Quinta-Feira, 30 de outubro de 2014
Novo Doe
18.07.07 - Brasil
Ética, política e sociedade brasileira
Jorge Vieira
Missionário do CIMI-NE. Jornal
Adital

A definição do título deste artigo pode-se até parecer reducionista por tratar somente do Brasil, visto que a relação entre ética e política é uma questão de ordem internacional. Entretanto, o interesse está focado e motivado pela conjuntura que hora invade todos os recantos do país. Em qualquer lugar que se vá, encontra-se alguém comentando, esbravejando ou lamentando sobre o que assiste nos meios de comunicação, sobre denúncias de políticos dos altos escalões da República, familiares e amigos envolvidos em corrupção.

O fato de está aparecendo tantas denúncias e a população encontra-se aparentemente indignada com o volume de recursos públicos envolvidos, colocam-se algumas questões para a reflexão e na busca de se encontrar alguma explicação – se caso houver. Primeiro, por que somente agora está aparecendo? Em outras épocas e governos não tiveram corrupção? E se tinham, por que não apreciam com tal intensidade? Uma possível justificativa é o desenvolvimento tecnológico, particularmente os meios de comunicação. O acesso e agilidade às informações são mais rápidos.

È uma resposta cabível, mas que ainda não explica tudo. Até porque, nos governos que antecederam o atual presidente da República, os meios de comunicação já atuavam com a toda a tecnologia disponível nos dias atuais. Uma outra explicação é que as instituições do Estado estão funcionando plenamente. Sem dúvida, é verdade. Esta complementa a primeira, mas não é ainda definitiva.

Como se pode observar através dos noticiários, aparece todo tipo de gente envolvida em negócios com empreiteiras, superfaturamento de obras e bens, pagamento de pensão alimentícia com repasse de verbas de lobistas. Operadores de partidos políticos pressionando empresário para repassar recursos para alimentar, não crianças, mas os cofres de candidatos para comprar votos nas eleições, até para o conselho tutelar! Criação de empresas fantasmas para receber verbas desviadas dos cofres públicos. Ainda mais, a Polícia Federal, através de escuta telefônica, descobre irmão e amigo de Lula operando via de tráfico de influência em benefício de negócios não tão transparentes. Sem contar que, há alguns meses, um dos filhos do presidente foi denunciado por comprar de empresa, com crescimento volumoso do patrimônio.

Em vista disso tudo, e aqui está listado somente algumas das operações da Polícia Federal e do que é amplamente noticiado pelos meios de comunicação, pode pensar: o atual governo, mesmo se tendo as maiores divergências no campo político e ideológico, não está trabalhando para abafar e impedir que os problemas venham à tona.

E aqui que parece está a junção das respostas. Nada adianta ter a tecnologia, os meios de comunicação investigando e as instituições policiais funcionando, caso não tenha uma definição política para que as diversas frentes atuem e denunciem os que forem pegos em atos tidos como ilícitos. É o que está acontecendo no país.

A população só esperneia

Diante de tudo que está ocorrendo, percebe-se que a população fica indignada, vide as manifestações na abertura dos jogos Pan-americanos. Parece que há, em geral, um sentimento de profunda discordância com o que é praticado pelas autoridades e seus asseclas. Até porque, analisando a realidade social brasileira, sem ainda discutir a questão ética, parte significativa da população encontra-se sem assistência mínima à educação, à saúde e outras necessidades básicas. Por outro lado, projetos na área social, como a reforma agrária e a demarcação das terras indígenas não são realizadas, segundo as justificativas oficiais, por falta de recursos, de acordo com os direitos dos trabalhadores e dos povos indígenas.

Mas o que impressiona, neste contexto, é que a indignação da população tem se limitado a bate-papo de botequim, esquina de ruas, calçadas e banco praças. Parece que todos têm o prazer em conversar sobre o assunto, mas se sentem ou contemplados com as ações institucionais, a exemplo da ação policial e do Ministério Público, ou se sentem impotentes diante da monstruosa quantidade de denúncias e das forças políticas envolvidas. E o que é mais grave, é o conformismo com a situação, a convivência e aceitação cúmplice com a realidade dada.

Um fato chamou a minha atenção. Encontrava-me em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, onde conheci um senhor de certa idade, letrado e que parecia “muito atualizado”, pelos menos com uma quantidade de informações sobre a vida política de seu estado, do Brasil e, até, em nível internacional – falava muito contra os Estados Unidos, especialmente contra a política do presidente George W. Bush. Todos os dias, quando não me encontrava no interior do estado nas aldeias indígenas, no início da noite, quando voltava do escritório estava ele sentado no hall do prédio, tomando chimarrão ou tereré (erva-mate ingerida com água gelada). Nem bem terminava de colocar o carro na garagem, logo trazia notícias de alguns políticos envolvidos com corrupção, com afirmações bem fundamentadas. Tempos depois, reencontrando-o, retomei as discussões anteriores. Para a minha surpresa, o senhor não tratava mais das mesmas questões. Meio desconfiado, em tom de brincadeira, perguntei o que estava acontecendo. Ele afirmou: “todos os políticos são corruptos!”. O novo posicionamento do referido conhecido aguçou a minha curiosidade. Atento, no decorrer da conversação, descobri que o mesmo estava fazendo negócios com políticos.

Este relato, que não é ficção, atinge a questão ética na vida e formação da sociedade. Esse caso parece ocorrer no seio de parte significativa da população. Os referenciais de princípio ético e de comportamento moral perderam sua força como visão de mundo e modelo de relacionamento social. Parece que a ética é discutida e rechaçada até quando não sobra alguma oportunidade de favorecimento pessoal.

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