Quinta-Feira, 31 de julho de 2014
10.07.06 - Brasil
Brasileiros no Japão
Dom Odilo P. Scherer
Secretário geral da CNBB
Adital
No dia 6 de julho de 2006 tive um encontro com alguns Bispos do Japão na sede da Conferência Episcopal, em Tokyo. Ao todo, são 16 dioceses no país. Com eles foi feita uma reflexão sobre presença dos brasileiros no Japão e o significado deles para aquela Igreja local. Ali vivem atualmente cerca de 300.000 brasileiros, que para lá foram, sobretudo, em busca de trabalho.
 
Grande parte deles são católicos e recebem a atenção de vários missionários brasileiros, de diversas congregações e ordens religiosas e também  por alguns sacerdotes seculares. Pe. José Geeurick (Pe. Zeca) por muito tempo Diretor do Centro Cultural Missionário da CNBB, Pe. Vendelino Lorscheiter, jesuíta, irmão de Dom Ivo, e Pe. Olmes Milani, carlista do Rio Grande  do Sul, são alguns deles.
 
Os brasileiros são o segundo maior grupo de estrangeiros no Japão, atrás somente dos filipinos. A maioria deles é descendente dos japoneses imigrados no Brasil,  mas também há  muitos que não o são. As maiores concentrações de “dekasseguis” (trabalhadores estrangeiros) brasileiros estão nas áreas de Yokohama, Nagoya, Saitama e Tokyo. São essas também as principais áreas industriais. Mas há brasileiros espalhados em todas as dioceses do Japão.
 
Os bispos manifestaram sua preocupação pelo atendimento religioso e humano aos brasileiros, que enfrentam as situações típicas dos imigrados: procura de residência e trabalho, assistência à saúde, escola para os filhos, preconceitos e discriminação social, desagregação familiar e incerteza quanto ao futuro. A Conferência Episcopal, através da Cáritas e do ofício para os imigrantes, tem várias iniciativas de apoio pastoral aos brasileiros e outros estrangeiros que vivem no país.
 
Vários bispos, sobretudo os que receberam grande número de brasileiros em suas dioceses, manifestaram especial preocupação em relação à assistência pastoral que desejam dar a eles. Há o caso de Nagoya, que triplicou o número de católicos em poucos anos e o bispo se vê na impossibilidade de lhes dar a assistência necessária. Somente os brasileiros católicos já são cerca de 68 mil em Nagoya! Nas comunidades católicas, de resto, os brasileiros e outros estrangeiros enfrentam as mesmas dificuldades encontradas na sociedade em geral. A integração é lenta e difícil, sobretudo por causa das enormes diferenças culturais, mesmo na manifestação da religiosidade.
 
Os bispos levantaram algumas questões mais comuns que os brasileiros vivem: não falando a língua japonesa, eles dificilmente conseguem se integrar na sociedade local; a maioria chegou ao Japão pensando em trabalhar muito, ganhar dinheiro e voltar logo ao Brasil; por isso o trabalho é o projeto prioritário  dessas pessoas, que fazem muitas horas extras, além dos turnos regulares de trabalho. Normalmente também trabalham no domingo e deixam de participar das celebrações, por falta de tempo. O retorno ao Brasil vai sendo protelado, nascem filhos, que crescem sem conhecer o Brasil. Os pais acabam ficando no Japão por tempo indeterminado.
 
Com freqüência, a vida familiar acaba desagregada; muitos casais convivem pouco, têm problemas e se separam;  os pais quase não têm contato com os filhos, não conseguindo mais comunicar-se com eles; os filhos aprendem  o japonês e os pais não... Muitas vezes, os adolescentes deixam de freqüentar a escola, perambulando pela cidade. Os “meninos de rua” vão aparecendo e preocupam os japoneses, que os vêem como potenciais criminosos. O abandono da escola é freqüente e choca os japoneses, que dão enorme valor à escola e à formação. Sem escola, no Japão não há futuro.
 
As escolas oficiais são ótimas e gratuitas, mas quando os brasileiros querem uma escola particular de língua portuguesa para os filhos, devem pagar muito por isso. Há 33 escolas brasileiras no país. Muitas vezes os pais não podem pagar e os filhos acabam ficando sem escola. Também a formação religiosa é interrompida e, bem depressa, os adolescentes perdem o contato com a Igreja. Quando atingem 16 anos de idade, podem trabalhar e logo começam a ganhar dinheiro, que é o objetivo principal de sua estadia no Japão, deixando tudo o mais em segundo plano.
 
Há muitos brasileiros presos, em boa parte jovens, geralmente por furto ou tráfico de drogas. Um padre brasileiro disse-me que em breve será iniciada uma assistência religiosa regular aos brasileiros presos, inclusive com a celebração mensal da eucaristia, o que significa uma novidade pastoral. O proselitismo dos grupos neo-pentecostais é intenso entre os imigrados.
 
De toda maneira, grande parte dos brasileiros católicos freqüenta as celebrações em português proporcionadas pelos missionários que lhes dão assistência. Há uma forte presença da Renovação Carismática entre os católicos brasileiros. Muitos descobriram no Japão a importância de sua fé, que passaram a viver com mais fervor. Mas também aqui se repete o problema: os filhos, muitas vezes, já não entendem português e não se identificam mais com a cultura de seus pais, deixando de acompanhá-los nas celebrações.
 
Os brasileiros organizam seus encontros sociais e são notórios pela exuberância de suas festas, ritmos e ritos. Muitos japoneses, depois de estranhar um pouco, acabam simpatizando. Há dois jornais editados em português; muitas iniciativas culturais, esportivas e mesmo econômicas entre os brasileiros vão aparecendo. Não há dificuldades em ter informações sobre o Brasil por causa da Internet.
 
Os bispos pediram com insistência a ajuda de mais missionários brasileiros, que queiram, ficar algum tempo no Japão; é importante aprender a língua e a cultura local. A presença de estrangeiros católicos já constitui quase um terço do total de católicos naquele país e vai desafiando a Igreja a rever seus métodos tradicionais de evangelização e pastoral. A preocupação com a evangelização da infância e da juventude está especialmente viva entre os bispos. A integração dos diversos grupos étnicos na única Igreja é um desafio estimulante, que mudará a face da Igreja no Japão a médio prazo.
 
A CNBB possui a Pastoral Nipo-Brasileira (PANIB), que é conhecida dos bispos japoneses. O primeiro centenário da imigração japonesa no Brasil, em 2008, já é visto no Japão como ocasião para diversas novas iniciativas evangelizadoras. Da mesma forma, para a Igreja no Brasil poderia ser ocasião para uma atenção maior para a sua presença missionária nas terras do Sol Nascente. O início da pregação do Evangelho aconteceu em meados de século XVI, com São Francisco Xavier, de cuja morte se recordam 450 anos em 2006. Aquelas terras foram regadas pelo sangue de numerosos mártires, muito venerados pela Igreja local. O vigor de sua fé e sua herança espiritual são promissoras para a evangelização do Oriente, sobretudo da China, quando chegar o momento da graça.
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