12.08.10 - Mundo
Leitura Orante da Palavra de Deus
Frei Carlos Mesters, O.Carm.
Adital

“Meditar dia e noite na Lei do Senhor”. Uma prática antiga, sempre nova

SUBSÍDIO 1 - Leitura Orante da Palavra de Deus

Uma prática antiga, sempre nova

“A Palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração” (Dt 30,14)

Há pessoas que acham a Bíblia um livro difícil. Dizem que ela só serve para o estudo das coisas de Deus, mas não para rezar e fazer a pessoa crescer na intimidade com Deus. No AT, já havia gente que pensava assim achando que só alguns poucos seriam capazes de descobrir e entender a Palavra de Deus. Por exemplo, pessoas estudadas e viajadas, capazes de entender as coisas do céu e da terra. O livro do Deuteronômio responde para eles e para nós:

“Este mandamento que hoje lhe ordeno não é muito difícil, nem está fora do seu alcance. Ele não está no céu, para que você fique perguntando: 'Quem subirá por nós até o céu para trazê-lo a nós, a fim de que possamos ouvi-lo e colocá-lo em prática?' Também não está no além-mar, para que você fique perguntando: 'Quem atravessará por nós o mar, para trazer esse mandamento a nós, a fim de que possamos ouvi-lo e colocá-lo em prática?' Sim, essa palavra está ao seu alcance: está na sua boca e no seu coração, para que você a coloque em prática” (Dt 30,11-14).

A Palavra de Deus não é uma doutrina distante de difícil acesso, nem um catecismo de verdades a serem estudadas e decoradas. A Palavra de Deus é o próprio Deus querendo comunicar-se conosco como Pai amoroso. O valor da Bíblia não está só naquilo que ela diz e ensina. O seu valor está também e sobretudo em Deus, Ele mesmo, a sua pessoa e a sua bondade, que pronuncia com muito amor aquilo que é dito e ensinado na Bíblia. Era a experiência de Deus como Pai que revelava a Jesus o sentido pleno das palavras da Escritura.

Descobrir e experimentar esta dimensão interpessoal da Bíblia é o objetivo da Leitura Orante da Palavra de Deus. A própria Bíblia é fruto desta prática antiga e sempre nova da leitura orante da Palavra de Deus.

A Bíblia, ela mesma, é fruto da Leitura Orante da Palavra de Deus

O texto da Bíblia não caiu pronto do céu. A Palavra de Deus, antes de ser escrita, era transmitida oralmente. Antes de ser transmitida, era vivida. Antes de ser vivida, era recebida no coração e revelada na prática do Povo de Deus. O texto da Bíblia nasceu aos poucos, ao longo dos séculos, como fruto de um demorado processo de interpretação dos fatos da vida e da história, nos quais o povo foi descobrindo a presença escondida da Palavra de Deus.

O ambiente desta leitura e descoberta da Palavra de Deus era o ambiente da liturgia, a celebração, os santuários, as romarias, o Templo, as rezas, as reuniões do povo. Por exemplo, entre os textos mais antigos da Bíblia estão os cânticos litúrgicos atribuídos a Miriam (Ex 15,20), a Débora (Jz 5,2-31) e a Ana (1Sam 2,1-10) e a profissão de fé do livro do Deuteronômio (Dt 26,5-9). A Bíblia nasceu e cresceu num ambiente de celebração. É neste mesmo ambiente orante que deve ser lida e meditada.

No tempo de Jesus era neste ambiente orante que o povo meditava a Palavra de Deus. Quando aquela mulher “levantou a voz no meio da multidão, e lhe disse: "Feliz o ventre que te carregou, e os seios que te amamentaram", Jesus fez o maior elogio à sua mãe quando respondeu dizendo: "Mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática" (Lc 11,27-28). De fato, Maria meditava a Palavra de Deus presente nos fatos da vida e nas palavras do anjo e das pessoas (Lc 2,19.51). O resultado desta meditação orante é o Cântico do Magnificat, feito com frases quase todas tiradas do livro dos Salmos (Lc 1,46-55). Sinal de que ela sabia rezar a vida e seus acontecimentos.

