Terça-Feira, 02 de setembro de 2014
Novo Doe
10.05.07 - Brasil
Paulo Freire e a pedagogia da autonomia
Claudemiro Godoy do Nascimento
Filósofo e Teólogo. Mestre em Educação/Unicamp. Doutorando em Educação/UnB. Professor da Universidade Federal do Tocantins – UFT/Campus de Arraias
Adital

Celebramos nesta semana os 10 anos sem Paulo Freire entre nós. Na verdade, é uma ausência sempre presença. Ele continua vivo, forte, atuante nos diversos segmentos da sociedade brasileira. Tantos nos escritos e pesquisas como também nas ações pedagógicas dos movimentos sociais que lutam pela vida e por uma sociedade mais humana e justa.

Assim, nada mais justo do que fazer memória desses 10 anos (1997-2007) de caminhada do movimento de educadores e educadoras que estimulados pelos ideais de Paulo Freire continuam sonhando e criando utopias por uma Pedagogia da Autonomia que foi a temática de seu último livro destinada à formação de educadores e educadoras, da formação necessária à prática docente e sobre a prática educativa transformadora.

Paulo Freire procura deixar claro sua maneira de pensar sobre a prática de educadores e educadoras críticos e progressistas, onde acredita que alguns deles são necessários, pois a própria prática se torna uma exigência da relação entre teoria e prática, a saber, a práxis.

Acreditou que “pensado certo”, será possível construir um mundo melhor, pois o ato de ensinar é o mesmo ato de aprender e é dessa forma que se entende a sua prática educativa, realmente dialética. Considera saberes aquilo que se tornam indispensáveis na prática educativa e que devem fazer parte da formação docente, pois quem ensina aprende e quem aprende ensina. É daí, dessa dialogia, que surgirá o educador problematizador.

Aprender criticamente é possível e exige educadores e educandos criadores, inquietos e persistentes. A importância do educador não é simplesmente transferir conhecimentos, mas sim ensinar a pensar certo. E o que significa em nossa realidade pensar certo? Como pensar certo diante dos fatores que nos ameaçam enquanto humanidade que se autodestrói na lógica do consumismo de mercado total? Pensar certo insere os educadores e a própria escola no dever responsável e ético de respeitar os saberes dos educandos e de suas classes sociais. Um exemplo clássico desse respeito ainda não alcançado se refere ao fato da desrespeitabilidade existente entre educadores da cidade e educandos do campo, do meio rural. Não há, com exceções, há respeitabilidade necessária aos saberes dos educandos, pois o que se afirma é a lógica da superioridade urbana sobre a campesina. A escola deve ensinar os conteúdos aos educandos para que possam transformar, despertando e desenvolvendo a curiosidade e a criticidade de cada um. Exatamente por isso é que não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino.

O educador não pode transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico, mas ensinar dentro da formação moral do educando, correndo todos os riscos ao aceitar o novo e recusar o velho, fazendo pensar certo um diálogo sem qualquer forma de discriminação. Dessa forma, o educador não tem somente o dever de respeitar, deve aproveitar a experiência dos educandos e associar o conteúdo dado, deve discutir com os educandos a realidade concreta a que se deve associar a disciplina para um pensar certo.

O pensar certo do educador necessita de uma análise crítica sobre a sua prática pedagógica do dia-a-dia, assumindo os erros e fazendo algo para melhorar, levando em conta que tanto o aluno quanto o professor pertencem a um mundo onde há diferenças sociais e históricas e que ambos são seres humanos capazes tanto de amar quanto de odiar. Pensar certo e ensinar, sem apenas transferir conhecidos reproduzindo o já produzido, são posturas difíceis de assumir diante de nós e dos outros. O educador deve saber que o ser humano é um corpo consciente e não espaço vazio a ser preenchido por conteúdos.

A responsabilidade dos educadores na realização de seu trabalho é inevitável, pois tudo o que fazem deixam de algum modo marcas em seus educandos e educandas. A alegria e a esperança jamais podem deixam de existir na relação educador-educando e educando-educador, pois ambos são condimentos indispensáveis. Com isso, o educador deverá saber que a curiosidade convoca a imaginação, a intuição, as emoções e a razão de ser, tendo a condição de não apenas pensar sobre os conteúdos.

O docente deve também revelar segurança, autoridade e firmeza, demonstrando assim sua competência profissional, sendo indispensável demonstrar sua capacidade de fazer justiça e de não falhar com a verdade. Ensinar exige assim compreender que a educação é uma forma de intervir no mundo. A indisciplina de uma liberdade desequilibrada prejudica o processo educativo, pois a questão dos limites sem os quais a liberdade se reverte em licença, a autoridade em autoritarismo.

Ensinar exige a tomada consciente de decisões, sendo a intervenção um aspecto de opção em relação a cuja pureza nem sempre somos realmente leais. É de suma importância saber escutar o outro, uma vez que só se aprende escutando, então o silêncio no espaço de comunicação é fundamental. O discurso ideológico da globalização procura disfarçar que ela vem confirmando a riqueza de uns poucos e verticalizando a miséria de milhões, pode tornar impossível viver a disponibilidade à realidade sem segurança e também criar a segurança fora do risco da disponibilidade.

O educador progressista precisa estar convencido de suas conseqüências e o de ser trabalhado a partir de uma especialidade humana. O educador deve tratar bem o educando, querer o melhor para ele em seu bem-estar. Deve ter ética e respeito profissional com os educandos e educandas. Assim, na Pedagogia da Autonomia, cada ensinamento foi utilizado por Paulo Freire em forma de repetição do ensino anterior, sempre acrescentando mais sobre sua metodologia para uma educação nova e renovadora.

Em cada passo, Paulo Freire procura mostrar a postura do educador quanto a sua prática educativa, visando sempre o respeito ao educando, libertando seu pensamento de tradições desumanizantes. Paulo Freire menciona que o ensino é muito mais que uma profissão, é uma missão que exige saberes no seu processo dinâmico de promoção da autonomia do ser de todos os educandos, de todas as educandas. É por isso que acredito: Paulo Freire ainda consegue despertar sonhos e utopias.


E-mail: claugnas@terra.com.br

Link permanente:
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para:
Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil
Início
Adital na Rede
Artigos mais lidos (nos últimos 7 dias)
  1 2 3 4 5  
Notícias mais lidas (nos últimos 7 dias)
  1 2 3 4 5