Quarta-Feira, 26 de novembro de 2014
04.07.10 - PORTO RICO
Reportagem Igreja da Libertação em Porto Rico.Uma Igreja em busca de futuro
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Adital -

Por Manuel Soler Palá, msscc*

San Juan, Porto Rico - As grandes etapas da história da Igreja portorriquenha nos últimos 40 anos bem poderiam ser agrupadas por décadas. Nos anos 60, Medellín é catalisador do entusiasmo e da ilusão. Os anos 70 deixam a marca de numerosos conflitos. As idéias de Medellín, após o regresso dos bispos às suas dioceses, retomando as atividades cotidianas, foram relativizadas. Nos anos 80, o panorama geral, o Magistério, em particular, não convida a falar de libertação. E nos anos 90, quando a pós-modernidade campeia, parecem congelar-se as ilusões que haviam conseguido sobreviver. No entanto, a Igreja continua e as grandes causas, apesar de tudo, se resistem a morrer.

Medellín: as ilusões dos anos 60

A década de 60 marca um ponto de inflexão na história da Igreja portorriquenha. Na realidade, o vendaval sopra por toda América Latina, porém em Porto Rico, devido ao seu estatuto político, açoita com rachas peculiares.

Na ilha, antes da realização de Medellín, aumentam as quotas de antiimperialismo e cresce o descontentamento pela guerra do Vietnam. Porto Rico, considerado território de EUA, tinha a obrigação de enviar seus jovens como membros do exército estadunidense. Portanto, para uma guerra onde a população da ilha colocou muitos mortos e os que sobreviveram retornaram com transtornos mentais. Foram os anos em que houve a consciência do abuso de usurpar como alvo de tiro, por parte da Marinha estadunidense, as ilhas-municípios de Culebras e Vieques. Radicaliza-se a teologia católica, borbulham as inquietações com vistas à participação na política, se geram múltiplos movimentos pastorais e universitários. O movimento "Arizmendi" pede bispos portorriquenhos.

Numerosos crentes fundamentam essas inquietações no espírito e na letra de Medellín, onde o conteúdo do Concílio Vaticano II adquire a fisionomia latino-americana. A ebulição de Medellín pede a gritos um plano pastoral diocesano. Com vontade de aprofundar o conteúdo da Assembléia do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), e tentando encontrar uma metodologia apropriada, o Vigário de Pastoral de San Juan, Pe. Fernando Rodríguez, e outros pastoralistas vão a Colômbia para estudar o tema. Eles põem em execução um plano que adjetivam de provisório e em torno dele despendem muitas energias. Desenvolve-se um trabalho pastoral cheio de ilusões na linha de Medellín. O mencionado Vigário de Pastoral, juntamente com os dominicanos J. Beck y Loperena oferecem palestras e cursos sobre conscientização, pobreza e compromisso eclesial, direitos humanos, identidade política, etc.

O plano não chegou a ter continuidade e somente floresceu em fatos isolados. Porém, sem dúvida, aglutinou muitas ilusões e energias. Desde então, a diocese de San Juan propriamente não teve um plano de pastoral sistemático.

Um elemento que causou novidade e animou os debates, pelos anos 1968, foi o livro de Salvador Freixedo, "Mi Iglesia duerme" (Minha Igreja dorme). Não obstante suas denúncias ásperas e até exageradas, apesar de algumas idéias imprecisas, não faltaram cristãos de peso para elogiar o livro. Entre outros, o bispo auxiliar de Caguas, Antulio Parrilla. O considerava sincero e provocador no bom sentido do termo. Porém, os cursilhistas, em pleno auge, e com Monsenhor Jaime Capó, um de seus fundadores, à frente, atacaram o livro e seu autor. O rotularam de herege, descarado e sem respeito. Organizam uma batalha que, no fundo, queria demonstrar a fortaleza do movimento e persuadir os bispos a confiar nele, De fato, o arcebispo Luis Aponte foi perdendo a confiança de seu Vigário de Pastoral, favorável a Medellín e começou a contar com Capó e seus cursilhistas. Salvador Freixedo finalmente seria expulso da Companhia de Jesus.

