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Sexta-Feira, 30 de julho de 2010
24.05.06 - PERU
Peru: Minas matam e mutilam civis e militares
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Vinicius Souza - Maria Eugênia Sá *

Adital -
 
 Presidente da AVISCAM perdeu os dedos numa mina
Por Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá*

Há pouco mais de um mês, a ONG internacional Landmine Monitor divulgou, numa prévia dos dados que virão em seu próximo relatório anual sobre a situação das minas terrestres no mundo, que a Colômbia acabava de assumir a posição de país com maior número de vítimas de acidentes com minas em todo o planeta. Somente em 2005, mais de mil colombianos foram feridos, mutilados ou mortos por essas armas proscritas. Mas o problema das minas antipessoal na América Latina está longe de se restringir à Colômbia, único território da região ainda em guerra civil. De fato, as populações civis e militares de Peru, Chile, Argentina, Venezuela, Equador, El Salvador, Nicarágua e Guatemala também correm risco, em diferentes níveis, de pisar numa mina em seu próprio país. Destes, o Peru é o país que enfrenta a situação mais complicada, devido a antigas disputas de fronteiras com vizinhos do norte e do sul e tentativas de proteger infra-estruturas de ataques terroristas.

 

 Fredy pensou que a mina próxima à torre fosse um rádio

No Peru, são três as principais áreas afetadas pelas minas: a fronteira com o Equador, que foi alvo de conflitos entre os dois países em 1941, 1981 e 1995 (quando cerca de 150 mil minas foram plantadas segundo a Associação Latino Americana de Direitos Humanos); a divisa com Chile minada para evitar que peruanos pobres imigrassem ilegalmente para o vizinho mais rico; e as mais de 1.700 torres de transmissão de energia elétrica que cortam os departamentos de Huancavelica, Junín e Lima. Destas, as que registram oficialmente mais vítimas são as áreas habitadas próximas às torres de energia (173 vítimas nos últimos 15 anos) e as montanhas na fronteira com o Equador (128 acidentes), sendo que 49 pessoas morreram devido aos ferimentos e 44 eram menores de 18 anos. Esses números, entretanto, são reconhecidos amplamente como subestimados.

As cifras reais são provavelmente 10 vezes maiores. De acordo com o ativista Julio Montoya, mais de 1.600 soldados já receberam tratamento para ferimentos causados por minas nos últimos anos somente no hospital militar da capital Lima. Do lado civil, muitas vezes os indígenas e habitantes de comunidades tradicionais nas montanhas não buscam os hospitais e nem registram as mortes. Além disso, pastores e pequenos agricultores do interior temem dizer que se feriram perto das torres de transmissão de energia e serem confundidos pelas autoridades com terroristas ou ladrões de sucata em busca de metal e cabos.

 

 O novo batalhão de desminagem finalmente tem equipamentos de proteção

A história da criação dos campos minados em volta da torres de transmissão de energia e sua "desminagem" é uma sinfonia de erros que continua fazendo novas vítimas todos os anos. Em 1986, nas vésperas das eleições no Peru, o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso explodiu e derrubou, em um único dia, 10 torres, causando um apagão de grandes proporções no país. Nos anos seguintes, novos ataques deixaram claro para o governo a necessidade de se proteger as instalações elétricas. Como não podiam colocar soldados em todas as torres, decidiram em 1989 que um pelotão especial da Polícia Nacional plantaria entre 40 e 50 minas improvisadas, feitas a partir de granadas comuns, em cada uma das 1.711 torres da linha principal. Mais tarde, novas minas ainda mais poderosas desenvolvidas pela Marinha também seriam colocadas nesses campos.

 

 Fredy recebe apoio médico do Comitê Internacional da Cruz Vermelha

A pressa, no entanto, dificultou um planejamento mais detalhado e mesmo a capacitação correta dos profissionais que fariam este trabalho. Dos 40 policiais do primeiro batalhão designado para plantar as minas, 32 sofreram acidentes, sendo que cinco morreram em decorrência dos ferimentos. "A situação era tão extrema que a prática se dava em campo, só 20 colegas do primeiro batalhão tiveram alguma capacitação e repassaram por conta própria para os demais", conta o policial aposentado Bruno Celiz, que perdeu um pé e um olho na explosão de uma mina. "Não tínhamos nenhum equipamento de proteção pessoal, quando muito um crucifixo. É a mesma coisa que mandar um soldado lutar na Antártida sem um casaco".

Com o trabalho de colocação das minas sendo feito rapidamente entre 1989 e 1993 por um grupo tão pequeno, os mapas eram todos imprecisos. As condições climáticas em torno de muitas torres, como neve ou chuvas tropicais, também afetavam muito as posições originais das minas. Para piorar, cada vez que era necessária alguma manutenção nas torres, os policiais eram enviados para abrir um caminho seguro para os técnicos até a torre retirando as minas do chão. As mesmas minas seriam enterradas novamente quando o trabalho estivesse concluído. Qualquer pessoa que já viu um trabalho sério de desminagem de qualquer lugar do mundo sabe do perigo de se tentar desativar uma mina. Por isso o protocolo mundial é sempre promover uma explosão controlada que destrua o artefato.

