Terça-Feira, 09 de fevereiro de 2010
16.04.04 - ESPANHA Arte e Cultura
Bosques de chocolate para Brasil (Cristina Fernández Pereda*)
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Adital -
Espanha - O chocolate poderia salvar os bosques mais ameaçados do Brasil. A afirmação é feita em um estudo publicado por World Watch Institute. Seus autores comprovaram que o cacau, que produz o ingrediente mais importante para a fabricação do chocolate, poderia ser cultivado de forma a restabelecer as partes mais devastadas da Mata Atlântica. O cultivo do cacau é adequado para o bosque do Brasil por duas razões. A primeira delas é que no bosque tropical abundam as espécies de grande altura e o cacau cresce muito bem à sombra, necessita da sombra. A segunda razão baseia-se em seu potencial de conservação. Não é necessário eliminar outras espécies já existentes para cultivar o cacau de forma que não se tem que prescindir dos recursos naturais que ainda restam nesses bosques. A Mata Atlântica ocupa a maior parte da costa brasileira e constitui 13% do território nacional. Nela já foram encontradas 476 espécies distintas de árvores em um só hectare. O maior nível de diversidade que se pode encontrar no mundo. Porém, resta somente 7% do ecossistema original. O Brasil produz atualmente 6% do cacau mundial. Em 1983 produzia 24%, menos ainda do que a Costa do Marfim. Cerca de 80% dessa produção é colhida na Bahia, na zona norte da Mata Atlântica. O cacau se cultiva, geralmente, mediante um sistema agrícola conhecido como Cabruca: na superfície da mata, na sombra das espécies mais altas, são plantados as pequenas árvores de cacau que logo poderão suportar o peso dos frutos. Este sistema tem sido utilizado em outros países, porém o Brasil tem o maior "bosque de chocolate" do mundo. Porém, este tipo de bosque também está sendo degradado. As ajudas não são suficientes para repor as árvores mais altas que morrem. Nos anos noventa, uma epidemia nas plantações de cacau somou-se à baixa dos preços no mercado internacional. Os donos das terras tiveram que trocar o cultivo de cacau por outro mais rentável. A crise teve como conseqüência o desemprego de 90.000 pessoas. Atualmente, com a recuperação nos preços do cacau e com novos meios para combater as epidemias, os autores do estudo recomendam voltar às plantações de cacau, no mesmo sistema Cabruca, adaptando-o às condições atuais. Querem que a recuperação do bosque esteja acima do mero negócio, da produção massiva. O cultivo do cacau juntamente com outras espécies supõe um ritmo mais lento e benefícios a longo prazo. Porém, não querem estar presos às pautas impostas pelo mercado mundial. O negócio do chocolate gera 60 bilhões de dólares/ano. 80% desse mercado é controlado por seis empresas multinacionais. Estes benefícios não contemplam o esgotamento dos recursos naturais ou a redução das possibilidades de emprego na zona. O ritmo do mercado internacional faz com que seja mais difícil priorizar as necessidades de um ecossistema. As aspirações sociais do estudo consistem em criar uma economia rural mais forte. O cultivo de cacau geraria emprego em âmbito local e contribuiria para o desenvolvimento de outras formas de comércio ecológico, como o ecoturismo, além de lutar contra a devastação florestal. O Brasil poderia começar a orientar o consumo de chocolate com vistas à recuperação da Mata Atlântica. * Jornalista - cfpereda@terra.es.

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