Segunda-Feira, 22 de setembro de 2014
16.05.10 - VENEZUELA
Reportagem Especial: Igreja da Libertação na Venezuela. A fé a partir da vida do povo
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As Comunidades Cristãs na Venezuela tiveram, em seus primórdios, uma necessária influência da chamada Teologia da Libertação. Trata-se de um postulado empreendido por sacerdotes, religiosos e religiosas e que propunha a existência de uma Igreja aberta a unir evangelização e luta social a favor dos setores mais desamparados e despossuídos.

Por Luisa Torrealba* e Andrés Cañizález**

Introdução

A tarefa evangelizadora foi além dos espaços físicos de templos, conventos, colégios e seminários, para adentrar-se nos bairros. Ali, homens e mulheres carregados de esperança e levando nas mãos o estandarte da fé, organizam-se para dar a conhecer a mensagem de Deus e, simultaneamente, promover atividades sociais que buscam oferecer melhores condições de vida para os habitantes dos setores populares.

Comunidades cristãs e Teologia da Libertação

As Comunidades Cristãs na Venezuela tiveram, em seus primórdios, uma necessária influência da chamada Teologia da Libertação. Trata-se de um postulado empreendido por sacerdotes, religiosos e religiosas e que propunha a existência de uma Igreja aberta a unir evangelização e luta social a favor dos setores mais desamparados e despossuídos.

No caso da Venezuela, a formação dos grupos religiosos populares tem-se dado sobre princípios de cooperação comunitária, acompanhados de uma atividade evangelizadora; sem chegar a um esquema impregnado de postulados socialistas.

O padre Bruno Renaud, fundador da Escola de Formação Popular de Petare e coordenador de várias comunidades cristãs estabelecidas neste setor popular do leste de Caracas, sustenta que, no caso das organizações eclesiais das zonas de maiores carências econômicas, "ninguém fala em teologia da libertação; sem dúvida, pelo que fazem, significa que seus integrantes entenderam espontaneamente que, segundo o evangelho, o amor ao irmão é a expressão do amor a Deus".

No caso das comunidades cristãs existentes no país, trabalha-se em favor do irmão, "institucionalmente assumido", por meio de: pequenos dispensários, escolas de formação, programas de capacitação de adultos e organização de grupos em áreas populares. Os protagonistas das experiências e os que refletem sobre elas preferem não falar de "teologia da libertação", mas ratificam que a atividade social que se realiza no seio das comunidades cristãs é "um esforço de solidariedade entre pobres".

Para Renaud, essa iniciativa de cooperação vem da interiorização da fé: "O que é urgente, é assumir a vida do outro, como no Evangelho do Bom Samaritano que é figura do próprio Jesus que assumiu a vida da humanidade ferida".

Esse processo de interiorização da fé, teria se produzido a partir dos anos 60, quando no continente latino-americano se produziu uma tomada de consciência lenta, mas progressiva, cuja expressão máxima foi a Conferência Episcopal Latinoamericana realizada em 1968 em Medellin (Colômbia). Certos Fatores da política Econômica, com concepções neoliberais, têm-lhe dado maior relevo nas últimas décadas, pelo fato que nesse período o Estado, em muitos casos, deixou de encaminhar políticas públicas para as comunidades e se concentrou em desenvolver estratégias de privatização. Isso fez com que o povo, frente a essa situação, tomasse a iniciativa de construir escolas, ambulatórios e centros de cooperação para ajudar-se a si mesmo.

Com o passar dos anos, esse povo que mora nos bairros e que diariamente deve lidar com o trabalho em busca da subsistência, experimentou a necessidade de se tornar um agente ativo que trabalha bem mais que o horário estabelecido para alcançar uma vida mais decente. Foi precisamente a Igreja quem, através da semente da fé, tem transmitido as ferramentas para que criassem novas iniciativas, nas quais, através da cooperação, pobre a pobre, se contribua com o crescimento próprio e com o do vizinho.

Na Assembléia Geral do Episcopado Latinoamericano realizado em Puebla (México), em 1979, foi abordado o tema da ação da Igreja nos setores da população de menores recursos econômicos. Assim, no encontro foi definida como "Catolicismo Popular" a forma ativa com a qual o povo se evangeliza a si mesmo.

