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"A Igreja não pode
omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo."
Ao meu irmão Frei Tito
Colaboração de amigos
ENTREVISTAS
Frei Fernando de Brito
Entrevista concedida a Ana Rogéria Araújo para o site da Adital, em 10.08.2004
Aos 67 anos de idade, Frei Fernando de Brito -um dos companheiros contemporâneos de Frei Tito de Alencar- leva à frente sua missão sacerdotal na cidade de Sítio do Conde, no litoral da Bahia, onde desenvolve projetos culturais junto aos jovens, procurando oferecer uma ocupação e um novo sentido para suas vidas através da arte. No final da década de 60, chegou a ser preso e torturado. Dessa época tira muitos ensinamentos, sobretudo, dos deixados por Frei Tito. E é por conta da atuação do dominicano cearense, morto em 1974, que Frei Fernando está em Fortaleza, onde participa das atividades de abertura do Instituto de Educação para os Direitos Humanos Frei Tito de Alencar, que acontece hoje.
Em entrevista a ADITAL, Frei Fernando fala sobre o legado deixado por Frei Tito, a importância do Instituto, sempre ressaltando o aspecto humanista presente no trabalho do dominicano cearense que é um ícone de uma Igreja inquieta e combativa.
Adital - Como o senhor conheceu Frei Tito?
Frei Fernando - Conheci Frei Tito quando ele chegou em São Paulo. E Tito me impressionou. Ele era uma pessoa muito simples, uma pessoa que estava sempre brincando, amava a vida e era sempre muito atencioso com todos. Discutia não só os livros que ele tinha, mas a realidade do seminarista, a realidade dos jovens. Nesse tempo ele era o presidente do Centro Acadêmico do Instituto de Filosofia e Teologia dos Religiosos, em São Paulo, tinha uma boa liderança e, através do movimento estudantil, ele tinha uma participação política muito grande na época, era um momento de um inconformismo com a ditadura militar, com o aprofundamento da economia norte-americana no nosso país. Então, a imagem que me fica de Frei Tito é essa: a de um lutador. Em nome do evangelho ele era profundamente cristão. Aceitava o marxismo, mas ele foi buscar no marxismo um método para transformar a realidade brasileira que ele descobriu pela sua fé que não estava certa e que deveria ser mudada.
Adital - O senhor está em Fortaleza participando de um evento que lembra os 30 anos da morte de Frei Tito, do seu martírio. Qual é o grande legado deixado por Frei Tito?
Frei Fernando - O Frei Tito é uma pessoa profundamente brasileira, profundamente cearense. Ele está ligado ao povo, ele sempre foi um religioso que não vivia só pelo lia e estudava, mas ele fazia tudo isso sempre pensando no povo. A figura do Frei Tito que fica para sempre é justamente essa, a figura de uma pessoa que pensava no povo. Aquilo que é mais espetacular na vida dele, foi o modo de como ele morreu, de uma atrocidade muito grande, de uma tortura prolongada durante anos. É um pouco sobre isso que eu vou falar hoje. Ele traz permanentemente o torturador e diversos torturados. Ele vivia aquela atualidade entre a tortura que a ditadura militar fazia com o povo brasileiro e o próprio povo. Então quando ele morre, ele liberta todos aqueles que estavam presos e sendo torturados dentro da sua cabeça. Trata-se de uma pessoa que está sempre pensando no povo. O Tito não vivia pra si.
Adital - Frei Tito, Frei Betto, o senhor, são pessoas que vêm de uma igreja combativa, inquieta. Como é que o senhor avalia a igreja hoje, há continuidade desses projetos de luta?
Frei Fernando - No momento atual eu acho muito difícil. A globalização arrasou com tudo. Primeiro porque criou uma falsa imagem, sobretudo depois da queda do muro de Berlim, de que o socialismo não é mais possível. Esse grande sonho da humanidade, de ter uma vida melhor para todos, de uma distribuição de rendas e oportunidades igual para todos, isso não pode morrer, não pode acabar. Isso é a essência do evangelho. Jesus quando convida, não convida um, convida todos. Alguns aceitam, outros não. Quando a ditadura acaba com o sindicato ela mata as pessoas, a globalização nem precisa de matar, porque essa situação de morte é permanente, ela mata as aspirações, os ideais. Então hoje nós temos uma falta incrível de ideologia. Nós estamos vendo o pessoal sofrendo, e o inconformismo hoje não aparece de uma forma política, ele aparece de uma forma marginal. O que Tito deixa pra gente é um ideal voltado para o lado do povo e que por esse povo vale a pena viver e morrer. Também acho que houve um recuo extraordinário da Igreja desde Tito. Hoje se pensa muito no louvor, mas qual é o conteúdo desse louvor? Nós estamos louvando por que? Qual a vitória que nós conseguimos para podermos louvar? O povo de Deus quando canta seus louvores nos salmos tem um objetivo, ele tem uma vitória. O louvor para o cristão é por uma coisa grande que tenha acontecido. É preciso ter conteúdo. Nós não temos mais uma visão popular, nós temos hoje uma igreja voltada para o sacramento, para o louvor. Isso não me parece que seja evangélico.
Adital - Mas há uma perspectiva de mudança?
Frei Fernando - Eu espero que sim. Não tenho visto, infelizmente. Mas eu espero e tenho fé. Sei que um dia vai mudar. Eu vivi num tempo pior. Em 64 as aspirações, que eram também da igreja, foram mortas. No momento em que a gente foi preso, a CNBB tinha em sua cúpula um grupo ruim, péssimo, mas a gente conseguiu sobreviver e dar uma contribuição para a transformação da igreja.
Adital - Hoje se está fazendo, aqui em Fortaleza, Ceará, a abertura do Instituto de Educação para os Direitos Humanos Frei Tito de Alencar. Como dimensionar a importância dessa iniciativa?
Frei Fernando - Eu vejo uma importância enorme do Instituto para a perpetuação da memória de Frei Tito e quando falo na memória eu não penso simplesmente em fazer com que uma pessoa sofredora permaneça na memória do povo. Penso muito mais. Comparo muito a vida de Tito com a de Jesus. Jesus quando morre, deixa um memorial, a eucaristia é uma memória permanente da mensagem subversiva de Jesus. Ele subverteu os valores de seu tempo. E ele não foi morto como um simples ladrão. Ele é morto na cruz que é a pena concedida aos subversivos. Então é essa memória subversiva que eu acredito que existe nesse ideal de Frei Tito. Num aparente suicídio, ele faz disso mensagem de libertação. Numa aparente entrega voluntária, Jesus faz da sua morte uma libertação do povo. E Tito também faz isso.
