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"A Igreja não pode
omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo."
Ao meu irmão Frei Tito
Colaboração de amigos
ENTREVISTAS
João Valença
Entrevista concedida a Ana Rogéria Araújo para o site da Adital, em 10.08.2004
Nascido em Garanhuns, estado de Pernambuco, João Antônio Caldas Valença foi preso e torturado na mesma noite que Frei Tito, nos inquietos anos 60, no período da ditadura militar. Deixou de exercer o sacerdócio desde 1969, pouco antes da prisão. Atualmente, tem uma intensa atuação junto a várias religiões cristãs e não cristãs, onde também não deixa de prevalecer seu sacerdócio. Desde 1985 acompanha doentes terminais, principalmente os vitimados pela Aids, na Bahia. Atua ainda no apoio às organizações não governamentais na área contábil e econômica. João Valença é um dos convidados para o evento "30 anos de Martírio de Frei Tito", que acontece hoje em Fortaleza, Estado do Ceará, e que celebra a memória de um dos testemunhos de vida mais valiosos da história.
Adital - O senhor foi preso e torturado junto com Frei Tito no final da década de 60. Pode falar um pouco sobre isso?
Valença - Eu fui preso e torturado na mesma noite que Tito. Fomos torturados no mesmo local e pelo mesmo torturador. Quer dizer, ele acompanhou a minha dor e eu acompanhei a dele. Também havia uma terceira pessoa que era o Giorgio Calegari que faleceu recentemente. Então essa experiência de terror nós vivemos juntos.
Adital - Como foi que o senhor conheceu Frei Tito? Como foi a aproximação de vocês?
Valença - Eu acompanhei Frei Tito desde a chegada dele no convento porque eu fui da Nacional de Ação Católica, no período de Dom Helder, no Rio de Janeiro, em 1959. Nesse período, Tito passou a ter uma função muito importante de direção na Ação Católica e Juventude Estudantil Católica (JEC) aqui no Nordeste e sediada em Recife. Eu não o conhecia porque quando ele começou a militar eu já estava no noviciado, mas sabia da presença dele como um dos militantes mais atuantes do Nordeste. Quando ele chegou no convento, a nossa sintonia foi imediata por questão cultural. Nós pertencíamos à mesma região e havia uma avidez por minha parte de saber do desenvolvimento político e social de Pernambuco. Porque eu deixei Pernambuco na mão da direita e ele deixou nas mãos da esquerda e já com Dom Helder na coordenação da igreja de Olinda.
Adital - Para o senhor o que foi determinante para que a figura de Frei Tito tomasse essa dimensão que tem hoje?
Valença - O que vou estar falando no evento de abertura do Instituto de Educação para os Direitos Humanos Frei Tito é que o que determina essa importância são os acontecimentos. Há um sentido profético e todo profeta, toda a sua história pessoal é muito simples, de uma certa humildade. Quando chega a hora de uma decisão em nome do seu povo, nessa hora até a gente se assusta porque nós nunca pensávamos que seríamos chamados, teríamos capacidade, e teríamos coragem para este ato. Então o que eu tenho a dizer para a comunidade do Ceará é que Tito não nasceu por acaso aqui. Segundo, ele não nasceu por acaso numa família Alencar. Ele carregou toda uma cultura familiar e uma família próspera de filhos, onde ele foi o décimo quinto. Tito assimilou muito bem toda a cultura cearense. Eu acredito que as grandes figuras nacionais e internacionais, quando nascem, elas nascem incorporando gerações. Ele incorporou nas suas atitudes toda uma cultura que vem de um passado cearense e, depois, nordestino, que se complementou com toda a complexidade de uma cultura que já vinha sendo trabalhada há 800 anos que era a cultura dos dominicanos. Ele é fruto de tudo isso. Ele não nasceu à toa.
Adital - Frei Tito tinha esse compromisso intenso de ligar a Igreja aos interesses do povo. Como o senhor avalia a atuação desse compromisso hoje?
Valença - O que eu noto é que a igreja que Frei Tito viveu é diferente da igreja que nós estamos vivendo. Ele viveu numa igreja pré-conciliar e viveu com um arcebispo que serviu a seu povo. E a palavra de ordem de Dom Helder para seu povo era que cada um tivesse essa abertura de coração para o serviço. Não foi por acaso que Tito escolheu a vocação sacerdotal. Ele queria servir totalmente a seu povo. Ele tinha vários caminhos para fazer isso no Nordeste, inclusive o próprio caminho do Partido Comunista, mas ele resolveu que essa vivência de unidade de seu povo estivesse junto da igreja, e com a igreja. Hoje eu vejo que a missão que começava a ter no universo coletivo da época, de uma certa maneira, é a mesma missão que temos hoje. É uma missão que está carregada de uma responsabilidade e de um peso maior de luta por uma libertação. Hoje nós já temos no capitalismo uma etapa muito mais intensa de violência; e a globalização trouxe para as novas gerações uma interrogação muito grande sobre o nosso futuro.
Adital - É possível fazer uma avaliação de quais seriam os principais obstáculos para uma transformação se o Frei Tito estivesse vivo?
Valença - Se Frei Tito vivesse hoje, eu diria que o desafio seria muito maior do que em 1969. Naquela época nós tínhamos uma ditadura nacional, hoje nós temos uma ditadura internacional do capitalismo. Então a coisa é muito mais aguda e profunda e nossas lutas serão maiores. Eu acredito que um dos elementos mais importantes que vamos ter com o Instituto Frei Tito é o da transformação. Foi esse elemento o principal motivador para Tito.