Nesse contexto, algumas congregações religiosas optam pelas exigências de Medellín na luta contra a pobreza, pela conscientização em torno aos direitos humanos, às denúncias sociais... A Congregação das Carmelitas Vedrunas e as do Sagrado Coração abandonaram obras de muito esplendor para destinar seu pessoal a outras menos ilustres. A hierarquia das diversas dioceses se mostrou em pleno desacordo com as decisões que também ocasionaram tensões no interior dos próprios Institutos.

Os conflitos dos anos 70

Entre as lutas ocorridas, destacam-se as paróquias dos Trinitários em Coamo e as dos Dominicanos em Yauco e Comerío. Nas três localidades os bispos prescindiram dos serviços dos religiosos. Em Comerío, as portas foram fechadas com grossas cadeias para impedir a celebração da Eucaristia. Em Yauco, onde também as portas do templo foram fechadas, os Dominicanos tiveram que enfrentar adversários de peso. Foram acusados, entre outras coisas, de predicar a teologia da morte de Deus e foram expulsos pelo bispo. Em Coamo, a história durou mais tempo e incluiu uma viagem a Roma. Inicialmente, a paróquia começou uma experiência piloto segundo as orientações de Medellín. Dez anos mais tarde, chegou o veredicto final: o rompimento do contrato com a Congregação. Vários religiosos implicados deixaram suas respectivas Congregações e continuaram trabalhando na área, não mais como religiosos, mas como cristãos comprometidos.

Uma menção especial merece o grupo denominado de "Jesus Mediador", situado no bairro "El Volcán". Trata-se da trajetória de um grupo de jovens que, nos anos 60, se encontram e, até os dias atuais, tentam executar um projeto cheio de inquietações e de buscas. Sucessiva e simultaneamente, esses jovens viveram a inserção entre os pobres, experimentando suas lutas e decepções; preocuparam-se com os delitos ecológicos, denunciando-os ante os órgãos judiciais. Cultivaram uma espiritualidade profundamente arraigada na terra portorriquenha. Levantaram a bandeira do país em um momento em que isso era mal visto. Divulgaram cantos litúrgicos de raízes folclóricas; fizeram-se presentes na "Justiça e Paz"... Até poucos anos não tiveram um estatuto claro de seu grupo religioso, não obstante as pressões recebidas a respeito. Finalmente, integraram-se à Família Dominicana.

Outro aspecto da Igreja dos pobres e das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), no início dos anos 70, envolve o Vigário de Pastoral já mencionado, Pe. Fernando Rodríguez, que foi viver em um bairro pobre chamado "La Perla", após liberar-se de suas funções na Diocese. O bairro é quase um símbolo da marginalidade, dos problemas de drogas e da criminalidade. Nesse bairro o ex-vigário, juntamente com outros presbíteros e algumas religiosas, viveu algumas experiências de solidariedade e notável pobreza. Tratou de conscientizar os habitantes e estendeu os cursos de conscientização a outros lugares. Também a hierarquia acabou desautorizando a experiência.

Essas ações resultaram muito minoritárias. No entanto, é relevante que um bispo, Monsenhor Antulio Parrilla, se converte em porta-voz da Igreja dos pobres por toda a década de 70 e 80. Foi, inicialmente, bispo auxiliar de Caguas e era questionada sua pertença à Conferência Episcopal, tal era o ostracismo a que o relegaram. Além de seu interesse pelo cooperativismo, foi um incansável lutador contra o militarismo dos Estados Unidos, particularmente no que se relacionava aos campos de tiro de Culebras e Vieques. Inclusive, foi preso por protestar e entrar nos terrenos proibidos pelo governo. Advogou para que os portorriquenhos tivessem sua própria identidade. Seus sermões e escritos incidiam sempre sobre esses temas. Esteve junto aos presos políticos, posicionou-se contra o serviço militar obrigatório e contra toda guerra.

