Quarta-Feira, 23 de julho de 2014
12.02.07 - América Latina
Deus está chorando!
Claudemiro Godoy do Nascimento
Filósofo e Teólogo. Mestre em Educação/Unicamp. Doutorando em Educação/UnB. Professor da Universidade Federal do Tocantins – UFT/Campus de Arraias
Adital

Esta reflexão pauta-se na tristeza. A tristeza é um sentimento humano que se afirma quando as relações entre os homens se quebram. Nas palavras de Leonardo Boff trata-se de um problema de ecologia e de harmonia entre a humanidade ferida e sofrida por tantos egoísmos e ódios. Mas as tristezas que me perseguem nestes dias refere-se à ferida amarga da incompreensão e do ódio de setores da Igreja Católica contra a Teologia da Libertação e seus componentes. Além dos ódios, incompreensões e intolerâncias contra um jeito de se viver a experiência fantástica do seguimento a Jesus de Nazaré, as CEBs. As CEBs são a prática refletida pela Teologia da Libertação que a assume como plataforma da vivência e espiritualidade cristã.

Havia pensado em contribuir com as reflexões acerca da democracia, da educação, da Campanha da Fraternidade sobre nossa querida Amazônia ameaçada pelo Agronegócio, Hidronegócio e pelo aumento da devastação. Com certeza, não faltará oportunidades para refletirmos sobre outros temas urgentes e emergentes de nosso tempo esquisito, ameaçado pelo relatório dos cientistas que alertam a humanidade para o Aquecimento Global. No entanto, as circunstâncias da fé, do testemunho, do diálogo e do serviço nos fazem revermos a caminhada e a história. Tais circunstâncias surgiram a partir do ódio, do egoísmo e do individualismo religioso de setores da Igreja Católica contrários a Frei Betto, à Teologia da Libertação e ao modo de se viver eclesialmente a partir da experiência das CEBs.

Confesso que não acredito no efeito dessas reflexões que aponto. Os efeitos são bem menores do que as causas que me fazem refletir sobre um grande problema existente na Igreja em nossos dias que pode ser resumido pela categoria: intolerância religiosa. Para outros, que refletirão também tratar-se-á de fundamentalismo religioso. Já para a grande maioria será mais uma reflexão de um maluco que acredita na esperança-espera do Reino de Deus entre nós e no sonho de Jesus em construir uma nova humanidade. As causas apontadas são os motivos reais dessa reflexão de um pobre mortal que pensa estar-se chegando a um problema grave que ameaça a experiência de vida cristã e que podemos, com isso, estarmos seguindo os mesmos caminhos da incompreensão religiosa vivido pelos xiitas e sunitas no Islamismo. Talvez a comparação esteja chocando a muitos, mas é o que realmente pode vir a acontecer se não pudermos compreender que Deus não é monopólio de ninguém. Exatamente por isso que Deus chora com as intolerâncias religiosas e com os fundamentalismos que somente aprofundam o ser humano numa vida sem coerência com a moral cristã.

Esta teimosa reflexão não significa de modo algum resposta a ninguém, a quem quer que seja. Como disse, são apenas pontos que penso ser importantes levantar. Também não se quer fazer nenhuma forma de proselitismo ou de convencimento de que somos os certos e os outros os errados. Mas, diante das circunstâncias históricas que vivemos lamentavelmente, considero emergente dialogarmos sobre o assunto.

Nesta semana, muito barulho foi realizado em torno do artigo de Frei Betto. Os setores da Igreja contrários a CEBs, a Teologia da Libertação e ao pensamento crítico levantaram a bandeira da Guerra Santa. Nesta ocasião, senti-me interpelado pelo Evangelho a defender a posição de Frei Betto e parece que as coisas se inflaramaram mais ainda. Talvez tenha sido esta a intenção dos setores que iniciaram a barbárie da intolerância religiosa. Portanto, não se pretende aqui novamente defender Frei Betto diante da segunda acusação e nem responder aos setores conservadores as acusações feitas com todo direito contanto que haja fundamentação, o que a História se responsabilizará de provar que não há.

A sociedade capitalista provocou enormes transformações da sociedade. Ela não surgiu no tempo de Jesus. O capitalismo é recente, cerca de 200 anos. As transformações proporcionadas pelo capitalismo fizeram do Homem um ser voltado propício à cultura de morte que se utilizou (e ainda utiliza) de uma educação normalizadora para legitimar, sacralizar e perpetuar a exploração, a favelização, a violência, o desmatamento e o empobrecimento. As Igrejas e os aparelhos ideológicos do Estado tentam aplicar a Teoria do Mal que vem para o Bem, ou seja, cuide de sua alma, maltrate seu corpo, ou então, não se importe com sua pobreza e miséria, pois no céu terá um lugar reservado por Deus. Assim, dessa anti-realidade humana é que surge a Teologia da Libertação e o que chamo de Pedagogia da Libertação. Os autores, teólogos da libertação, vão beber na fonte do existencialismo cristão, em especial, Emmanuel Mounier e Gabriel Marcel. Ao contrário da educação normalizadora das elites, a Teologia da Libertação propõe uma nova ótica social, a saber: justiça social, graça, hominização, vocação para ser mais – para ser gente e solidariedade que significa identificação com os oprimidos.

