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17.07.12 - Mesoamérica
François Houtart: ‘Penso que o futuro do sistema capitalista é absolutamente sem saída… Porém, este ainda é muito forte’
Boletín El 19
Boletim da Frente Sandinista de Libertação Nacional - FSLN. 19 Digital
Adital

Tradução: ADITAL

Manágua, 16 julho de 2012

O protagonismo da juventude no processo de transformação vivido pela América Latina é fundamental no fortalecimento do modelo progressista, opina o sacerdote e sociólogo belga, François Houtart, que está na Nicarágua para participar do Encontro mesoamericano de Movimentos Sociais da Esquerda latino-americana e Caribenha, que se realiza no marco do 33º Aniversário da Revolução Popular Sandinista, de 19 de julho.

O padre Houtart, que será um dos expositores do Encontro Mesoamericano, ressaltou o papel da juventude no fortalecimento do modelo Cristão, Socialista e Solidário que vem sendo impulsionado na Nicarágua, modelo que ele não duvida em qualificar como muito original.

Por outro lado, destacou a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), como o único projeto no mundo com uma lógica de complementaridade e solidariedade, ou seja, que rompe com a orientação totalmente competitiva do capitalismo, para situar-se na rota da construção do socialismo.

O sociólogo é uma referência das lutas e resistências populares, ao mesmo tempo em que é conhecido como o "Papa Antiglobalização”. Nasceu na Bélgica há 87 anos e foi ordenado sacerdote em 1949. Atualmente, vive a maior parte do tempo no Equador, país onde se dedica à docência.

Houtart ofereceu uma longa entrevista aos meios do Poder Cidadão. A seguir, o El 19 Digital apresenta um resumo do intercâmbio entre os jornalistas e o sacerdote, quem considera que o sistema capitalista está ferido de morte; porém, ainda é forte.

- Padre, o senhor é conhecido, entre outras coisas, como o Papa Antiglobalização. Por quê?

- Porque tive a oportunidade de trabalhar com muitos movimentos sociais no mundo inteiro e justamente no sentido de combater o tipo de globalização que o capitalismo organizou em escala mundial, com todas as suas consequências, sobretudo, a seus grupos humanos, que são operários, camponeses, indígenas, mulheres, estudantes etc. E assim, por esses contatos que tive com todos esses movimentos e pelo fato de que pude trabalhar em quase todos os continentes, isso, evidentemente, me levou a trabalhar nessa direção.

- Sua primeira experiência ao chegar a Nicarágua... Qual foi a primeira impressão que teve de Nicarágua, e falemos também um pouco a partir de sua opinião sobre o modelo implantado na Nicarágua.

- O que penso é que estamos diante de novas realizações dentro de um projeto de largo prazo, que, evidentemente, é um projeto que exige passos diferentes e que significa avanços. Às vezes, também atrasos. Porém, é um processo em marcha e isso é o que me parece mais importante, porque quando comparo com outros países da América Latina, vejo que de todas as maneiras qualquer crítica que se possa fazer ao que aconteceu na Nicarágua, há passos adiante que não se dão em outros países, especialmente em países que continuam com o modelo neoliberal.

Assim, podemos dizer que aqui na Nicarágua há realmente um tipo de orientação nova, que é pós neoliberal e, ao comparar com outros países que conheço, como Equador, Bolívia, Venezuela... penso que a Venezuela é o país mais avançado em medidas não somente pós neoliberais, mais também pós capitalistas. Nesse sentido, se inscreve nessa grande perspectiva. Porém, são somente passos; passos muito importantes; que permitem a uma parte da população sair da pobreza e isso é significativo; são passos que permitem melhorar pouco a pouco o sistema de saúde, de educação, dando mais acesso às pessoas pobres aos serviços públicos.

- A Nicarágua vem reduzindo a pobreza. Qual sua opinião sobre isso, considerando que também a Nicarágua desenvolve o tema do resgate dos valores como um elemento integral para o exercício das políticas e participação da população?

- O aspecto cultural é central; ou seja, é um problema de valor frente à crise internacional do capitalismo, que é uma crise múltipla, não somente financeira, econômica, mas alimentar, energética, climática; finalmente, é uma crise de civilização e, por isso, a reconstrução e o que estamos vivendo aqui na Nicarágua tem um aspecto cultural fundamental.

