Domingo, 21 de setembro de 2014
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22.06.05 - Cuba
Evangelho segundo Saramago
Adital

Alc/ Enrique López Oliva* -. O escritor português, José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, disse que o inferno "nunca teve nada a ver com a religião". "Para mim - sustentou -, o inferno é este planeta onde vivemos, onde sofremos, onde cremos".

 

Saramago é ateu confesso. Ele disse que o fenômeno religioso sempre o interessou. "As pessoas têm necessidade de acreditar em algo que as transcendem e que vai mais além, que é uma forma de tratar de equilibrar os desastres do mundo", e crer "em algo, que ao final fará justiça", anotou.

 

O escritor afirmou que nunca havia pensado em escrever um livro como "O evangelho segundo Jesus Cristo", uma de suas obras estelares, depois de reiterar que não acredita na existência de Deus nem na vida eterna.

 

O Prêmio Nobel de Literatura dialogou com um numeroso auditório fascinado por suas declarações e obra no evento "Sábado do Livro", ocorrido no último fim de semana, em Havana.

 

Entre os participantes do evento estavam mais de cem representantes da intelectualidade cubana, liderados pelo ministro da Cultura de Cuba, Abel Prieto, membro do cerne político do Partido Comunista da ilha.

 

Também figuravam alguns membros da oposição política não reconhecida pelo governo cubano, como o historiador Manuel Cuesta Morua, secretário da "Corrente Socialista Democrática Cubana" e porta-voz da coalizão opositora "Arco Progressista".

 

Saramago revelou que a inspiração para escrever "O Evangelho segundo Jesus Cristo" teve origem numa "ilusão ótica", quando caminhava pela rua em frente a uma banca de jornais, onde, entre as manchetes e imagens das primeiras páginas, conseguiu ver um cabeçalho que dizia "O Evangelho segundo Jesus".

 

Contou que seguiu seu caminho, mas voltou para certificar-se da manchete. No entanto, ao retornar, constatou que ali "não estava escrito nem Cristo nem Jesus".

 

"Nesse momento pensei que seria interessante, a partir dessa ilusão ótica, que isso poderia dar origem a um relato", afirmou. A idéia foi tomando corpo depois da sua visita à pinacoteca de Bolônia, na Itália, onde, vendo pinturas, "me foram surgindo alguns momentos fundamentais da obra".

 

No entanto, foi a matança de crianças de rua no Brasil que o empurrou a começar a escrever o livro. Saramago descartou que o livro lhe tenha sido inspirado por Deus. Aqueles que sustentam isso, especulou muito a seu estilo, imaginam "que Deus não tinha mais nada do que fazer em sua vida, que inspirar a um terrestre para escrever esse livro".

 

Alguns participantes do evento em Havana sublinharam que há tempo "Sábados do Livro" não recebia público tão numeroso, nem uma presença maciça de representantes das mais variadas mídias nacionais e estrangeira.

 

"A vida de Jesus, inclusive na Cuba socialista e depois de longos anos de formação ateísta, continua atraindo o povo cubano, independente das posições políticas que cada um assuma", disse um dos participantes do encontro.

 

José Saramago, novelista e jornalista, autodeclarado socialista, nasceu em 1922. Sua obra "O Evangelho segundo Jesus Cristo" faz parte das mais de 600 novelas escritas desde princípios do século XIX sobre a vida de Jesus.

 

"O Evangelho segundo Jesus Cristo", em cuja página de rosto aparece Jesus olhando o leitor a partir de uma pintura antiga, perfila-se como um dos acontecimentos editoriais no país.

 

*Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)

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