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Artigos - Opinião
24.06.11
[ Mundo ]
Meios e informação: o exemplo suíço
Sergio Ferrari
Adital

Tradução: ADITAL

O Norte encastelado ignora o Sul global

Sergio Ferrari*, desde Berna, Suíça


Foto Sergio Ferrari - Fórum Social Mundial, Dakar Senegal, Fev/2011

A tendência é contundente: os grandes meios de informação suíços cada vez informam menos sobre a América Latina, a África ou a Ásia. Realidade que motiva uma reflexão preocupante por parte das organizações dedicadas à cooperação e à solidariedade com o Sul.

Entre 1960 e 1991, a Neue Zürcher Zeitung, o Tages Anzeiger e o Blick, três dos mais importantes meios escritos da Suíça de expressão alemã, do total de seus espaços informativos no âmbito internacional sobre o ‘Sul Global', dedicaram 11% à América Latina, 17% à África e 19% à Ásia.

Desde 1992 até hoje, isto é, nas últimas duas décadas, os jornais reduziram sua cobertura de forma significativa. Dedicaram somente 2% à América Latina; 4% sobre a África e 9% sobre a Ásia. Em todo o período, o Oriente Próximo, com alguns matizes temáticos, ocupou 47% do espaço informativo internacional.

"O Sul Global caiu no horizonte informativo suíço. Enquanto durante a Guerra Fria, a África, a Ásia e a América Latina, em conjunto, ocupavam 47% da informação internacional sobre as temáticas ‘Sul', desde 1992 reduziu-se para 15%”, explica o sociólogo suíço Kurt Imhof, professor da Universidade de Zurique e especialista em comunicação e informação.

32% perdidos por esses três continentes foram ocupados pela guerra dos Balcãs, pela globalização e suas diferentes facetas e crises e pela luta contra o terrorismo, enfatizou Imhof, abrindo o debate sobre os "Meios Suíços e o Sul Global”, convocado pela Aliança Sul, na terceira semana de junho, em Berna, para celebrar seus 40 anos de existência.

A plataforma reúne a Caritas, Swissaid, Ação Quaresmal, Helvetas, Pão para o Próximo e a Obra de Ajuda Protestante (Heks-Eper), seis das mais importantes ONGs suíças de cooperação.

O peso do mercado

Salvo algumas exceções, "é obvio que, nos últimos anos, os meios suíços atuais têm relegado a informação substancial” sobre o Sul, sustenta Romeo Rey, reconhecido jornalista e escritor suíço que, a partir de 1969 e por quase três décadas atuou como correspondente na América Latina dos jornais Tages-Anzeiger (Suíça) e Frankfurter Rundschau (Alemanha)

Rey desmistifica a tese corrente sustentada pelas grandes empresas informativas na direção que o público não está interessado nas informações que chegam das regiões mais distantes do planeta, que não são catastróficas e que não têm uma relação direta com o cidadão médio.

"A questão central é despertar o interesse do leitor com uma tela de fundo, interessante, até dramático em certos casos sobre essas regiões. O argumento geral que hoje se escuta me parece muito barato, uma simples desculpa”, enfatiza.

E agrega: "como se o público fosse quem dita as prioridades! Sabemos realmente que não é assim. A notícia converteu-se em mercadoria e é o mercado quem impera e define”.

Rey antecipa sua aposta em uma informação diferente. "Com os meios que tenho ao meu alcance, tento fomentar nas pessoas o interesse pelo Sul; demonstrando-lhes, inclusive, que hoje há mais possibilidades do que antes de acesso a fontes alternativas de informação que são muito valiosas. Talvez temos que sair do esquema de ver somente os grandes meios para informar-nos sobre realidades distantes da nossa”, sustenta.

"Atrair aos jovens”

"A informação é comprada e vendida e no mercado da informação poucas vezes o Sul é apresentado como interessante... Porém, isso não é novidade. Nos anos setenta acontecia o mesmo e começamos a informar com outros argumentos e notícias”, enfatiza o teólogo Beat Dietschy, secretário geral de ‘Pão para o Próximo'.

Um dos grandes desafios das ONGs para assegurar que a informação do Sul impacte no Norte é "aproximar realidades, especialmente entre os setores juvenis das populações de lá e cá”, enfatiza.

As novas gerações, analisa, têm muitos contatos com outras realidades. E por isso é "essencial enlaçar os mundos diversos sobre a base das experiências dos jovens e desde aí identificar temáticas comuns”, precisa.

O ânimo de protesto contra toda imposição, contra toda ditadura, seja econômica ou política, "une as pessoas do Sul com as do Norte... porque do sentimento de opressão surge o protesto, que é propriedade do ser humano maltratado”.

Dietschy fala da importância de provocar ideias e conteúdos de informação no Norte. "Devemos ser ateus contra a crença da economia como solução de tudo. Aproveitar a desconfiança crescente da economia em relação à religião e, novamente, colocar o ser humano como centro da vida. Trazer o ser humano do Sul aqui entre nós através da informação diferenciada”.

O Bem Viver como conceito, por exemplo, muito bem desenvolvido na Bolívia atual, é comum a muitos povos; "porém, não responde à racionalidade instrumentalista da economia, mas à racionalidade do sentir e da vida. Temos que retomar esses exemplos oferecidos a cada dia pelos atores sociais do Sul e não subestimar o impacto dessas mensagens. Transformá-las em notícia!”.

Meios e solidariedade

Em 1971, a informação à população suíça sobre o que na época se definia como "Terceiro Mundo” constituiu um dos principais objetivos na base do surgimento do "Serviço de Informação para o Terceiro Mundo”, embrião da atual Aliança Sul, explica Pepo Hofstetter, responsável pela comunicação da plataforma.

Ao celebrar essa quarta década de existência, "pensamos que é importante fazê-lo a partir da perspectiva desses desafios de base, atualizando a reflexão sobre a cobertura atual sobre a informação internacional na Suíça”, precisa.

Hofstetter diz que para promover o interesse da população sobre a temática específica é importante adaptar-se aos novos meios (por exemplo, aos eletrônicos); analisar a mensagem utilizada e definir eixos apropriados.

A última grande campanha das ONGs suíças, em 2007, recorda, permitiu obter mais de 200 mil assinaturas a favor do aumento da cooperação ao desenvolvimento ao 0,7% do Produto Interno Bruto do país. "Um êxito rotundo, além de ser produto de uma informação pertinente”.

Os exemplos sobre a cotidianeidade das populações do Sul, seus desafios, suas potencialidades não devem faltar nesse exercício, sustenta Hofstetter, que antecipa novas propostas das ONGs em curto prazo, como a campanha que será lançada no segundo semestre de 2011 para exigir às empresas suíças presentes no Sul o respeito aos direitos humanos e a transparência total.

*Sergio Ferrari
Colaboração de imprensa de E-CHANGER
junto com swissinfo e Le Courrier

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