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Sexta-Feira, 30 de julho de 2010
17.03.06 - BRASIL
Deserto verde
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Adital -
O Dossiê Deserto Verde - O latifúndio do eucalipto, de autoria de Frei Pilato Pereira, articulista do Correio do Brasil, denuncia as conseqüências para o meio ambiente, para o direito à terra, econômicas, sociais, culturais e políticas do monocultivo de árvores para a produção de papel e celulose na metade sul do Estado do Rio Grande do Sul. Pereira apresenta no documento um conjunto de informações sobre as empresas, potenciais problemas ambientais e algumas idéias básicas de possíveis medidas compensatórias para a agricultura familiar, envolvida nas cadeias tradicionais da região. 

As empresas citadas são: a Aracruz Celulose S/A, Votorantim Celulose e Papel e a sueco-finlandesa Stora Enso. A primeira é a maior produtora de celulose branqueada de eucalipto no mundo. Em 2004, a companhia produziu 2,4 millones de toneladas de celulose, sendo que 97% foi exportada. A Aracruz utiliza exclusivamente plantio de eucalipto para produzir celulose de fibra curta de alta qualidade para produzir um grande número de produtos de alta qualidade, como papel para imprimir e escrever, todos de alto valor agregado.

 

Já a Votorantim Celulose e Papel (VCP) adquiriu 66 mil hectares em 14 municípios da Metade Sul do Estado. O pólo do monocultivo de árvores e a unidade industrial da VCP irão se localizar no eixo Rio Grande - Pelotas - Arroio Grande, expandindo-se até Bagé. A projeção da empresa é de produção de 3 millones de metros cúbicos de madeira em 2011 e de 4,2 millones em 2012.

 

A sueco-finlandesa Stora Enso é uma das líderes mundiais na produção e comercialização de papel, celulose (produtos florestais). O faturamento foi de 12,4 bilhões de Euros em 2004.

 

As empresas na sua maioria são verticalizadas, integrando todas as etapas do processo produtivo, desde a base florestal, industrialização e comercialização de papel e produtos derivados. De forma geral, três quartos da celulose produzida a partir da madeira é processada dentro da indústria e destinada à produção de papel. Da celulose se extraem dois grandes grupos de produtos, a celulose de fibra longa de alta resistência mecânica para a produção de embalagens e a celulose de fibra curta destinada à produção de papel para imprimir e escrever.

 

O Brasil é responsável por 18% da produção mundial de fibra curta branqueada de eucalipto, sendo desta forma, o maior produtor mundial. O setor de papel e celulose no Brasil é constituído de 220 empresas, com produção estimada em 2004 de 9,5 millones de toneladas de celulose e 8,2 millones de toneladas de papel.

 

Os grandes grupos econômicos nacionais e internacionais da cadeia florestal, pensando principalmente em grandes fábricas de celulose, especialmente de eucalipto, voltam-se para a metade sul do Rio Grande do Sul, mas também, articulando-se com o pampa Uruguaio e Argentino, bem como o Sul do Chile, formando no Cone Sul da América do Sul um grande pólo florestal por algumas razões.

 

São elas: vantagens comparativas em relação ao hemisfério Norte; mercado mundial de madeira e celulose em expansão; no caso do Brasil, estudos indicam que, desde 2004, a demanda por madeira é maior do que a oferta; infra-estrutura de estradas, portos, telecomunicações, mas principalmente pela existência de água abundante; condições favoráveis do terreno, permitindo uma mecanização completa de todo o processo; frente à situação de estagnação econômica da região Sul, estas propostas acabam por se transformar em espécie de salvação milagrosa para a região.

 

Além disso, as empresas recebem apoio político do Governo do Estado e de quase todos os setores empresariais da região; a produção de eucalipto, durante seu desenvolvimento vegetativo, faz captura de carbono, numa média de 10 millones de toneladas por hectares ao ano, que as empresas poderão no futuro trocar por créditos de carbono, com base no protocolo de Kyoto; e as empresas estavam pagando inicialmente pelas terras R$ 3.5 mil por hectare, atualmente estão pagando R$ 2,8 mil.

 

Para poder ter uma visão de longo prazo sobre possíveis problemas de impactos ambientais, sociais e econômicos de desenvolvimento sobre o Pampa Gaúcho, a partir dos grandes projetos de plantio de monocultivos de árvores comerciais para a produção de celulose, se recorre às experiências acumuladas no Uruguai, até por que  se trata do mesmo Bioma do Pampa Gaúcho, além dos Estados de Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia além do Sul do Chile.

 

Ambientalistas afirmam que o plantio de eucalipto em locais de baixa umidade chegou a secar poços artesianos com até 30 metros de profundidade, deixando a população local sem água. As fábricas de celulose são também grandes consumidoras de água, com uso de muitos produtos químicos para o branqueamento da celulose, tendo sempre presente o risco de acidentes ambientais.

 

Outro impacto ambiental é a redução da biodiversidade da flora e da fauna do Pampa Gaúcho, que se estima existir mais de 3 mil espécies na região entre as quais estão pelo menos 450 gramíneas forrageiras e 150 leguminosas também forrageiras. O eucalipto causa também a degradação da fertilidade dos solos, exigindo grandes investimentos de recuperação posterior à colheita e compactação pelo uso de máquinas pesadas.

 

A principais críticas a esses grandes projetos, além dos problemas ambientais já citados, são: concentração da terra, com expulsão imediata dos agricultores que as venderam; é mais um obstáculo para o avanço da Reforma Agrária nesta região; modelo de concentração de terra, de capital e da renda; modelo exportador, cujos impostos já estão todos desonerados pela Lei Kandir, contribuindo muito pouco para os cofres públicos dos municípios e do Estado; e não gera emprego, pelo contrario diminui postos de trabalho.

 

Esses projetos também geram vazios populacionais, como no Espírito Santo; o plantio de culturas anuais em consórcio, com o eucalipto, apregoado pelas empresas, só é possível nos dois primeiros anos, pois nos anos subseqüentes a competição por luz, água e nutrientes, inviabiliza as culturas anuais; e os investimentos nas grandes fábricas de celulose estão desvinculados da matriz produtiva já existente, instalada na região.


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