Ao meu irmão Frei Tito
Colaboração de amigos

RELATOS
Ele resistiu à opressão
Dr Jean-Claude Rolland

Assistente Chefe de Clínica Serviço das Emergências Médicas e Psiquiátricas Hospital Eduardo Herriot, Lyon, França.

Tito de Alencar prejudicado em suas faculdades mentais: não precisa mais nada para que o destino desse homem perca sua força e seu direito de questionamento. Uma estadia no hospital, uma morte suicida: quando lidos literalmente, tais acontecimentos bastam para assegurar a desdramatização.

Ora, nós afirmaremos a força do "drama" na vida de Tito de Alencar. Talvez esta seja mesmo a mais evidente mensagem que ele desejou transmitir. Sem discursos - salvo o de seus tormentos. Há situações que não precisam de outras palavras que sua própria tragédia e seu irremediável desenlace:

 

“Quando secar o rio de minha infância, secará toda dor”.

Transcreveremos aqui o que nos pareceu compreendermos do drama de Tito. Sem certeza alguma. Como o drama de qualquer um de nós defrontando-se com seu destino - não podemos reduzi-lo a algumas explicações. Para Tito, como para nós outros, permanece uma grande faixa de impenetrável, de mistério, a sombra de uma opacidade que talvez nos inquieta mas que também nos edifica

Acreditamos que Tito descobriu através das provas que teve de enfrentar algo que não se possa exprimir de outra forma senão por esta incapacidade de viver. O que? Seríamos tentados de dizer logo: a dúvida. Não a dúvida que se opõe à fé, mas aquela que se opõe à evidência. Para Tito de Alencar, num determinado momento não havia mais a evidência do existir ou do sobreexistir. Não somente porque algo havia movido dentro dele, destruído por seus torturadores, mas porque através da experiência que ele viveu produziu-se uma ruptura em relação ao mundo, uma inversão da ordem das coisas, uma visão radicalmente outra, sardônica, ameaçadora.

Inominável para nós, a quem não é dada esta experiência – nem talvez seja ela possível para nós, nos impedindo de empatizar com o mais íntimo de seu tormento.

Daí o silêncio que sempre pesou entre ele e nós, sob o qual adivinhávamos: angústia, medo, tormento... ruído. E que não podemos imaginar e recompor senão metaforicamente, sob a forma daquelas cenas infernais povoadas de malignos e do monstro que a Idade Média esculpia com impaciência e alívio sobre os capitéis das igrejas romanas.

Ele foi submetido à tortura física, sevícias corporais, tortura moral, vendo caluniados e ridicularizados os símbolos de sua família espiritual. Temos o testemunho de amigos dele que passaram por provas semelhantes. Mas sob o furor de seus torturadores, sob sua torpeza, Tito descobriu algo que o separou radicalmente de seus companheiros, uma imagem inimaginável, monstruosa, do homem: esse torturador que o persegue, embora criado à semelhança dele, carne da mesma carne, compatriota, talvez até irmão, mostrou-lhe uma face tão louca, sendo movido por tamanho ódio e sem descanso até quebrar totalmente sua presa.... Esta imagem deve tê-lo invadido muitas vezes, quebrando com violência sua própria imagem, agindo como a revelação de um negativo fotográfico, zerando a diferença que outros conseguiram manter entre o homem e o carrasco. Tito duvidará então do homem, dos outros, dele mesmo.

Será que foi esta revelação que ele pôs em ato no seu primeiro suicídio, cuidadosamente preparado e executado, mas impedido pela vigilância e obstinação de seus torturadores. Haveria muito que se refletir sobre esse gesto cuja culminância diferido foi o enforcamento num galho de um álamo, na periferia de uma cidade operária?

Tito de Alencar morreu para a vida nesse dia de fevereiro de 1970, quando sobre a bacia de sua cela seccionava uma artéria?

