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02.12.08 - Brasil
Brasil – A difícil esperança
Egon Dionísio Heck
Assessor do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) Mato Grosso do Sul
Adital

A esperança é a ultima que não morre. Os povos indígenas estão aí para confirmar o ditado. Mas, a situação que enfrentam, que é ao mesmo tempo o difícil caminho de transformações em vários países do continente, nos deve renovar no ânimo de construir o novo mundo, caminhando.

Final de dia quente. Chega, sorridente, afável, esbanjando simpatia, um grande amigo meu.  Vem do Paraguai. Vem do silêncio, da preocupação. “Não está fácil!”, desabafa, com grande dor no coração. É difícil imaginar o que significa um estado corrompido até a vísceras, com estruturas viciadas, manipuladas por grupos de interesse e privilégios. “Falei com o Lugo. Fui assim mesmo de bermuda e chinelo de dedo. Pois ele disse ter um pequeno tempo entre um compromisso e outro. Foi muito bom revê-lo. Ele que me ordenou sacerdote, no lixão de Assunción. Com ele conversamos e planejamos nossa ação pastoral junto às populações carentes e exploradas, em tempos idos. Foi bom. Saí com o coração doído. A situação está muito complicada. Resta-lhe trabalhar no silêncio. Tem que contar com o tempo. Só não lhe pode fugir a esperança. A difícil esperança.

Falou demoradamente dos sinais de mudança. Das pequenas mudanças que apontam para outros rumos. Ao mesmo tempo relatou  as tentativas de desestabilizar o governo de Fernando Lugo, das tentativas de golpe. A espreita do bote dos colorados, que estiveram mais de 60 anos no poder. Falou do tatear na penumbra, das contradições das estruturas, do amargo esquema que amarra o poder. “Ta difícil!”. Com tristeza no olhar falou das manifestações indígenas nas ruas de Assunción, uns contra outros a favor das políticas indigenistas coordenadas pela Ache Margarita. “Nunca vi tantos índios mendigando nas ruas, pedindo comida! Imagine, 40 famílias Guarani Mbya, vivendo no lixão! Brada aos céus, ver um povo movido a utopia, de raízes profundamente religiosas,  que tem a liberdade como máxima, preso a um lixão. Não sei se é caos ou civilização!” Falou de suas visitas a diversas aldeias Avá Guarani e Mbya, constatando uma situação deplorável de total envolvimento das terras indígenas pelo agronegócio e seus efeitos danosos sobre a terra e as comunidades. “O agronegócio está cercando a maioria das comunidades, destruindo os restos de mata, poluindo as vertentes e riachos, enfim, uma situação extremamente preocupante. Será preciso ver com urgência a questão da territorialidade Guarani para evitar uma tragédia, um etnocídio”.

Vai Fernando! Segue seu caminho de fronteiras, nas fronteiras da vida! Pede guarida à utopia, de chegar o dia da vitória do caminho, da quebra dos grilhões do poder amordaçado, sugando sangue inocente, de gente jogada à beira do caminho! Vai Fernando, não estás sozinho, te acompanha nossa solidária amizade, nosso compromisso de um outro mundo possível!

Produtora Guarani

Uma chamada no mural do Hotel Nacional anuncia que o povo Guarani está sendo razão de inspiração para cineastas e produtores de documentários e filmes.

Brasília é um palco Guarani, com Terra Vermelha entrando em cartaz nos cinemas e Nhande Guarani entusiasmando a platéia e sendo premiado no Festival do Cinema da capital federal. Sala cheia. Silencio total. Ao final, aplausos de pé. Sinal de que o público sentiu a mensagem e se emocionou com a dureza da realidade apresentada. “O filme acabou revelando a dignidade Guarani. Afinal de contas, bem ou mal são mais de quinhentos anos de contato com a civilização européia. O bandeirante é aquele que acolhemos em nossa casa, e à noite ele estuprou, matou, expulsou nosso povo, relato um Guarani. Mesmo assim não se percebe um resquício de ódio por tudo que foi feito com eles”, relato André, produtor do filme.

Dia 25 de novembro. Enquanto se efetuava o debate sobre o filme Ñande Guarani celebrava-se a memória dos 25 anos de assassinato de Marçal Tupã’i. São 25 anos de impunidade. São 25 anos de estímulo a outros assassinatos de lideranças Guarani, na certeza da impunidade. Hamilton Lopes, da Terra Indígena Nhanderu Marangatu estava no debate em Brasília, juntamente com outros companheiros Guarani e aliados. Fala da memória milenar de seu povo, da resistência secular, da luta infinda, diária pela terra e sobrevivência com dignidade. E se pergunta “qual será o futuro do nosso povo?”. E conclui com uma certeza “sem terra nós não existe”. E a sua terra, já homologada pelo presidente Lula, está na fina de espera do Supremo Tribunal Federal, para uma decisão final, sobre uma liminar do então ministro Jobim, cancelando os efeitos da homologação.  Até quando terão que esperar. Certamente até depois do julgamento da Raposa Serra do Sol, que irá balizar as decisões sobre situações similares, aguardando por décadas no STF, como é o caso dos Pataxó Hã-Hã-Hai na Bahia e Nhanderu Marangatu no Mato Grosso do Sul.

Mais um novembro voou nas asas Guarani, emocionando corações com uma realidade marcada pelas contradições das raízes profundas da mística e espiritualidade, mostrando a dignidade de um povo, que continua submetido aos rigores da violência, descriminação, racismo e etnocídio. Quiçá outro novembro venha com mais terra reconhecida e respeitada, com a diversidade e pluralidade reconhecida e valorizada, dentro de um novo Brasil e mundo, possíveis e sendo construídos no caminho.


Campo Grande, 2 de dezembro de 2008

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