Com respeito às ideias sobre catolicismo popular surgidas no encontro, o teólogo jesuíta Pedro Trigo assinala que, a partir do conceito de Puebla, "o substrato de Igreja Popular que existe na Venezuela é muitíssimo maior que em outros países".

Historicamente a Venezuela tem tido uma distribuição territorial da população desigual e do mesmo modo tem sido a distribuição da instituição eclesial. Isso fez com que o processo de ocupação do país se desse de maneira lenta, sendo que era difícil localizar os sítios de estabelecimento dos nativos crioulos. Conseqüentemente, o processo de ocupação na Venezuela se concretizou tardiamente, através da fundação de missões, entre finais do século XVII e inícios do XVIII.

Depois do processo de independência nacional, desapareceram as missões. Desde então e bem adentro do século XX, as três quartas partes dos católicos venezuelanos vivem sem a presença permanente de um sacerdote. Isso estimulou que fossem os leigos, especialmente através da figura do catequista, os que mais contribuíam para manter e transmitir a fé. "Se em algum lugar pode-se falar de uma comprovação absolutamente científica do planejado em Puebla, é na Venezuela. Se, na Venezuela, o povo persiste em dizer-se católico, na sua maioria, sem ter tido contato com padres, significa que quem transmitiu o cristianismo na Venezuela tem sido o próprio povo", sustenta Trigo.

Nesse sentido, Trigo concorda com Renaud em diferenciar o movimento da Igreja popular da "teologia da libertação". Segundo o teólogo jesuíta, autor de numerosos artigos e vários livros, "quando se está falando de catolicismo popular na Venezuela, não se está falando do que era a onda libertadora de grupos da esquerda. Aqui está-se falando de outra coisa totalmente diferente". Do mesmo modo, Renaud assinala que "a Igreja comprometida com os mais pobres, certamente tem uma forma de pensar, de sentir e de fazer teologia diferente da igreja formada pelos estratos sacerdotais".

A Igreja que forjou comunidades cristãs

No seio da Igreja Católica, em particular na América Latina, há dois acontecimentos que funcionaram como motor de um processo de abertura: são as Assembléias Gerais do Episcopado Latinoamericano realizadas em Medellín e em Puebla, em 1968 e em 1979 respectivamente. A partir desses acontecimentos iniciaram as mudanças que conduziram a Igreja a abrir espaços para a participação de comunidades de baixos recursos econômicos na tarefa da evangelização e na promoção de atividades de benefício social, tomando como bandeira o Concílio Vaticano II.

Na Venezuela, produziu-se uma aproximação da instituição eclesial com o poder político, quando, em 1960, se chegou ao pacto de Punto Fijo. Tratou-se de um acordo político firmado entre os partidos políticos e os setores de poder do país, como a principal câmara empresarial, Fedecámaras, a maior central operária, a Confederação de Trabalhadores da Venezuela (CTV), e as Forças Armadas. Trigo, em seu livro "Uma Constituinte para a Igreja" sustenta que o setor político que assumiu o poder após a queda da ditadura de Marcos Pérez Jiménez, acolheu a Igreja "porque precisava dessa instituição, já que a democracia social como alternativa ao comunismo necessitava de uma bandeira simbólica".

Dessa maneira, a Igreja contribuiu para a criação do consenso e iniciou um trabalho de promoção popular em bairros urbanos e entre os lavradores. Na década de sessenta também se concretizaram dois acontecimentos importantes: firma-se o pacto de entendimento entre a Igreja católica e o governo de Rómulo Betancourt, conhecido como Modus vivendi e o Vaticano eleva o arcebispo de Caracas ao grau de Cardeal.

Como consequência, em tal período há um significativo incremento das dioceses, paróquias e grupos apostólicos como os Cursilhos de Cristandade, a Legião de Maria e Mundo Melhor. Simultaneamente, vai-se gestando o trabalho apostólico nos bairros.

