização da Europa” ou "Eurábia”.

Um terceiro aspecto importante refere-se à questão política. A mudança do campo religioso de determinados países, ao quebrar os tradicionais monopólios, acaba gerando uma disputa entre as diferentes tradições religiosas, bem como uma intensa luta em busca do reconhecimento dos próprios direitos nas esferas públicas. A presença de "estranhos exigentes”, ou seja, de afiliados a tradições religiosas não tradicionais no território que reivindicam igual tratamento em relação às demais denominações, acabou desarranjando determinados equilíbrios na regulamentação da espinhosa relação entre Estado e Igreja(religiões). A disputa sobre a presença do crucifixo nas salas de aula na Itália, as polêmicas acerca da inclusão do cristianismo na Constituição Europeia ou as numerosas proibições relacionadas a práticas religiosas –o burquaislâmico ou a matança ritual de animais, entre outras– revelam as dificuldade em lidar com um campo religioso profundamente transformado e plural.

Finalmente, há um último desafio referente à posição que as religiões mundiais assumem em relação ao fenômeno migratório. Num contexto de intensas migrações internacionais, muitos grupos religiosos costumam enviar ministros para acompanhar os próprios afiliados a fim de evitar o esfriamento da fé e da prática cultual. A migração, enquanto afastamento de referenciais identitários, é interpretada como um perigo para a religiosidade do migrante. Não raramente, lideranças religiosas tomam posição também em defesa da dignidade dos migrantes, denunciando a violação de direitos e conscientizando as próprias comunidades.

Nessas atividades, no entanto, existe sempre o risco que essas lideranças religiosas tenham uma preocupação unilateral e exclusiva em relação aos "próprios” migrantes. Isso é compreensível em questões especificamente doutrinais e rituais, mas no que diz respeito à questão ética, as religiões mundiais são chamadas a anunciar a universalidade do respeito da dignidade humana, independentemente da naturalidade e da afiliação religiosa da pessoa. Em outros termos, enquanto portadoras de uma visão do mundo que ultrapassa a imanência e, portanto, que tende relativizar –não desprezar– qualquer tipo de construção histórica –incluindo as fronteiras entre os Estados– as religiões mundiais são chamadas a tomar uma posição firme em prol da vida e da dignidade de todos os migrantes, exigindo, por parte dos governos nacionais e dos organismos internacionais, a subordinação de qualquer tipo de interesse específico à defesa intransigente dos direitos fundamentais do ser humano.

[Fonte: Resenha 86, CSEM].

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