Ordinariamente os carrascos aliviam seu ódio matando sua vítima. Por um tremendo paradoxo, é obrigando a sobreviver que seus carrascos agiram com Tito. Certamente havia alí também motivos políticos. Más, por outros testemunhos, sabemos também que, entre o carrasco e sua vítima, se estabelece uma osmose, uma colusão onde cada um adivinha o outro num meio-gesto, numa meia-palavra, num pensamento apenas esboçado. Bastava o carrasco se deixar levar apenas por sua intuição para saber o que quebraria melhor seu parceiro, e nesse caso não era a morte. Só uma relação fundada exclusivamente no ódio poderia ter um tal gênio destruidor e não desejaríamos nos omitir sublinhando a conivência das forças reacionárias e do sadismo, nutrindo-se mutuamente e mutuamente se ocultando. Só o sadismo pode explicar tal regressão ética da relação inter-humana, injustificável pelo simples jogo político. É o que se deve compreender das palavras tão comoventes de Tito transcritas por Xavier Plassat:

"Eles quiseram me deixar dependurado a noite toda no "pau- de-arara, mas o capitão Albernaz objetou: não é preciso, ya-mos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia.”

Esta proximidade psicológica do carrasco e de sua vítima, esta comunhão satânica que bate tudo de um golpe, tornando a pessoa sem forças, constituiu para Tito a experiência destruidora fundamental de sua existência. Mesmo no limiar da morte ele não pode escapar de seus maquiavéicos planos, por isso ele não deixará de sentir-se perseguido pelo delegado Fleury, mesmo na França, mesmo em L’Arbresle. Quem estava louco: Fleury ou Tito? Nunca quisemos reter o caráter alucinatório das experiências ulteriores do Tito. É que, com efeito, Fleury havia-se apossado do corpo do destino de Tito e continuava a torturá-lo. Não se trata apenas de uma metáfora, mas, graças ao ódio, o carrasco havia se introduzido na pessoa de sua vítima. É por isso que Tito nos apareceu ao mesmo tempo tão longe e tão desconfiado e, ao mesmo tempo, tão comovente e tão desgastante.

A expatriação não havia libertado Tito de seus torturadores. Nós sempre pensamos que um novo expatriamento (em um hospital psiquiátrico, ou numa clínica de repouso) não o teriam libertado melhor. Tal decisão não teria aliviado senão a nós mesmos pois esse drama vivido por Tito nos solicitava violentamente. Talvez nós mesmos é que passávamos a duvidar...

Quem era louco: Tito ou seus torturadores?

Parece-nos ser a questão essencial pela qual o processo iniciado no Brasil se prolongava na França. Nos pareceu que os distúrbios que ele apresentou entre nós tinham uma continuidade política e que seria perigosíssimo tentar responder-lhes ao pé da letra. Tito, a seu modo, diferente dos demais refugiados, deu testemunho da opressão no Brasil, dramatizando-a em sua conduta. Era deste modo que ele podia mostrar o caráter insidioso, injusto e insustentável com que a opressão trabalha seus adversários, subjugando-os como o foi Tito por meio das vozes, tomando posse no seu íntimo (Tito em Eveux não deixava de obedecer às ordens de Fleury), abalando suas convicções na autenticidade de sua praxis (nem padre nem revolucionário). E seus amigos sabem quão dolorosa foi para Tito a confusão de valores, nele imprimida pela tortura e pelo encarceramento, acuando-o a uma impossível busca.

Se afirmamos que através da conduta de Tito em França é o próprio processo que continuava, é porque o último esforço da reação consistia exatamente em fazê-lo passar por louco: a inversão de sentido teria sido completa, e Tito teria sido outra vez entregue aos torturadores cuja loucura teria acabado por assumir.

Dependia de seus amigos na França a possibilidade de sua conduta ‘desviada’ ser considerada como sinal ou testemunho. Ao afirmar a autenticidade de seu testemunho, seus amigos também resistiram à opressão.

Outubro de 1974

 
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