Porém, nesse período em que começa a germinar uma Igreja centrada no povo, ocorre uma fratura no clero venezuelano. Um primeiro setor se identifica com as linhas de Medellín e Puebla e propõe uma "ruptura instauradora" e um segundo opta pela continuidade da ordem estabelecida e resiste às propostas do Concílio Vaticano II e das assembléias episcopais latino-americanas.

Trigo, ao caracterizar essa época, assegura que "se consumou uma rejeição prática de uma parte da Igreja venezuelana ao Concílio Vaticano II". Sem dúvida, a ruptura experimentada não conduziu a uma divisão no seio da Igreja, e "a diferença de outros países, na Venezuela essa ruptura não deu lugar a grupos, seitas, e sim a projetos pastorais diversos dentro da única Igreja onde todos se reconheciam, embora fosse a contragosto".

Um representativo grupo de sacerdotes começa a realizar, em diversos pontos do país, reuniões informais para se ajudar a pensar melhor as estratégias de pastoral popular. Também são efetuadas críticas aos sacerdotes que formam a alta hierarquia eclesial porque "sentem que a instituição não oferece abertura para canalizar suas inquietações e dinamismo", diz Trigo. Assim, no dia 15 de junho de 1969, um grupo de jovens católicos faz uma tomada simbólica da basílica de Santa Teresa, em Caracas. Eles irromperam durante a celebração de uma missa, pedindo participação. Posteriormente, um significativo grupo de sacerdotes elaborou uma carta que foi enviada a cada um dos bispos venezuelanos, em 21 de novembro de 1969. No documento, os religiosos manifestam suas críticas à hierarquia eclesial. Renaud confirma que, depois da inicial acolhida a Medellín, dentro de um determinado setor da instituição eclesial, geraram-se diferenças que buscavam frear o desenvolvimento das comunidades cristãs.

"Com certeza a Conferência Latinoamericana de Medellín, aqui em Venezuela, foi recebida com bastante entusiasmo por vários sacerdotes e religiosas. Depois, em toda a América Latina, especialmente na Igreja da Venezuela, no ano de 1972 produziu-se uma freada brutal", assegura Renaud.

O clero entrou na "casa do povo"

Desde a segunda metade dos anos 60, na Venezuela há um grupo de agentes pastorais, em boa medida ligados à vida religiosa e a algumas congregações, que iniciaram um bom trabalho nos bairros das cidades. Nas palavras de Trigo, "entraram na casa do povo".
Renaud explica que, em 1968, a conferência de Medellín já falava de comunidades cristãs, "ou melhor, de comunidades eclesiais de base". Sem dúvida, considera que esse segundo termo é um pouco um tecnicismo dos países do cone sul de onde elas vêm. Na região caribenha efetivamente foram adotadas, mas com a palavra mais simples de comunidade cristã.

Os anos 70 é a época de inserção de agentes pastorais nos meios populares, de maneira que se vão constituindo grupos de trabalho e reflexão. Na preparação para Puebla foi onde mais se viu tudo isso. Sem dúvida, Trigo assinala que os agrupamentos inclusive não se atrevem a falar de Comunidades Cristãs de Base. Numa reunião preparatória para a Assembléia Episcopal Latinoamericana, os agentes pastorais falam de Grupos Cristãos Populares.

Na Venezuela, diferentemente de outros países andinos, é forte a "convivialidade", mais do que a comunidade. Por isso, segundo Trigo, tais agentes refletiram sobre a necessidade de fazer comunidades. Por isso, fazia-se necessário introduzir um ingrediente novo que motivasse a consolidação das comunidades. Esse elemento seria o cristianismo, a presença de Deus.

Assim, concretizou-se a construção de comunidades, através de um processo no qual o povo captou a novidade de ser 'uma família nova': as comunidades nasceram como novidade histórica que, com o passar dos anos, aumentavam de número. (Box 1).

Por outro lado, as pessoas comprometidas com o trabalho das comunidades cristãs de base experimentam transformações profundas e não traumáticas em suas vidas que as convertem em pessoas de grande respeitabilidade dentro de suas zonas. Inclusive nos momentos mais duros, como quando ocorrem situações que põem em risco a vida e a segurança dos habitantes de um determinado setor, os integrantes da comunidade continuam gozando de grande respeitabilidade.

