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31.07.12 - Mundo
Entrevista com Olivier Père, diretor do Festival Internacional de Cinema de Locarno. ‘O cinema latino-americano contém energia, talento e compromisso’
Sergio Ferrari
Colaborador de Adital na Suiça. Colaboração E-CHANGER
Adital

Tradução: ADITAL

- Compromisso sociopolítico e qualidade artística
- Filmes do Chile, do México e da Guatemala em primeiro plano

Sergio Ferrari*, desde Locarno, Suíça


Olivier Père, diretor do Festival Internacional de Cinema de Locarno.
Foto: Sergio Ferrari

"Juventude, olhar histórico, qualidade artística e surpresas” definem a participação latino-americana na 65ª edição do Festival Internacional de Cinema de Locarno, que se realiza de 1º a 11 de agosto. Olivier Père, diretor da mostra, não esconde sua satisfação por esta rica presença. Entrevista exclusiva poucas horas antes da abertura de um dos eventos cinematográficos mais importantes da Europa.

P: A Praça Grande (Piazza Grande), cenário ao ar livre que pode reunir uns 8 mil espectadores, dedica uma de suas noites a um filme latino-americano. Algo não muito habitual em Locarno...


R: A apresentação da quarta-feira, 8 de agosto do filme ‘No’, de Pablo Larraín será um dos pontos fortes de nosso festival. Significa um reconhecimento a esse grande realizador chileno, cuja produção sempre me agradou muito e que brilha por sua qualidade. É também a oportunidade de homenagear ao ator mexicano Gael García Bernal, que já é figura de primeira ordem no cinema mundial.

No entanto, é importante entender que essa apresentação na "Piazza” é parte da significativa presença ibero-americana em Locarno, em 2012.

P: De fato, dois filmes latino-americanos disputarão com outros dezessete de uma dúzia de países diferentes o "Leopardo de Ouro”, a principal da mostra.

R: Para o concurso internacional, elegemos ‘Los mejores temas’, do diretor mexicano Nicolás Pereda e ‘Polvo’, do realizador guatemalteco Julio Hernández Cordón. Duas produções de grande qualidade.

P: ‘Polvo’ leva à tela o conflito guatemalteco das últimas décadas do século passado, e ‘No’ apresenta um momento chave da história chilena, com a queda do ditador Augusto Pinochet. Nessa 65ª edição, Locarno prioriza o cinema politicamente comprometido daquele continente?

R: Penso que os grandes filmes e, com mais evidência, os da América Latina, falam de uma maneira ou outra, da história de um país, do continente. ‘No’ é a conclusão de uma trilogia de Larraín que trata sobre a ditadura chilena. ‘Los mejores temas’ e ‘Polvo’ apresentam aspectos da história, da política, da sociedade de seus respectivos países. Em todos, de fato, o conteúdo sociopolítico é importante. No entanto, para nós, não é menos importante a força estética de todas essas produções, que são impressionantes. Como certas realizações asiáticas, têm uma marcada dimensão artística. Apresentar personagens em ficções com traços quase documentais. Indiscutível qualidade na escritura cinematográfica, chegando, inclusive, a propostas novas como a de Larraín, que em ‘No’ filma segundo o formato daqueles anos e que era típico da publicidade política da época.

P: Tanto nesses três filmes latino-americanos quanto em outros do mesmo continente, presentes em outras secções dessa edição de Locarno, o denominador comum parecera ser a juventude e o novo. Essa interpretação é correta?

R: Sem dúvida. É a expressão da energia da juventude e do talento profissional que encontramos nessa região do mundo. A Colômbia, o México, o Brasil, a Argentina, entre outros e, inclusive, a América Central, estão marcados pela efervescência de jovens realizadores. No caso do filme guatemalteco eleito para a competição, além de reconhecer sua qualidade, buscamos surpreender, colocando à frente um país que tem uma produção pequena e que raramente está presente nesse tipo de mostras. Para nós é um privilégio. Além disso, é interessante surpreender.

P: No concurso Cineastas do Presente, no que se refere à produção ibero-americana, competirão um filme espanhol e outro brasileiro. Na secção Leopardos do Amanhã, serão apresentados um filme da Argentina, um da Colômbia e dois de Portugal. Presença suficiente em Locarno 2012?

R: Eu qualificaria de importante. Entre os curtametragens de autores, serão apresentados um filme brasileiro e outro de Portugal. E não podemos esquecer a homenagem especial a ‘Curtas Vila do Conde’, que chega com quatro filmes. Apreciamos muito esse festival português, com o qual temos muitos pontos em comum. Apostamos no mesmo tipo de cineastas. E formamos uma rede de festivais amigos que nos complementamos e reforçamos. Essa homenagem significa ao mesmo tempo um gesto de amizade e um sinal de cumplicidade artística.

P: Em síntese, a América Latina e, mais amplamente, Ibero América ocupam um espaço significativo nessa edição que está a ponto de começar?

R: Sem dúvida. E tudo se complementa com a secção "Carta Blanca”, que tem como objetivo apoiar a pós-produção de projetos já avançados. Em 2012, essa secção está dedicada ao México, que chegará com mais de meia dúzia de projetos.

Termino com algo já dito; porém, que me parece essencial. É uma região do mundo caracterizada por uma produção jovem. Porém, que conhece muito bem a história de seus países e continentes. E algo não menos importante: que conhece a fundo a história do cinema. Locarno quer estar presente e acompanhar essa dinâmica que pode ser sintetizada em juventude, compromisso e qualidade artística.

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