Com tais atitudes, era de se esperar que seus inimigos se multiplicaram na sociedade e no interior da Igreja. Recebeu fortes pressões para que se exilasse. Sua voz ressoou depois de muitos anos nos quais a hierarquia nem sequer ousava aludir a esses temas. Homem valente, sincero e lúcido. À medida que o tempo passa, sua figura se agiganta...

Os religiosos: as brasas sob as cinzas

A Conferência dos Religiosos de Porto Rico (COR) foi a instituição que manteve a chama da sensibilidade acesa em favor dos pobres e dos direitos humanos ao longo dos últimos 25 anos. Sua incidência não tem sido espetacular, porém, nos momentos de desânimo e indiferença em relação aos pobres e aos direitos humanos, os religiosos disseram: "Presente!". Isso tem mais mérito porque a maioria de seus membros é de fora do país. A COR está constituída por uns dois mil religiosos/as pertencentes a uma centena de diferentes congregações. Nos últimos trinta anos diminuíram os efetivos em uma média de 25/ano, no entanto, aumentaram notavelmente as vocações nativas.

Certamente, não cabe dizer que todos os religiosos comunguem com as mesmas idéias e atitudes, porém, a linha mais oficial da COR se mantém firme e decidida. Apesar das críticas recebidas e algumas ausências muito significativas. Ao longo dos seus 28 anos de vida, a COR tem mostrado  plena sintonia com a realidade e com as iniciativas latino-americanas, com a CLAR concretamente, a diferença de outros setores pastorais.

A COR tem prestado atenção ao tema gênero, criando consciência sobre o mesmo e formando uma comissão. Tem defendido a inserção nos meios pobres, através de painéis e encontros, apoiando pessoal interessado nessa opção. Ainda existe, apesar de estar debilitada, a "Comissão de Religiosos Inseridos em Meios Pobres" (Crimpo). Tem conscientizado sobre a análise da realidade do país e sua relação com a fé. Tem publicado documentos sobre o tema em 1980 e 1991. Continua na luta pelos direitos dos moradores de Culebras e Vieques. Alguns religiosos/as visitam as prisões, exercendo a desobediência civil. E também respaldou ao Monsenhor Antulio Parrilla em suas múltiplas ações. Apoiou às religiosas que deixaram obras suntuosas. A COR exerceu um papel notável em prol dos presos políticos. Levou a sério sua pertença ao "Diálogo de Reconciliação Nacional", de fortes conotações ecumênicas.

O rosto atual da Igreja em Porto Rico

Qual é o rosto da Igreja portorriquenha? Desde a perspectiva dos pobres não cabe ser otimistas. A pobreza adquire traços próprios na ilha. Em primeiro lugar, está o mundo das drogas com suas conseqüências de criminalidade e prisão. Depois está a desintegração familiar. Multiplica-se o número de pessoas que perambulam pelas ruas. As pessoas têm medo. Poucas são as famílias que não sofreram em carne própria a morte violenta de alguns de seus membros. Os Meios de Comunicação não dão trégua ao relatar os crimes, sem economizar detalhes macabros. Como resposta ao temor, aumentam as urbanizações que fecham suas ruas e põem guardas e grades.

Diante dessa problemática, as obras tradicionais da Igreja, como escolas e hospitais, não parecem ter a esperada incidência. Nos anos 80 surgiram várias organizações geralmente patrocinadas por leigos, tais como: "Pax Christi", "La Fondita de Jesús", para mendigos, "Casa de Oração Maranatha", etc. Realizam um bom trabalho, porém, não conseguem responder a todas as demandas. Nos anos 90 continuaram esforços esporádicos de grupos de leigos para dar resposta aos problemas sociais: "Lar São Cristóvão", "Lar Creche Menino Jesus", "Santa Maria dos Anjos", "Lar Bom Pastor", "Lar Menino Jesus", "Lar de Pacientes com Aids", em Ponde e em San Juan.