Porém, antes de chegar a uma consolidação definitiva dos grupos de base na Venezuela, o processo que viveram as comunidades cristãs nos setores populares passou por dificuldades. Foi no início da década de 70, por causa da não aceitação de uma parte do clero.

Realizou-se certa reconciliação entre os posicionamentos eclesiais divergentes sob a pastoral do cardeal José Elí Lebrún, de Caracas, que foi nomeado cardeal em 81 e que, durante muitos anos, desenvolveu dentro de sua pastoral as duas sensibilidades. É um homem que teve uma afinidade especial com o ambiente popular. Em Petare recordam que nesse período o Cardeal Lebrún mantinha permanente contato com as comunidades e mostrava vontade de atendê-las quando era convocado. Insistia para que o chamassem quando fosse necessário.

Em fevereiro do ano de 1989, quando o país conheceu uma explosão social inédita na capital, conhecida como el Caracazo, na qual morreram mais de 300 venezuelanos, os grupos cristãos constituídos em Petare se fizeram sentir. Nessa oportunidade, milhares de venezuelanos saíram às ruas para manifestar seu repúdio às medidas econômicas assumidas pelo governo de então, de Carlos Andrés Pérez.

Em Petare houve uma repressão "severa e drástica", recorda Renaud. Nos bairros populares houve muita morte. Foi uma repressão "brutal" que foi executada para que as pessoas "pagassem com sangue" pelo que haviam saqueado.

A estruturação das comunidades se dá num processo conjunto entre os agentes pastorais que servem como motores e os moradores do setor. Sem dúvida, na atualidade tem diminuído o número de agentes pastorais, o que influiu para que as alianças não tenham a mesma qualidade de antes. Por outro lado, nas mesmas comunidades, foram diminuindo o número de seus membros e deixaram de se integrar pessoas novas e jovens.

A isso se acrescenta o fato que as congregações religiosas assumiram novas estruturas organizativas, que criam dificuldades para as novas gerações de agentes pastorais conhecerem a vivência das comunidades de base e, assim, poderem integrar-se ao trabalho das organizações cristãs dos setores populares. "Faltando esse elemento de inter-relação, falta o dinamismo e a criatividade que faria com que a vida tomasse a dimensão histórica sem deixar de ser a vida", aponta Trigo.

Outro elemento que dificulta a integração aos grupos cristãos é que a situação econômica, cada vez mais precária, ao contrário dos anos 70, obriga a maior parte dos membros das famílias a trabalhar mais para conseguir os recursos para sobreviver. Nessa situação, impede-se que o povo se envolva em cheio no trabalho comunitário. "Agora, porém, a gente percebe que, se abandonarmos esse trabalho, fica muito mais difícil sobreviver, porque isto nos dá muito ânimo", reflete Trigo.

A Igreja popular a partir de uma perspectiva vivencial

Atualmente, a ação evangelizadora da Igreja tem chegado, através das comunidades eclesiais de base, aos mais despossuídos nos bairros e nas comunidades populares.

O padre Bruno Renaud prefere não usar o termo "popular". Prefere falar de "a Igreja" em geral, embora reconheça que a conjuntura política e social atual tende a tornar patente a diferença que tem havido entre duas sensibilidades diferentes. Uma sacerdotal, que inclui bispos e párocos, e outra com o povo dos bairros. Para Renaud, só "neste sentido limitado se pode falar de igreja popular".

"Duas sensibilidades não quer dizer que há motivo para cortar. No ambiente popular ninguém, absolutamente ninguém, tem a idéia de uma igreja à parte, e padres e religiosas que espontaneamente nos sentimos deste lado, também não temos a idéia de formar outro corpo, ou outro grupo, ou de dividir a Igreja", enfatiza.

Frutos das Comunidades de Base

Na última década tem-se celebrado na Venezuela dois Encontros Nacionais de Comunidades de Base. O primeiro celebrou-se em Caracas, entre 17 e 19 de novembro de 2000. O segundo foi realizado de 15 a 17 de novembro de 2002, de novo na capital. Estiveram presentes uns 700 representantes das comunidades cristãs. Três quartos dos participantes eram mulheres.