Desde os tempos do Servo de Javé e do próprio Jesus até hoje, é sempre a mesma palavra de Deus que é buscada e meditada. São muitas as maneiras de se ler a Bíblia, muitos os métodos para se interpretar a Palavra que Deus nos dirige de tantas maneiras diferentes. Mas o que há de comum em todos eles é a vontade de ouvir a Palavra de Deus e de colocá-la em prática (Lc 11,27). Como fazer isto?

O Testemunho do Servo de Javé

Foi na meditação orante da Palavra de Deus que o Servo de Javé, na época do cativeiro da Babilônia, encontrava a força para descobrir e realizar sua vocação como Servo. Ele mesmo descreve como fazia a leitura orante da Palavra de Deus:

 “O Senhor me concedeu o dom
de falar como seu discípulo,
para eu saber dizer uma palavra de conforto
a quem está desanimado.
Cada manhã, ele me desperta,
para que eu o escute,
de ouvidos abertos,
como o fazem os discípulos.
O Senhor me abriu os ouvidos
e eu não resisti, nem voltei atrás (Is 50,4-5).
Quatro pontos chamam a atenção da gente neste breve testemunho do Servo

1) Ser Discípulo. Por duas vezes ele se apresenta como discípulo. Ele aprender a falar e a escutar como fazem os discípulos. E ele quer ser discípulo do Senhor. Discípulo é a pessoa que tem consciência de não saber tudo, de não ser dono d verdade, de estar disposto a aprender.

2) Palavra de conforto. Ele está preocupado não em agradar aos grandes, mas em saber encontrar e dizer uma palavra de conforto a quem está desanimado. E no cativeiro da Babilônia havia muita gente desanimada que estava precisando de uma palavra de conforto.

3) De ouvidos abertos. A maneia como ele consegue ser discípulos e aprender como encontrar a palavra certa de conforto ara quem está desanimado era colocar-se diante de Deus, todas as manhãs, de ouvidos bem abertos para escutar o que Deus lhe tem a dizer.

4) Atitude de entrega. Quem se abre para Deus, tem a certeza de que Deus vem e responde, mas ele não saber o que Deus vai responder. O Servo se coloca às ordens de Deus para o que der e vier. Ele não volta atrás diante de uma palavra imprevista.

O Testemunho de Jesus

Os textos do Servo de Javé (cf Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12; 61,1-2) foram a ção para Jesus descobrir e assumir sua vocação como Messias. Este texto do Servo que acabamos de ler (Is 50,4-5) é uma espécie de auto-retrato do próprio Jesus. Como o Servo do livro de Isaías, Jesus meditava e escutava a Palavra de Deus. Diz o evangelho de Marcos: “De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto” (Mc 1,35). Jesus passava noites em oração, meditando a Palavra de Deus (cf. Lc 5,16; 6,12; 9,18.28; 11,1).

Na raiz da leitura que Jesus fazia da Palavra de Deus estava a sua experiência de Deus como Pai. A intimidade com o Pai dava a ele um critério novo, um olhar mais penetrante, que o colocava em contato direto com Deus, o autor tanto da Bíblia como da vida. Por isso São Paulo recomenda: “Procurem ter em vocês os mesmos sentimentos que animavam Jesus” (Flp 2,5). Pois se tivermos em nós os mesmos sentimentos de Jesus, teremos também o mesmo olhar com que Jesus lia a Bíblia. A seguinte comparação ajuda para entender este assunto.

Numa roda de amigos alguém mostrou uma fotografia, onde se via um homem de rosto severo, com o dedo levantado, quase agredindo o público. Todos ficaram com a idéia de se tratar de uma pessoa inflexível e antipática que não permitia intimidade. Enquanto comentavam a fotografia, chegou um rapaz, viu a fotografia e exclamou: "É meu pai!" Os outros olharam para ele e disseram: "Pai severo, hein!" Ele respondeu: "Não é não! Meu pai é muito carinhoso. Ele é advogado. Aquela fotografia foi tirada no tribunal na hora em que ele denunciava o crime de um latifundiário que queria despejar uns pobres para apropriar-se do terreno deles e construir um prédio grande para alugar e assim ganhar mais dinheiro". Meu pai defendeu os direitos dos pobres e ganhou a causa. Até hoje os pobres continuam morando em suas casas. Graças a Deus!” Todos olharam de novo a fotografia e alguém comentou: "Que fotografia simpática!” Como por um milagre, a fotografia se iluminou por dentro e começou a tomar um outro aspecto. Aquele rosto tão severo adquiriu os traços de uma grande ternura! A experiência do filho, sem mudar um traço sequer, mudou tudo.