Um submundo anônimo e ameaçador continúa sem atendimento: usuários de drogas, migrantes ilegais, doentes de aids... A igreja hierárquica se preocupa com a situação, mas não pode ou não sabe gerar iniciativas que aliviem tantos males. Por outro lado, não parece que o governo queira parar esse deterioro, visto que se vê envolto em rivalidades partidárias e lacerantes problemas de corrupção.

Observando o interior da Igreja, constata-se que grande parte do clero não tem suas raízes culturais na ilha e nem sequer mantém um compromisso estável com ela. As diversas dioceses vêm de um passado sem organogramas nem pastoral de conjunto. Ultimamente as de Caguas e Arecibo concretizaram um plano pastoral rigoroso: análise da realidade, formulação de propostas, estatísticas... O plano é orientado pelo pessoal e pela metodologia do "Movimento por um Mundo Melhor". Não é muito claro o êxito de sua execução. Na diocese de San Juan, o atual arcebispo, Roberto González, que administra a Diocese desde 1999, convocou um Sínodo, que, parece, não teve repercussões nas bases.

As CEB’s são pouco mais do que uma recordação. A mística que impregnou a luta pela causa dos pobres se diluiu como açúcar em água. A pós-modernidade, há tempos, congelou as ilusões surgidas de Medellín. O jornal "El Nuevo Día" publicou, em outubro de 2003, umas estatísticas muito pessimistas sobre as inquietações, ou melhor dizendo, frivolidades, da juventude portorriquenha. Diversos setores eclesiais consideram que as grandes causas da América Latina e seus melhores documentos pastorais não se aplicam a Porto Rico, devido à sua proximidade com a cultura estadunidense.

Sementes com potencial de futuro

Nesse contexto, é possível assinalar com um dedo algumas sementes com potencial de futuro? O arcebispo, desde o início de seu mandato, clamou contra a imoralidade dos bombardeios em Vieques. Depois, apoiou a luta em favor dos direitos humanos. Por tudo isso, ganhou fortes antipatias e invejas. Em 2003, escreveu uma carta pastoral intitulada "Pátria, Nação e Identidade: dom indivisível do amor de Deus" que teve boa acolhida no interior da Igreja Católica e no âmbito ecumênico (2). No entanto, sabe-se que nem todos os bispos comungam com tais idéias. Por outro lado, o estatuto político de Porto Rico divide profundamente a população desde tempos imemoriais. Uns querem a anexação aos Estados Unidos e outros querem manter o status atual de Estado Livre Associado. A opção independentista é muito minoritária. Estas posições, geralmente viscerais, dificultam um diálogo sereno sobre o tema.

Talvez, sendo ousados, pode-se dizer que, em um futuro próximo, a porção mais consciente da Igreja portorriquenha respaldará a liderança e os objetivos do arcebispo de San Juan no que se refere à defesa da identidade portorriquenha, além de suas concretizações políticas. Vinculada a esta causa está a defesa dos direitos humanos e da ecologia. Tais objetivos são divulgados através da rádio da doutrina social da Igreja, pela qual o arcebispo tem mostrado grande interesse.

Outro modesto avanço com potencial de futuro, menos visível em curto prazo, é que vários Centros de Formação Teológica optaram por "beber" nas genuínas inspirações do Concílio Vaticano II. Dessa forma, o Centro de Estudos dos Dominicanos do Caribe (Cedoc), onde estuda a maior parte dos religiosos e seminaristas da ilha. Também o Instituto Teológico Portorriquenho, que concede o Doutorado em consórcio com a Graduate Theological Foundation, de Indiana (EUA) e o Centro Diocesano de Formação, da Diocese de Caguas, que se renovou inteiramente e se centra na assimilação e irradiação das idéias conciliares.

[* Presbítero espanhol. Teólogo e jornalista].