Nesses encontros são avaliadas as atividades realizadas por cada grupo, identificam-se as principais carências e os participantes propõem idéias que podem ser assumidas pelos outros grupos. Também são analisadas atividades que se realizam em cada região e podem servir como modelos às outras equipes de trabalho.

Com respeito a esse segundo encontro realizado na Universidade Católica Andrés Bello de Caracas, Bruno Renaud opina que "ele manifestou a muito humilde pujança e a claridade de visão de toda uma Igreja formada por estratos populares e que precisa ser reconhecida".

Para o sacerdote, no encontro manifestou-se também "a extrema humildade e fragilidade desses pequenos grupos (...) que assumem a vida pessoal e comunitária do pobre com suas necessidades de formação, de capacitação, de educação para as crianças, de saúde para todos, de farmácias e cooperativas".

Para Trigo, a atenção aos enfermos, o atendimento às crianças, a visita às famílias, são um conjunto de "coisas humanizadoras". Em meio aos problemas de hoje são algo "grandíssimo, sagrado". Quando se aludia ao tipo de Venezuela que desejamos, todos falavam de uma Venezuela onde houvesse vida e vida em abundância, e vida humana e humilde. "Isto é a flor do país; enquanto houver gente assim, ainda não seremos lobos", assegura.

Por outro lado, o teólogo jesuíta observa uma debilidade; não estão sendo vistos os problemas dentro de uma dimensão histórica e estão sendo atacados os efeitos e não as causas.

Papel das comunidades na situação atual

Com o objetivo de estar em dia com a realidade sociopolítica que se registra no país, os membros das comunidades cristãs, de diversos pontos da cidade de Caracas, se mantêm em permanente contato. Por exemplo, nos dias antecedentes à crise do mês de abril de 2002, que implicou num falido golpe de Estado e posterior retorno ao poder do presidente Hugo Chávez, realizaram-se vários encontros nos quais se planejavam possíveis discussões dos grupos ante a preocupação que gerava a situação de tensão política.

Para Renaud, nas periferias populares de Petare desenvolve-se uma vida mais espontânea onde primam a "vida e o afã pela sobrevivência", acima da intolerância social e política que se sente em outros lugares de Caracas.

No mês de abril, antes dos acontecimentos dos dias 11, 12 e 13, os grupos cristãos de Petare realizaram reuniões em função de trocar idéias sobre a situação do país. Também se realizaram reuniões entre grupos de diversos pontos da capital venezuelana.

"Graças a Deus, toda a sociedade de Petare em conjunto tem tido um comportamento e uma atitude otimista", em meio da crise, diz Lourdes Pérez, agente fundadora das comunidades cristãs de Petare.

Por sua parte, Renaud destaca que, durante a crise do mês de abril e nos meses seguintes, Petare, "apesar da má fama que tem, manifestou uma prudência, um afã de viver e uma espontânea tranquilidade; parece-me que não há violência a lamentar".

Para além do trabalho social que desenvolvem as comunidades de base, porém, surge uma necessidade de que a Igreja venezuelana como instituição assuma sua liderança e um papel conciliador ante a crise política que atualmente atravessa o país. Considera-se que essa liderança da Igreja deve vir acompanhada por uma presença ativa das comunidades populares, enquanto que os grupos religiosos populares devem trabalhar com objetivos claros em favor da paz, da educação, do respeito, da tolerância e da convivência que o país requer. (Box 2).

Assim, em meio à tensão gerada pelas dificuldades econômicas, sociais e políticas, os moradores das zonas populares manifestam um afã de paz, de reconciliação. De acordo com Renaud, "ao contrário do que se pense, do que se possa dizer, o povo de nossos bairros busca paz e reconciliação. O povo está cansado de marchas, contramarchas, greves e contra-greves. O povo, na realidade, reza afanosamente pela paz. Não há um encontro ou uma missa onde não apareça o tema da reconciliação a nível nacional e a nível local. O povo está consciente da necessidade de perseguir um futuro que não seja violento e de ir criando o mesmo".