“Não matarás!” significa uma posição clara do Deus da Vida contra toda e qualquer forma de Cultura de Morte. Considero os ataques realizados pelos setores conservadores da Igreja Católica ao modo de produção diferente significa um modo de matar o outro. A morte não é física, mas moral e social. Deus chora com a morte física do homem, mas chora com outros tipos de morte que são apregoadas pela falta de humanização do ser humano. Muito bom se lutássemos pela vida integral do ser humano e pelos seus direitos de cidadania e sociais como certos grupos se preocupam somente em lutar contra o aborto, a eutanásia, a camisinha. Não digo que sou favor ou contra tais lutas, mas não são lutas integrais.

Diante do mal-estar causado pelos estes setores da Igreja, considero difícil permanecer no silêncio obsequioso proposto por eles. É o mesmo silêncio travestido de outras roupagens que foi destinado aos tantos mártires da caminhada de nossa América Latina. Um silêncio misturado com a dor e a angústia. Precisamos com isso, reafirmar e continuar acreditando no Reino, na justiça social, no testemunho de muitos e muitas que doam suas vidas pela causa maior de fazer do outro um ser especial aos olhos de toda a sociedade, pois aos olhos de Deus todos sem distinção somos especiais, mesmo quando Deus se encontra em lágrimas pelo desentendimento humano.

Querer defender uma posição é próprio do ser humano. Todos nós defendemos posições e isso é próprio do ser humano. Contudo, defender posições não significa chegar ao ponto de matar o outro, de eliminar o outro, de banir o outro da comunidade. Seria fácil se todos concordassem conosco, mas as coisas não são assim. O respeito pela alteridade deve ser levado mais a sério por determinados grupos que não entendem o jeito de se viver diferentemente a espiritualidade cristã que não é monopólio da Igreja Católica. Os Protestantes, a seu modo, vivem também a fé e a experiência do sagrado diferente dos católicos. Os Ortodoxos também. Agora por isso temos que atacá-los? Promover uma Guerra Santa, uma Cruzada contra os que comigo não concordem?

Por coincidência histórica, participei hoje de um encontro de Pós-Graduação onde partilhei como professor com os alunos a experiência das comunidades cristãs para a construção de uma nova sociedade. Os alunos puderam assistir Fé e Pé na Caminhada e o Anel de Tucum. Foi uma experiência rica apesar dos sentimentos perturbadores provocados pela cultura de morte ao outro, ao diferente, que já se encontra implantado em suas consciências. Talvez Deus tenha se alegrado um pouco, mas ao chegar em casa deparo-me com Deus chorando novamente, pois os mesmos setores que ontem difamaram o jeito diferente de viver a espiritualidade cristã continuam o ataque farisaico. Desta vez compartilhei as lágrimas com Deus. Logo após, lembrei-me da música cantada profeticamente em nossas comunidades e que é o término do Filme de Conrado Bering, O Anel de Tucum, que transcrevo abaixo:

Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão.
Se fecharem uns poucos caminhos, mil trilhas nascerão...
Muito tempo não dura a verdade,
nestas margens estreitas demais,
Deus criou o infinito pra vida ser sempre mais!
É Jesus, este pão da igualdade, viemos pra comungar, com a luta do povo que quer ter voz, ter vez, lugar! Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar! Com a fé e a união nossos passos, um dia, vão chegar!

O Espírito é vento incessante, que nada há de prender. Ele sopra até no absurdo, que a gente não quer ver...

No banquete da festa de uns poucos, só rico se sentou, nosso Deus fica ao lado dos pobres, colhendo o que sobrou...

O poder tem raízes na areia, o tempo faz cair. União é a rocha que o povo usou pra construir...

Toda luta verá o seu dia nascer da escuridão. Ensaiamos a festa e a alegria, fazendo comunhão...


De fato, amenizou a dor e a angústia. Sempre quando entramos em oração podemos compreender melhor o sentido das coisas que se apresentam como problemas. Por isso, entendo que devemos continuar a caminhada como os caminhantes de Emaús, mas sabendo que algo nos enche de alegria, pois vimos o Senhor Ressuscitado na partilha do pão que se faz na defesa da vida humana. A luta pela vida, pelo direito de cidadanização, pelo direito de ser mais deve continuar, pois são as bandeiras de toda Teologia da Libertação que repito: não é exclusividade do catolicismo. Sua dimensão ecumênica fala mais alto do que o monopólio capitalista que se implanta nas consciências de cristãos e cristãs seduzidos pelo discurso platonista de determinados grupos que teimam em manter o Povo de Deus na miserabilidade crítica, social e de classe.

As CEBs, a Comissão Pastoral da Terra, o Conselho Indigenista Missionário, o CEBI, o CESEP, as Pastorais Sociais, o Ecumenismo, a luta pela dignidade humana continuará existindo dentro ou fora dos muros da Igreja Católica. Outras denominações cristãs já vivem esta dimensão na prática como os luteranos, anglicanos e os católicos que se encontram na periferia, escondendo-se do Index, da perseguição da Inquisição e da Cruzada contra um jeito diferente de se viver a Boa-Nova do Reino. Nesta esperança de sobrevivência é que queremos continuar a caminhada, talvez com mais força ainda diante dos ataques sofridos. Com certeza Deus estará à frente dessa marcha nos conduzindo para a Terra Prometida, Terra da Esperança, Terra onde devemos continuar acreditando que correrá o leite e o mel para todos e todas, sem distinção de raça, cor e credo. Caso isso seja visto como comunismo por alguns, então que seja comunismo cristão, bem ao exemplo das primeiras comunidades cristãs apontadas pelos Atos dos Apóstolos. Talvez aí, Deus pare de chorar. No momento, com certeza, Deus está chorando.

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