Nota:

(1) Juan Alejo de Arizmendi, primeiro bispo portorriquenho, nasceu em San Juan, no dia 17 de julho de 1760.
(2) Ver Box Uma carta pastoral que causa impacto à sociedade portorriquenha. Para ler a carta na íntegra, em espanhol, acessar: http://www.pionet.org/Documentos/carta_pastoral_patria.htm

Box 1:
OS LÍDERES RELIGIOSOS NA LUTA CONTRA A MARINHA DOS EUA EM VIEQUES

Manuel Soler Pala, msscc

San Juan, Porto Rico - Desde 1940, a Ilha de Vieques tem sido motivo de discórdia em Porto Rico. Nesse ano, a Armada estadunidense expropria duas terças partes da ilha, deslocando 3.000 habitantes para montar no local um campo de treinamento militar.

Desde o início, os párocos do lugar escreveram às autoridades eclesiásticas, denunciando a situação de imposição, perigo e, inclusive, de violência causada pela presença militar na ilha. Na década de 70, o bispo Antulio Parrilla predicou e escreveu muito duramente contra a situação. Pessoas foram presas por entrada ilegal nas praias da ilha.

Porém, a atuação relevante da Igreja se dá a partir do ano de 1999. Destacam-se: O Concílio da Igreja Metodista anuncia seu propósito de unir-se à desobediência civil em favor dos viequenses. O arcebispo de San Juan, Roberto González, se expressa também a favor da desobediência civil (entrada de civis aos terrenos militarizados) no caso que a Marinha recomece os exercícios militares. A Igreja Católica mantém uma capela nos terrenos ocupados pela Marinha e vários de seus bispos visitam freqüentemente o lugar.

O governador Pedro Rosselló reage contra os pastores católicos e protestantes que lutam pela causa. Convida os fiéis a não obedecer a seus líderes. Os viequenses, no entanto, premiam os que se destacam na causa antimilitar. Entre os premiados, Monsenhor Roberto González Nieves, Arcebispado de San Juan e Dom Álvaro Corrada Del Rio, Administrador Apostólico de Caguas, juntamente com outros líderes de diversas confissões religiosas.

No dia 21 de fevereiro de 2000, milhares de portorriquenhos participam na grande Marcha Pró Paz em Vieques, apesar da oposição e intimidação dos líderes do partido que defende a anexação, no poder. Os organizadores da Marcha estimam que aproximadamente 150 mil portorriquenhos de todas as idades e crenças se unem ao arcebispo de San Juan, ao da diocese de Caguas (a que pertence Vieques) e aos líderes de outras denominações cristãs e organizações cívicas para rechaçar a presença militar da Marinha na ilha de Vieques. Trata-se da manifestação mais massiva da história em Porto Rico.

Posteriormente, a Marinha se apressa a desalojar e prender aqueles que ultrapassem os terrenos restritos pelas autoridades militares. Numerosos manifestantes se preparam para enfrentar a situação. Os agentes federais os prendem e expulsam sem que os interessados oponham resistência. Durante a operação, muitos expectadores aplaudem e jornalistas de distintas partes do mundo registram os incidentes. A política de prisões prolonga-se por semanas e meses. Entre os presos, encontram-se vários líderes religiosos.

O arcebispo católico de San Juan, Roberto González, envia-lhe uma carta de esperança "a nossos novos prisioneiros políticos, desta vez presos em sua própria pátria por ter protestado contra a injustiça que está sendo cometida em Vieques contra nossos compatriotas".

Uns 500 jovens portorriquenhos se reúnem em Roma para os festejos mundiais do Jubileu 2000 da Igreja Católica. Uma das faixas alusivas à Jornada, diz: "Nem mais um tiro em Vieques".

Em 1 de Maio de 2003, a Marinha, oficialmente, decide por fim aos treinamentos militares e sair da ilha de Vieques.

Box 2:
UMA CARTA PASTORAL QUE CAUSA IMPACTO À SOCIEDADE PORTORRIQUENHA

Manuel Soler Palá, msscc

San Juan, Porto Rico - "A Carta Pastoral alvoroça o vespeiro", era o título do jornal "Nuevo Dia", de 23 de agosto de 2003. E não era sensacionalismo. A Carta Pastoral do Arcebispo Roberto González Nieves aglutinou adesões e provocou rechaços viscerais. Tudo muito compreensível porque, a partir do título, propõe uma temática que, ao longo de muitas décadas, tinha sido evitada esmeradamente na Igreja portorriquenha: "Nação, Pátria e Identidade: dom indivisível do amor de Deus".