Necessidade de desenvolvimento

Trigo considera que existem dois elementos complementares que influem no desenvolvimento das comunidades. Em princípio assinala que, embora as comunidades eclesiais de base tenham tido aval pelas reuniões de máximo nível do episcopado latino-americano, em nosso país não existe uma elaboração teórica ou ideológica que legitime o processo de constituição e consolidação das Comunidades Eclesiais de Base e se interroga: "de fato, quantos bispos na Venezuela estão promovendo isto? Agora, nenhum, quando antes sim, havia. Quantas congregações estão promovendo isto? Agora, no máximo uma ou duas e nada mais. Antes, sem dúvida, havia muitas".

Cita como exemplo o caso dos jesuítas que, embora tenham estabelecido em sua declaração de princípios, não estão promovendo esse tipo de ação nas comunidades: "Mudou-se o modelo organizativo e isso influi em muitas coisas".

O segundo ponto que leva a uma mudança, e que, a juízo de Trigo merece nossa atenção, é terminar com a diferença entre "agente" e "paciente". É preciso que existam relações mutuamente satisfatórias. Um exemplo deve ser as relações cordiais e de respeito entre sacerdotes e religiosas ou sacerdotes e comunidade. Trigo insiste em que as relações se estabeleçam a partir do princípio de que tanto os agentes pastorais como os leigos são seres humanos. Este ponto está sendo trabalhado na Venezuela.

"Porém, creio que existem agentes pastorais que utilizam o povo; a partir do fato que eles estão liberados para isso, quanto mais uma pessoa seja generosa, mais coisas lhe proponho. Sim, e sua família e seu trabalho? Essas coisas ainda precisam ser trabalhadas com companheiros e companheiras", ponta Trigo.

Justamente no plano político se evidenciam as transformações que tem tido o povo. Assim, a tendência é que os integrantes das comunidades cristãs recusem aquelas relações em que ambas as partes não tenham um benefício mútuo e nas quais os dirigentes políticos não tenham a disposição de prestar um serviço ao coletivo que o elegeu. "O social é mais denso que o político e este está a serviço do social e não o contrário (...). O povo se acostumou a analisar", sustenta o teólogo. (Box 3).

Futuro e projetos das comunidades cristãs de base

As comunidades cristãs de base se têm constituído em lugares de encontro, de cooperação, de luta e de fé. É uma tarefa que vai além dos trabalhos em benefício social. É a consolidação de comunidades, onde se compreende o sentido da irmandade, para além dos laços familiares.

Juntamente aos benefícios outorgados pelas cooperativas de consumo e de poupança e dos serviços de saúde e de atendimento às crianças e aos anciãos, desenvolve-se a abertura progressiva da consciência crítica que lhes permite discernir e analisar a realidade política, econômica e social de sua realidade. Por outro lado, tem-se despertado um sentido de independência e liderança nos leigos com relação ao sacerdote. As atividades religiosas vão de mãos dadas com o trabalho social. Essa dinâmica toda, porém, exige um novo esquema organizativo, que lhes permita um bom planejamento e a execução de atividades.

Segundo Trigo, com um melhor esquema organizativo das comunidades, se poderia criar redes de comunidades; isso permitiria estabelecer contatos com outras comunidades, entes estatais e até com organizações de outros países.

Apontar para isto não significa que não se tenha dado passos nesse sentido. Um exemplo tem sido em Petare, um grupo que, num mês, conseguiu identificar 960 jovens relacionados com a delinquência e desvinculados do sistema escolar. Conseguiram professoras para todos eles, locais e depois financiamento. É o tipo de atividade que não é executada pelo Estado e que, ao ser realizada, evidencia um sentido organizativo e de coordenação das comunidades.

Outro aspecto de peso dentro das comunidades são as mudanças que aconteceram nas condutas e nas motivações das pessoas que se envolveram nos grupos. Trigo destaca que as pessoas dos setores populares envolvidas nas comunidades de base "têm uma capacidade muito maior para perceber e analisar a realidade", ao olhar seu ambiente e o próprio país. Assim as pessoas se converteram em "sujeitos" e começaram a participar ativamente nas atividades e assuntos públicos de suas comunidades.