Como as minas eram improvisadas e estavam sujeitas ao calor, frio e umidade, às vezes por anos, em geral estavam instáveis. Foi uma mina assim que mutilou Carlos Estrada Salinas, hoje presidente da Associação de Vítimas e Sobreviventes de Campos Minados - AVISCAM. Como tinha mais experiência que os colegas, ele voltou de sua lua de mel antes do fim da licença para liderar uma desminagem particularmente delicada. Infelizmente, por falta de equipamento de proteção, o conhecimento que tinha não foi o suficiente para impedir que a explosão de uma mina decepasse os dedos de uma de suas mãos e o deixasse praticamente cego. "Somos a única associação que não quer mais sócios", brinca.

 

 Noe foi brincar com a mina no fogão e quase ficou cego

Atualmente a AVISCAM tenta levantar fundos para um programa de educação para risco de minas que atenderia a dezenas de milhares de pessoas nas comunidades afetadas. A idéia é ensinar adultos e crianças nas regiões próximas aos campos minados a reconhecer uma mina e sobre os perigos de se recolher objetos desconhecidos nessas áreas. Instruções simples como essas poderiam evitar acidentes terríveis como o que cegou o jovem Fredy Mendoza, quando ele tinha apenas nove anos. O garoto morava nas montanhas de Junín e pastoreava suas ovelhas perto de uma torre de alta tensão quando viu no chão um objeto brilhante que imaginou ser um rádio. Em sua curiosidade infantil, pegou o artefato e apertou o botão que o fez explodir. A família o encontrou desfalecido e pensou que ele tivesse morrido. O menino só viria a se mexer quase 16 horas depois, no meio de seu próprio velório, quando finalmente foi levado ao hospital. Hoje ele vive na periferia de Lima e conta com o auxílio financeiro para os cuidados médicos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha - CICV e a ajuda de uma irmã de 12 anos para vender balas nos coletivos.

 

 A família de Noe teve que se mudar para Lima para cuidar do garoto

Programas de educação para riscos de minas são uma realidade comum em vários países que enfrentam esse problema e têm no CICV um de seus principais apoiadores em todo o mundo. No Peru, a entidade conduzia esses programas nas regiões de entorno da torres de transmissão até 2004, quando o governo deu por encerrado o processo de desminagem que acompanhou a privatização do sistema elétrico. Acontece que para seguir o cronograma dos leilões e metas acertadas na assinatura do Tratado de Banimento de Minas Antipessoal, novamente o trabalho foi realizado com pressa e sem o necessário controle de qualidade. Com isso, novos acidentes continuam a ocorrer em áreas que supostamente estariam livres de minas.

Um caso recente é o do menino Noe Ñahuero, que vivia com os pais, camponeses da etnia quéchua, no departamento de Huancavelica. Assim como Fredy, ele também apanhou no campo um objeto que não conhecia. Noe levou o artefato para casa e no dia seguinte o amarrou em um graveto para colocá-lo no fogão a lenha. Com a explosão o menino de 10 anos teve o braço direito arrancado, perdeu um olho e teve que passar por uma cirurgia no outro para a colocação de uma lente intraocular. Para cuidar da criança, toda a família se viu obrigada a mudar para a periferia de Lima onde vivem do salário de empregada doméstica da filha mais velha e de algum trabalho eventual do pai, já que a mãe não fala espanhol.

 

 Agora as minas são achadas com detetores de metal e detonadas no local

Casos como esse forçaram o governo a admitir que é necessário e urgente refazer o trabalho de desminagem. Um novo grupo, mais capacitado e melhor equipado, foi montado com a ajuda da Organização dos Estados Americanos - OAS e do Centro de Desminagem Humanitária de Genebra - GICHD. Diferente do pelotão que plantou as minas, o novo batalhão da Polícia Nacional utiliza capacetes, botas com solado ultra-resistente, roupas à prova de choque que cobrem quase todo o corpo e detectores de metal para encontrar os explosivos sob a terra. Como o trabalho é desgastante e os profissionais precisam estar atentos o tempo todo, sempre são enviadas duas equipes de detetorista e sondador para cada desminagem. O grupo é formado ainda por um chefe de esquadra, um enfermeiro, um soldado encarregado da sensibilização da população vizinha e um especialista em explosivos. Sim, agora cada vez que acham uma mina ela é detonada no local.

 

 80% dos policiais do primeiro batalhão de desminagem sofreram acidentes

Desde o final do ano passado, quando começou o trabalho de garantia de qualidade na desminagem, milhares de minas, pedaços de minas, espoletas, munição e outros artefatos perigosos foram encontrados no entorno das cerca de 400 torres de transmissão de energia já vistoriadas. Foi dada prioridade para o departamento de Lima e para as torres mais próximas de comunidades. O CICV também está se preparando para reiniciar o programa de educação para risco. Mas os desafios continuam. "É sempre difícil justificar a necessidade de investimento em um trabalho de conscientização e prevenção", diz Fanny Díaz Abanto, assistente social do CICV no Peru. "Infelizmente a sociedade só percebe o problema quando acontece uma tragédia, mas aí já é tarde demais".


* Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá são jornalistas e fotógrafos documentaristas que estão desenvolvendo um trabalho sobre minas terrestres na América Latina.

Mais informações em http://mediaquatro.sites.uol.com.br


* Jornalistas e fotógrafos

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