A Carta pôs sobre o tapete a pergunta ao mesmo tempo esperada, apetecida, temida e rechaçada: Porto Rico é uma nação? A pergunta leva a muitas outras: Porto Rico deve ter governo próprio e resistir a toda imposição estrangeira? A aspiração de conformar um Estado a mais da União é legítima? É claro que a Carta evita deliberadamente propor tais detalhes, e confessa que não pretende ditar nenhum status político.

Algumas idéias básicas da Carta

A Carta expõe que a Pátria, a Nação e a Identidade constituem realidades indivisíveis do amor de Deus. Não se trata de meros fatos sociais, políticos e profanos. Em seu plano de salvação, Deus quer agrupar seus filhos e marcá-los com uma identidade própria e peculiar. Nação, Pátria e Identidade são dimensões inseparáveis da pessoa.

Outra idéia mestra afirma que a condição humana padece de uma tensão inevitável entre o universal e o particular. O universal é como se fosse o horizonte que enmarca as afirmações de caráter próprio, que somente se realizam na abertura com os demais povos. Estas idéias, patrimônio da Doutrina Social da Igreja, repousam como pano de fundo do documento. Não é de se estranhar, uma vez que o arcebispo não perde ocasião para aludir à Doutrina Social.

Na defesa da identidade portorriquenha, o documento lamenta que "sua gente tem servido impunemente de laboratório de experimentos macabros que tem arruinado a saúde e a vida dos cidadãos, sem falar dos graves danos ecológicos. As mulheres portorriquenhas serviram de ‘coelhinhas de Índias’ para explorar os efeitos das pílulas anticoncepcionais. O ventre materno ficou desolado e profanado diante do vandalismo impulsionado pelas esferas governamentais tanto locais quanto federais. Além disso, tem sido realizado experimentos com agentes químicos e campanhas de esterilização".

A Carta tenta de toda forma afirmar seu caráter apolítico, para transcender a politicagem e propor objetivos humanos, éticos e sociais. Não propõe uma temática ideológica, mas antropológica. "A Pátria nos remete aos pais, aos antepassados, evocando um sentido de continuidade no tempo e no espaço. Inclui também categorias de território, etnia, idioma, política, história e cultura; não se reduz a nenhuma em particular, mas transcende rumo à fonte dos sentimentos.

Reações ao documento

A sensibilidade política de Porto Rico é extrema no que se refere ao que possa favorecer ou desfavorecer o status político da ilha. Uns esperam que o país seja anexado como um Estado a mais na união. Crêem que essa é a melhor maneira de conseguir a mesma dignidade e cultivar uns claros valores de democracia, mobilidade social e progresso. Outros, estão convencidos de que Porto Rico deve manter sua identidade, sua língua, cultura e folclore. Aceitam um "Estado Livre Associado", mesmo que isso não seja plenamente satisfatório.

A linha divisória entre ambas posturas passa exatamente pela metade da população. De fato, um terceiro partido político, favorável ao independentismo, está conformado por um percentual pouco significativo. Os jornais publicam colunas e mais colunas sobre as "bondades" de uma ou de outra alternativa. Os políticos elevam o tom da paixão e do confronto ao mencionar o tema. Dois partidos minoritários ganham adesões e rejeições de acordo a suas respectivas posições a respeito.

Nada estranho, pois que a Carta tenha causado "alvoroço no vespeiro". Aqueles que favorecem a linha da anexação (no terreno político, o Partido Nuevo popular) queixam-se de que o arcebispo diz mais do que disse. E os que são contrários à anexação (politicamente, o Partido Popular) não poupam elogios ao documento. A Vice Presidenta do Partido Independentista adjetiva o escrito como uma "declaração histórica" e agrega que "poucos documentos em nossa história recente suscitaram tanto debate".