Sem dúvida, o teólogo considera que alguns agentes pastorais que coordenam os grupos têm assumido modos de pensar menos abertos: "Creio que há gente que tem uma grande capacidade de análise, mas um déficit democrático".

Embora tenha sido notória a falta de renovação de "quadros", entre os agentes pastorais, pela ausência de religiosos e religiosas que se inserissem nas comunidades, em muitos casos esse processo foi a ocasião propícia para que grupos de leigos se firmassem como novos protagonistas sociais: é a esperança de um futuro luminoso.

Olhando realisticamente essa situação, as comunidades cristãs vão ter que trabalhar, assumindo cada vez mais suas próprias iniciativas. "A ausência de pessoas de destaque e a falta de interesse dos religiosos para os bairros e setores populares, na opinião de Renaud, poderia debilitar as comunidades cristãs", mas elas vão ter que tomar nota disso e continuar funcionando buscando seus próprios caminhos".

[*Luisa Torrealba é licenciada em Comunicação Social da Universidade Central de Venezuela.
**Andrés Cañizález sj é licenciado em Comunicação Social, diretor da revista Comunicación editada pelo Centro Gumilla, em Caracas].

Box 1:
COOPERATIVAS E TRABALHO SOCIAL A FAVOR DOS NECESSITADOS À LUZ DO EVANGELHO

A ação evangelizadora da Igreja tem chegado até os setores mais pobres do país pelas mãos das Comunidades Eclesiais de Base, CEBs.

Maria Ignacia Parra, que trabalha no grupo Rutilio Grande, no bairro Simón Bolívar, de Maracaibo, explica que as CEBs trabalham promovendo tanto atividades religiosas como trabalhos cooperativos e ações de luta para obterem melhoras em seu setor. Organizam-se para preparar a comunidade para a semana santa e oferecem catecismo de Primeira Comunhão e Confirmação para crianças e adultos que moram na zona.

Com respeito às atividades sociais, Parra assinala que, no setor Simón Bolívar, as CEBs têm uma cooperativa sem fins lucrativos, fundada há 30 anos. Sua equipe de trabalho realiza mercados populares nos fins de semana, nos quais vendem produtos alimentares a menor custo que os estabelecimentos comerciais: isso é possível graças a um convênio com indústrias encarregadas de distribuir alimentos com preços solidários.

As CEBs das diferentes periferias de Maracaibo formaram uma coordenação regional, que se reúne mensalmente; avaliam as atividades realizadas, planejam o dia de Dom Romero, lutam para buscar soluções à escassez de água e levantam sua voz para exigir serviços de saúde. "Nos reunimos e fazemos a população ver que Jesus veio ao mundo a lutar para que o povo tivesse sua dignidade", diz Parra.

No setor Loma Colorada de San Félix, Estado Bolívar, as CEBs, nasceram como organização de vizinhos. Ali se juntam as atividades da paróquia e o trabalho comunitário. Dominga Quintana, sua delegada nacional, explica que "são pequenos núcleos espalhados nos bairros e nos sítios mais pobres: organizam anualmente o dia da mulher, um dia para recordar Dom Romero, realizam campanhas de coleta de alimentos para as famílias mais necessitadas e oferecem serviços de saúde.

Quintana explica que "cada comunidade tem que estar ‘amarrada’ aos pobres". Sob essa premissa, as CEBs se incorporaram ao trabalho mediante a organização Saúde para Guayana que nasceu do seio das comunidades e se encarrega de preparar tratamentos naturais, conta com programas de formação de "como alimentar-se com a natureza".

Existem os "Clubes dos Anciãos", nos quais é oferecida assistência médica e atividades recreativas e são financiados graças "ao esforço e organização da própria população", diz Quintana.

Também existe uma organização na qual alguns membros das comunidades cuidam das crianças de rua, contando para isso com a ajuda econômica do governo do Estado Bolívar.

Carregada de esperança, Quintana lança uma reflexão final: "Se o governo percebesse o trabalho que estamos realizando, nos levaria mais a sério. Jesus nos acende esse motor para estarmos sempre em pé de luta".

