POESIAS E CARTAS
POSIÇÕES E ANÁLISES
FRASES
"A Igreja não pode
omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo."
As próprias pedras gritarão
Posições e Análises
Não se faz de noite uma revolução que é para o dia
Tito de Alecar, Paris, 1973
Neste texto escrito em Paris, em 1973, Tito volta a discutir a estratégia da luta armada, que não defende mais como fazia em colocações anteriores.
É necessário e urgente responder polìticamente à ditadura. Nessa perspectiva, penso que a luta armada, como forma da luta principal, é um erro. Ela não chega a ser um instrumento político hoje, nem pode gerar um processo político de consciência e organização do povo. Em outras palavras, ela não tem como nesta fase criar no meio do povo as condições objetivas para uma luta armada. Por quê? Entre nós, faz muita falta uma visão política que seja capaz de conduzir o povo a uma guerra direta contra a ditadura. Perpetuar a luta – como forma principal – seria prosseguir na política de esvaziamento de quadros e aumentar cada vez mais nosso isolamento. Se hoje estamos facilmente vencidos e minados pelo aparelho repressivo, é porque ele consegue, de maneira inteligente, isolar-nos do povo. Foi no contexto desse “vazio político” que o governo Médici firmou-se e edificou as bases econômicas e políticas do fascismo hoje vigente no país.
Esse vazio político é fruto direto de uma concepção de luta equivocada, como demonstra a prática (critério da verdade). Essa concepção foi marcada por uma estratégia (o campo) e uma tática (a guerrilha). É através desse prisma que proponho uma revisão séria de nossos objetivos táticos e estratégicos. Análise a terminar. [...]
Assistimos à volta da política ‘Truman’: a América aos americanos. Precisamos nos tornar extremamente vigilantes em relação à questão da luta ou da ação armada no continente e especialmente no Brasil. Ainda mais se considerarmos nossas características históricas.
Nosso proletariado é jovem. Sua tradição não é das mais ricas para que aceite o projeto imediato e aberto da luta armada. È minha convicção: não é amanhã que nosso proletariado abandonará essa concepção. E se as vanguardas armadas não a abandonarem, vão perder cada vez mais e ampliar o fosso que nos separa das massas. A partir de 1964, a luta de classe no Brasil entrou em novos caminhos. A crise abriu nova perspectiva para a classe operária, mas somente para o longo prazo. [...]
Não se faz uma revolução da noite para o dia. A classe operária e seus aliados só podem tomar o poder quando estiverem politicamente maduros para essa missão. O proletariado brasileiro não tem uma tradição de luta mais sólida para que se envolva numa luta mais decisiva, tendo a luta armada como forma principal. Continuar a experiência iniciada a partir de 1968 é bater em ferro frio e adiar a tomada do poder.
Eu não sou derrotista, mas realista. Eu seria derrotista se achasse que a ditadura militar eliminou a luta de classe no Brasil a ponto de levar o povo a assimilar o sistema vigente. Eu não sou derrotista porque penso que a nossa situação atual é uma experiência a mais a ser adquirida. Meu esforço é muito mais otimista do que pensam aqueles que me criticam. Agora, só sairemos do buraco se soubermos explorar e aprofundar essa experiência. Ao pensar no futuro, não quero negar o passado, negar a missão de Marighela na luta revolucionária no Brasil. Mas acredito que Marighela cometia profundos erros na concepção tático–estratégica da luta revolucionária! Para mim Marighela fica no limite de alguém que conseguiu entender a crise brasileira. Conseguiu perceber que um novo período se abria na luta de classes. Mas não ficou claro em suas propostas no que diz respeito ao quando, como e onde de nossa luta. É assim que vejo a digna e heróica contribuição de Marighela no marxismo brasileiro. Ele enxergou muito bem a brecha que o golpe de 1964 abriu no capitalismo brasileiro, mas não soube ir além. Era marcado pelo modelo urbano e a estratégia da OLAS. Viu a crise, mas logo a esqueceu (quando recorreu a Cuba). Não viu a crítica, embora já antiga, do “debrayismo”.
A violência revolucionária é necessariamente a violência de uma classe e não a de uma vanguarda. A vanguarda limita-se a orientar politicamente essa violência. No Brasil, foi a vanguarda que decretou a violência revolucionária, sem orientar politicamente a classe operária. O que foi que aconteceu então? A guerra tornou-se uma guerra de vanguardas confusas e desorientadas. Não foi a guerra do povo, mas a guerra pelo povo. Nesse sentido, assumiu um papel eminentemente ético (a guerra é justa). Mas não assumiu um papel político (a guerra é correta).
Terminamos confrontando dois exércitos: o do inimigo levou uma enorme vantagem, a ponto de nos isolar. “O guerrilheiro é o peixe dentro d’água”. È somente através dessa imagem que o guerrilheiro pode existir e sobreviver politicamente. Uma canção popular brasileira diz: “Como pode o peixe vivo viver fora d’água fria?”. Fomos este peixe vivendo fora d’água. Por isso é que chegamos a esse impasse e a essa total falta de clareza política. Então precisamos mudar, modificar isso. Seremos guerrilheiros no dia em que tivermos livre trânsito no meio das massas. Fora disso, realmente, eu não vejo saída, e só assistiremos a mais prisões e mortes, uma depois da outra. E fico temendo um certo extermínio: o extermínio de uma geração de líderes marxistas, militantes de esquerda.
Fascismo e nazismo repousam sobre a idéia de extermínio de um povo, uma raça, uma classe. Na Alemanha, exterminaram os judeus; reduziram ao silêncio, de maneira brutal, o maravilhoso movimento operário da época de Marx e de Rosa Luxemburgo. No Brasil, o fascismo assume uma política de extermínio, não mais de uma raça, mas de uma geração de revolucionários, reduzindo ao silencio o movimento operário oriundo do período populista. É sobre essa realidade que quero chamar a atenção de milhares de patriotas e de revolucionários. Repito: não sou pessimista; procuro ser realista. Se estiver errado, estou disposto a fazer minha autocrítica. Não tenho nenhum interesse em fazer o “jogo” do inimigo. Essa é a minha opção histórica.
Estou disposto a prosseguir na luta dos trabalhadores até a vitória final.