Em um painel sobre a Carta Pastoral, organizado pelo Ateneo Puertorriqueño, em 5 de outubro de 2003, o arcebispo reconheceu: "Sabia que tocaria em uma ferida aberta, porém jamais pensei que iria causar tanto impacto". No mesmo ato, o franciscano ª Darío lamentava que a Igreja tivesse se mostrado ambígua e tímida em torno ao tema da identidade nacional e coletiva. "Minha reação diante da Carta tem sido de descanso. Por fim, se cobre um vazio histórico". No Ateneo, estava presente o teólogo evangélico Lester McGrath que saudou a Carta com contentamento, mas não escondeu algumas desconfianças.

As reações contra o documento também circularam pelo país. Desde o início, diversos políticos acusaram o arcebispo de usar seu posto para adiantar uma agenda política nacionalista. O menos que fizeram foi jogar em sua cara que estava excedendo suas funções. Concretizaram a sólida acusação de que a Igreja não deve intervir em política ou nos assuntos do Estado. Diante de tais acusações, outras vozes pessoais e coletivas levantaram-se, mostrando o simplismo, ou a ignorância, desse tipo de colocação. As fronteiras entre o elemento político, antropológico, ético e social são muito tênues e não devem ser precisadas a golpes de ideologia.

Talvez a voz mais recelosa que ressoou com mais altura e continuidade foi a de um autor anônimo que escreveu uma série de artigos no jornal "El Nuevo Dia" entre agosto e setembro. Afirmava que os leigos têm autonomia frente a este tipo de declarações hierárquicas. Que a Carta lança mão de noções teológicas ou conceitos de sociologias anacrônicas apresentadas de modo parcial. Citava a São Paulo: "Não existe judeu, nem grego, nem circuncidado, nem incircuncidado". Dava também conselhos, entre os quais, que nas atividades organizadas para debater a Carta fossem convidados participantes das diversas ideologias para não cair presa de lobos.

Toda a notável artilharia do autor, no entanto, perdia bastante credibilidade ao manter seu nome no anonimato. Suas idéias eram publicadas na coluna jornalística de um professor universitário, J. Garriga Pico, que o apresentava como "um sacerdote amigo meu".

No âmbito ecumênico, a Carta tem sido bem recebida. O Secretário Geral da Sociedade Bíblica, Wilfredo Estrada, a elogiou argumentando que as Igrejas devem inserir-se na sociedade em que vivem e participar na discussão dos assuntos públicos. A Igreja tem que ser "sal da terra e luz do mundo". O ministro da Igreja "Discípulos de Cristo", Lester McGrath e o professor Luís Rivera Pagán, que falou sobre a amplitude do conceito de Nação e afirmou que se entronca com o pensamento de José Martí, Eugenio M. de Hostos e René Marqués. Apesar de ter expressado seus recelos no uso parcial de um poema de Rubén Darío e os elogios aos tempos em que a Igreja e o Estado caminhavam juntos. "Já não se trata de uma Nação e de uma Igreja, mas de uma sociedade muito mais plural" (Nuevo Dia, 31 de agosto de 2003).

Ponto final

Vale à pena anotar que a Carta Pastoral foi publicada no dia 15 de agosto de 2003, no segundo aniversário da ordenação episcopal do primeiro bispo nativo de Porto Rico, Juan Alejo Arizmendi. Também ele esteve atento à identidade portorriquenha e teve gestos muito simbólicos a respeito. Coincidindo com a data seus restos mortais foram exumados para ser estudados por expertos e ratificar algumas hipóteses sobre os mesmos.

Tal acontecimento parece que deveria falar a favor da oportunidade da publicação do documento, porém, justamente alguns adversários apontaram que o mesmo não foi oportuno. Na realidade, o grau de maior ou menor oportunidade percebe-se de acordo às próprias idéias e emoções.

A Carta teve uma notável difusão e causou um forte impacto na sociedade portorriquenha. Pode ser encontrada em vários portais eclesiais e jornalísticos da Internet. Tem sido estudada em diversas Universidades e Instituições, assim como em Paróquias e movimentos vários. Sobre ela foram organizados painéis e fóruns. Inclusive, foi solicitada por diversas entidades de Estados Unidos e da América Latina.