Olhando as fotografias do Antigo Testamento, o povo no tempo de Jesus imaginava Deus como alguém distante, severo, de difícil acesso, cujo nome nem sequer podia ser pronunciado. Em vez de Javé diziam Adonai, isto é, Senhor. Jesus chegou e disse: “É meu Pai!” As palavras e gestos de Jesus, nascidas da sua experiência de Filho, sem mudar uma letra ou vírgula sequer (cf. Mt 5,18), mudaram todo o sentido do Antigo Testamento. A Bíblia se iluminou por dentro. O mesmo Deus que parecia tão distante e severo adquiriu os traços de um Pai bondoso de grande ternura, sempre presente, pronto para acolher e libertar! O Novo Testamento é uma releitura do Antigo Testamento feita à luz da nova experiência de Deus como Pai e Mãe, revelada e partilhada a nós por Jesus.

A chave para descobrir a Palavra de Deus na vida é esta: alimentar em nós “os mesmos sentimentos que animavam Jesus” (Fl 2,5); buscar uma profunda experiência de Deus e, ao mesmo tempo, como Jesus e como Servo, estar muito atento aos problemas das pessoas desdanimadas que precisam de uma palavra de conforto.

“Ter em nós os mesmos sentimentos que animavam Jesus” (Fl 2,5)

Como conseguir esta atitude, este olhar? Como criar em nós os mesmos sentimentos que animavam Jesus? Aqui seguem três sugestões ou conselhos: 1. Seguir Jesus; 2. Usar o método de Jesus; 3. Criar um contexto comunitário orante.

1. Seguir Jesus

O seguimento de Jesus tinha três dimensões que perduram até hoje e que formam o eixo central do processo de formação dos discípulos e da assimilação do jeito de viver de Jesus:

* Imitar o exemplo do Mestre:

Jesus era o modelo a ser recriado na vida do discípulo ou da discípula (Jo 13,13-15). A convivência diária com o mestre permitia um confronto constante. Nesta "escola de Jesus" só se ensinava uma única matéria: o Reino! E este Reino se reconhecia na vida e na prática do Mestre. Isto exige de nós leitura e meditação constantes do evangelho para olharmos no espelho da vida de Jesus.

* Participar no destino do Mestre.

A imitação do Mestre não era um aprendizado teórico. Quem seguia Jesus devia comprometer-se com ele e "estar com ele nas tentações" (Lc 22,28), inclusive na perseguição (Jo 15,20; Mt 10,24-25). Devia estar disposto a carregar a cruz e a morrer com ele (Mc 8,34-35; Jo 11,16). Isto exige de nós um compromisso concreto e diário de fidelidade com o mesmo ideal com que Jesus, fiel ao Pai, se comprometia.

* Ter a vida de Jesus dentro de si.

Depois da Páscoa, surge uma terceira dimensão, fruto da ação do Espírito de Jesus na vida das pessoas  que levava os primeiros cristãos a dizer: "Vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20). Eles procuravam refazer em suas vidas a mesma caminhada de Jesus que tinha morrido em defesa da vida e foi ressuscitado pelo poder de Deus (Fl 3,10-11). Isto exige de nós uma espiritualidade de entrega contínua, alimentada na oração.

2. Usar o método de Jesus na leitura e interpretação da Bíblia

No episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35), Lucas apresenta Jesus como intérprete da Bíblia e nos ensina como devemos ler a Escritura. O processo de interpretação seguido por Jesus tem os seguintes passos, misturados entre si:

1º Passo: partir da realidade (Lc 24,13-24)

Jesus encontra os dois discípulos numa situação de medo e dispersão, de descrença e desespero. Eles estavam fugindo. A morte de Jesus na cruz, tinha matado neles a esperança: "Nós esperávamos que ele fosse o libertador, mas..." (Lc 24,21). Jesus se aproxima e caminha com eles, escuta a conversa e pergunta: "De que vocês estão falando? Por que estão tristes?" