É surpreendente dizer que a desobediência pode ser uma atitude espiritual profunda porque comumente as religiões e autoridades sempre insistiram na virtude da obediência. É verdade que quando, no final da guerra, ex-oficiais alemães afirmaram que tinham cometido genocídios por obediência, a sociedade internacional declarou que eles deveriam ter desobedecido a ordens injustas e assassinas. Atualmente, em Israel, jovens recrutados ao serviço militar obrigatório se negam a combater palestinos. Nos Estados Unidos, negros e índios se negam a ir fazer guerra em outros países do mundo. Essas pessoas e grupos religiosos ou não que se negam a pegar em armas invocam um direito individual, assegurado pela ONU: o direito de objeção de consciência. Em vários países, a objeção de consciência é direito civil, reconhecido por lei. No Brasil, a Constituição garante aos jovens brasileiros o direito de fazer um serviço civil no lugar da prestação ao serviço militar obrigatório. Entretanto, as leis complementares ainda não foram sancionadas. Por isso, esse direito ainda não pode ser plenamente exercido e poucos brasileiros têm consciência de que têm essa liberdade de consciência. Nesses dias, a objeção de consciência leva muitos brasileiros a protestar contra a construção da Usina Belo Monte no Pará e também a exigir que a presidente vete em sua totalidade a proposta do novo Código Florestal que o legislativo aprovou. O que caracteriza a atitude de objeção de consciência é que ela é uma postura profética e de discordância motivada por motivos religiosos, culturais ou políticos.
A ONU propõe que se consagre o dia 15 de maio e toda essa semana para aprofundar o direito da objeção de consciência e divulgar essa atitude pacifista. Só se reconhece a dignidade humana onde a consciência individual e a fé de cada grupo forem respeitadas.
A espiritualidade ecumênica valoriza a obediência, mas a compreende como abertura pessoal e livre que leva as pessoas a escutar interiormente e acolher positivamente a palavra e as propostas de outro. Essa obediência deve ser adulta e responsável. É baseada na liberdade do coração. Realiza-se através do diálogo franco e aberto. Se for assim, a obediência não infantiliza, nem constrange. Ao contrário, conduz a pessoa a superar seus limites e a aventurar-se nos caminhos do amor. Essa forma de obedecer é crítica e amorosa. Propõe a colaboração mútua no lugar da competição e contém um elemento subversivo à mesquinhez do mundo.
A ciência e a arte de viver têm progredido mais por conta das pessoas que ousam desafiar as leis e inovar os costumes do que pela ação das que simplesmente seguem caminhos convencionais. A objeção de consciência é a atitude de quem, por convicção religiosa, social ou política, se nega a pegar em armas e a participar de guerras ou atos violentos.
Homens e mulheres, admirados no mundo inteiro, alguns até premiados com o Nobel da Paz, foram ou ainda são, em seus países, considerados como rebeldes e desobedientes. Para os católicos, muitos mártires são testemunhas da fé. Foram condenados à morte por se negar a reconhecer o imperador como divino; Outros, por objeção de consciência ao serviço militar. Do ponto de vista da fé, são santos, mas a sociedade da época os condenou como desrespeitadores das leis e até criminosos.
Todas as pessoas têm direito e dever de opor-se determinadamente a cumprir uma lei que fere a consciência individual e comunitária. A violência, mesmo se é institucional, nunca será capaz de construir um mundo de paz e justiça.
Em alguns países, as pessoas exigem o direito de saber a destinação exata do pagamento de seus impostos. Se a objeção de consciência é direito de toda pessoa diante do poder social e político, com maior razão ainda, religiões e Igrejas deveriam reconhecer o direito à dissidência e à objeção de consciência diante de um poder religioso autoritário ou, por qualquer razão, injusto. Conforme a Bíblia, quando as autoridades de Jerusalém proibiram os apóstolos a falar no nome de Jesus, estes responderam: "Entre obedecer a Deus e aos homens, é melhor obedecer a Deus”(At 5, 29).
O que, na Bíblia, caracteriza a fé cristã é o aprendizado da liberdade interior e social. Paulo escreveu aos gálatas: "Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1. 13).
[Marcelo Barros é autor de 44 livros, entre os quais "A Festa do Pastor", romance sobre o Pentecostalismo. (Ed Rede- Goiás)].
Início