São processos que podem demorar; mas, o importante é que existe como processo e se na Nicarágua atual há diferenças na estrutura dos ingressos, da distribuição da riqueza ente os mais ricos e os mais pobres, isso significa um passo fundamental que deve ser acompanhado com um processo de formação das pessoas. Acabo de participar na Venezuela em vários programas de formação de líderes políticos, líderes populares e isso me impressionou muito, ao ver o grande esforço de formação que fazem e, ao mesmo tempo, os progressos na redistribuição ou nas mudanças de estrutura social e isso é muito importante; penso que podemos esperar que também na Nicarágua haja esse processo em marcha.

- Em sua opinião, qual é o futuro do sistema capitalista, nos Estados Unidos, na Europa, apesar das medidas recentemente tomadas? E qual será também o futuro da Alba; qual sua opinião sobre a Alba?

- Penso que o futuro do sistema capitalista é um futuro absolutamente sem saída. Chegou a tantas contradições que não pode reproduzir-se. No entanto, ainda é muito forte e esta morte pode durar todo o tempo; será também um processo e uma luta; não cairá por si mesmo; devemos lutar para que caia.

E a Alba é o único projeto, não somente na América Latina, mas no mundo onde há um passo realmente pós capitalista, onde se prevê orientar a economia não em função da competitividade, como no mundo capitalista, mas em função da complementaridade e da solidariedade. E isso é totalmente novo; é totalmente anticapitalista. E também com a participação dos movimentos sociais (...), isto é, que o projeto é de associar a expressão organizada dos povos a essa construção; tudo isso é realmente um projeto totalmente pós-capitalista e anticapitalista. É um projeto socialista...

- Padre, no fortalecimento desse processo, desse projeto..., que papel deve jogar a juventude nesses países; que protagonismo deve jogar nesse processo?

- O papel da juventude é bastante essencial porque é a parte que tem talvez mais urgência, que tem aspirações por uma boa educação e certa participação; pelo menos a juventude mais consciente. Nesse sentido, penso que a juventude pode ter um papel importante. Mas, há duas condições: primeiro, ser realmente consciente de quais são os desafios; e, segundo, ser organizados.

- Na Nicarágua, qual sua opinião sobre a juventude?

- O papel preponderante da juventude foi visto em toda a revolução sandinista; e isso foi fundamental.

- Qual é sua opinião sobre o papel da juventude na Nicarágua de hoje?

- É totalmente positivo e me parece muito original. Não vi em outros países... Significa que não são grandes discursos, mas grandes práticas e práticas cotidianas; significa partir do que sabem fazer e, sobre isso, construir todo um processo de formação.

Por que plantar uma árvore? O que significa isso? Não é somente assunto da natureza, não é um assunto somente de mariposas; é uma to social de recriar a possibilidade para a natureza se regenerar (...) O problema é que somente temos um planeta e um pequeno gesto de plantar uma árvore é uma to político que um jovem pode fazer de maneira muito simples; porém, de forma que seja um compromisso com algo mais amplo e é assim que se constrói todo um processo educativo; saindo de um pequeno ato cotidiano que um jovem pode executar e tentando chegar a uma análise política.

O mesmo com as casas; isso é extraordinário, porque é a possibilidade para os jovens de ver o que significa uma casa para uma família e de ver a transformação não somente econômica, mas social, cultural, espiritual, que pode significar a disposição de uma casa e, sobre isso, se pode construir todo um projeto político. Por isso, penso que isso é muito original como iniciativa e, na medida em que envolve um maior número de jovens é a construção de uma base sólida para a continuidade do projeto.

- Padre, a Nicarágua está em festa: há 33 anos esse país, encabeçado pela frente Sandinista, com um monte de jovens, levantou-se e conseguiu algo histórico... Qual é sua mensagem para Nicarágua nesse nossa celebração nacional?

- O que podemos dizer é que celebrar essa vitória é celebrar a proposta de um novo modelo de sociedade. E a vitória foi assegurada em grande parte pela juventude e com um projeto que não é puramente conjuntural; mas é um projeto a largo prazo. Por isso, celebrar essa vitória é muito importante porque a cada ano é preciso recordar os valores fundamentais e as metas e isso significa justamente continuar defendendo um ideal, que é um ideal de transformação da sociedade e é uma grande esperança para um povo.


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