A história dirá se a Carta marcará algumas pistas de ação sobre a prática da Igreja portorriquenha nos albores do século XXI. Poderia ser um bom revulsivo com o objetivo de vitalizar a população católica um tanto desanimada pelo crescimento das seitas evangélicas e angustiada diante do incremento do crime, do narcotráfico e da violência familiar.

Box 3:
O BISPO PARRILLA, LUZ NA HISTÓRIA DA IGREJA PORTORRIQUENHA

Manuel Soler Palá

San Juan, Porto Rico - Antulio Parrilla nasceu em 1919 em Porto Rico. Grande parte de sua juventude foi dedicada a atividades políticas e às lutas de caráter independentista. Apesar de suas afiliações políticas radicais, foi chamado ao serviço militar. Depois de sair do exército decidiu ser sacerdote e, mais tarde, jesuíta.

Parrilla nunca renunciou ao seu compromisso radical com a libertação política e social. Encontrava-se no noviciado de Havana quando começou a revolução armada contra o regime de Batista. Chegou a confessar aos guerrilheiros de Fidel Castro na montanha. Em todo momento soube compaginar a mensagem evangélica da libertação e a promoção humana com uma atitude política decidida.

Após tornar-se jesuíta, Parrilla passou quase dois anos atendendo aos hispanos, particularmente aos portorriquenhos, na zona baixa do leste de Manhattan. Regressou a Porto Rico em 1960, quando foi nomeado Diretor da Ação Católica na ilha e supervisionou a criação de inúmeras cooperativas para camponeses pobres. Parte de seus escritos versam sobre cooperativismo.

Entregou-se à luta pela justiça social com um ouvido muito atento ao que dizia o Papa e com o outro muito sensível às vozes contrárias ao imperialismo estadunidense. Escreveu muito contra os programas governamentais de controle da natalidade obrigatório e de esterilização em Porto Rico, o que contribuiu para que ganhasse o apoio dos conservadores. Porém, foi o primeiro bispo estadunidense a denunciar publicamente a guerra no Vietnam, os abusos da Marinha em Vieques e a ideologia do armamentismo. As esquerdas o apoiaram nesses pontos de vista.

Em 1969 viajou aos estados Unidos para denunciar a guerra. Durante sua viagem, de costa a costa, visitou a Bobby Seale, das Panteras Negras, que estava preso e também os cinco nacionalistas portorriquenhos que estavam presos por advogar pelo derrocamento violento do império dos Estados Unidos em Porto Rico.

Em 1979, o Bispo Parrilla participou em uma manifestação pacífica contra os exercícios de bombardeio em Vieques por parte da Marinha estadunidense. Chegou às praias com um pequeno grupo de independentistas. O prenderam e o levaram ao Tribunal Federal onde o acusaram de entrada ilegal.

Os bispos de Porto Rico alimentavam a suspeita de que a esquerda "usava" o Bispo Parrilla. Seu prestígio profético e sua tarefa incansável em favor da causa antiimperilaista esfriaram sua relação com os membros da Conferência Episcopal. Ficaram na história as longas polêmicas sobre se tomava parte ou não de dita Conferência. Esteve sempre muito marginalizado.

À medida que sua enfermidade avançava, tornou-se mais silencioso e mais generoso nas reflexões pessoais. Deixou de escrever sua coluna semanal em meados dos anos 80 e colaborava na paróquia de um companheiro do Seminário. Após sua morte, e com o passar dos anos, o prestígio do Bispo tem aumentado. Merece três adjetivos, sem reticências: foi um homem sincero, valente e lúcido.

No Centro de Estudos dos Dominicanos do Caribe (Cedoc) há uma coleção de manuscritos e publicações suas de grande valor histórico. Uma fonte da qual os historiadores necessitam beber sobre os últimos 40 anos da História de Porto Rico.






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