Box 2:
PETARE: COOPERAÇÃO, FÉ E JUSTIÇA

Lourdes Pérez, coordenadora e fundadora de uma das comunidades cristãs do setor, assinala que os habitantes de Petare "entenderam que fazia falta unir-se e dali veio a necessidade de cooperação mútua". Assim, nos anos 80 surge a organização "Justiça e Paz", dedicada à defesa e à promoção dos direitos humanos. Essa instituição oferece formação às famílias sobre o significado dos direitos humanos e sobre procedimentos legais.

O nascimento dessa organização constituiu uma novidade, porque nasceu num momento histórico no qual o tema dos direitos humanos no país não estava em voga.

Em 1986 fundaram a Escola de Formação Popular de Petare, como resposta a "uma necessidade de formação humano-cristã, humano-social, humano-política, humano-cultural", diz Pérez.

O padre Bruno Renaud explica que se trata de uma escola informal que oferece conversas, foros, oficinas, cursos e círculos de estudo. Os encontros são realizados na base dos temas que interessam à população da região e convidam pessoas de todos os setores da vida social, econômica, política e cultural. Os participantes dos cursos, na sua maioria são pessoas que vêm das camadas populares, adquirem um amplo sentido crítico e capacidade de julgamento.

A respeito das atividades de corte econômico, destaca-se uma cooperativa de poupança, empréstimo e consumo. Também existem duas unidades de compra e três farmácias populares, nas quais se aproveitam produtos naturais.

Pérez explica que as comunidades cristãs "são o motor desses serviços e a população tem uma compreensão espontânea de que tudo isso é a vivência do evangelho".

Box 3:
NÓS, CRISTÃOS E CRISTÃS DOS BAIRROS DE CARACAS, TAMBÉM EXISTIMOS!

Poucos dias antes do Natal de 2002, quando se desencadeava a tentativa de depor o Presidente da República Hugo Chaves, um grupo de leigos, religiosas, padres e animadores de comunidades cristãs de uma dezena de bairros de Caracas escreveram aos bispos: "Aproximamo-nos do Natal com muita angústia e preocupação pelo que vem sucedendo na Venezuela. Formamos parte de um povo que, primeiro por intuição; depois, por reflexão tem reconhecido e recebido com participação ativa a Constituição Nacional de 1999, porque expressa que "OUTRO MUNDO É POSSÍVEL": sem exclusão, com respeito e liberdade. A 'carta magna' -recorda o grupo- foi aceita por uma importante maioria de Venezuelanos!"

"Por isso -declaram- preocupa-nos dar-nos conta de que um amplo setor da sociedade venezuelana se sente gravemente ameaçado por esse caminhar, e reage com a irracionalidade irresponsável do golpe de estado, até a destruição da indústria petrolífera, fonte-chave da economia nacional". Manifestam sua dor pela "sistemática incitação à violência proposta pelos meios de comunicação; por ler e ouvir palavras de ódio, desqualificação social, inclusive de parte de sacerdotes, referidas aos mais pobres".

Sentem-se profundamente feridos porque o Presidente da Conferência Episcopal Venezuelana, junto com o Senhor Cardeal Arcebispo de Caracas, "falam e agem frequentemente em nome da Igreja Católica sem consultar-nos: sentimos a necessidade de dizer que nós também existimos!". E recordam: "Quando nos reunimos para ler a Bíblia e expressar a esperança, não ouvimos palavras de ódio ou intolerância e sim o grande profeta Isaías: ‘Farão arados de suas espadas, e tirarão foices de suas lanças. Uma nação não levantará a espada contra outra’".

Afirmam com força: "Evitemos em nossa expressão toda forma de intolerância marcada pelo contexto político atual e nossas missas e orações, deixem de refletir exclusivismos e intolerâncias e proponham melhor o pão único e partido de Jesus Cristo". E destacam a urgência de que "os políticos -favoráveis ao Governo e à Oposição- aceitem uma trégua natalina para permitir a todos a celebração familiar e a alegria da paz".

Por isso, propõem "que os cristãos se esforcem por analisar o valor evangélico das propostas políticas presentes no momento, para contrastar a irracionalidade das paixões. Esse trabalho, difícil e necessário, poderia ser um importante aporte cristão à nossa sociedade venezuelana".






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