Quinta-Feira, 18 de setembro de 2014
Novo Doe
10.07.07 - Brasil
Brasil - Boi de piranha
Pe. Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais.
Adital

“Boi de piranha” é uma expressão que vem do mundo rural, mais especificamente da criação de gado e da vida do vaqueiro. Quando este precisa levar a manada a cruzar um rio infestado de piranhas, pode utilizar o seguinte estratagema: matar o boi mais frágil ou doente e o atirar sangrando ás águas. Enquanto o cardume de piranhas é atraído pelo odor do sangue fresco, a “isca”, o restante da manada atravessa sem perigo.

É bem o caso do senador Joaquim Roriz. Foi sacrificado para salvar a manada, a começar pelo chefe (pelo menos por enquanto). Não que Roriz seja um exemplo de político acima de qualquer suspeita. Ao contrário! Quem não o conhece que o compre! Quando exerceu o cargo de governador no Distrito Federal teve seu mandato ameaçado por uma série de denúncias relacionadas à falta de ética. Há muito responde junto aos tribunais pela distribuição ilegal de terrenos nas cidades satélites de Brasília, com fins eleitoreiros.

Mas o caso não deixa de ser emblemático. Fica evidente, uma vez mais, o misto de rivalidade e corporativismo que reina no Congresso Nacional e no Senado em particular, como também, salvaguardadas as diferenças, nos poderes legislativo e executivo. Se, de um lado, todos defendem todos quando se trata de rebater os ataques que chegam do exterior, seja pela mídia ou pela sociedade em geral, de outro lado, todos são capazes de encarniçar-se contra um só, quando a ordem é encobrir uma prática comum e tradicional. Joga-se às piranhas o político de menor expressão, ao mesmo tempo que os demais se debatem como náufragos, para não se afogarem no mar de lama por eles mesmos criado. Com isso, a manada pode cruzar imune e impune o rio de águas turvas e revoltas, engrossado pela tempestade de denúncias que se abate sobre Brasília.

Não está em jogo o mérito da questão. Falta de decoro parlamentar, uso indevido dos recursos públicos, tráfico de influência, compra de votos, legislar em causa própria – tudo isso é secundário. As investigações arrastam-se por meses a fio na Polícia Federal ou nas Comissões Parlamentares de Inquérito, terminando quase sempre em tardias e melancólicas pizzas. O mais importante mesmo, o que está em primeiro plano, é manter a todo custo a cadeira cativa no clube dos privilegiados. O projeto de poder tem total primazia sobre o projeto de nação. Nem que para tal seja necessário mentir, desmentir, tergiversar, falsificar, ou, no limite, sacrificar um boi para salvar a manada.

E o povo? Como ficam os eleitores que os ajudaram a galgar os degraus do planalto central? Como ficam os problemas, necessidades e reivindicações das bases? Ora, isso é um detalhe que também passa para segundo plano. Engana-se quem insiste em vincular o político e o eleitor como se fossem duas caras da mesma moeda. Esse vínculo vale apenas na hora das urnas. Depois... bem, depois cada um segue seu rumo, como em duas linhas paralelas. Enquanto um paira no mundo irreal da política, com sua varinha mágica para a “abre-te sésamo” dos cofres da União, o outro terá de trabalhar duro pata conseguir o pão de cada dia, e a cachaça para afogar as mágoas. Político e eleitor gravitam ambos em órbitas distintas e, não raro, desconhecidas uma à outra.

A cada quatro anos, as órbitas voltam a se cruzar. Um tenta entender a língua do outro, mas a distância vai ficando cada vez maior. E a democracia representativa dá sinais claros de esgotamento.

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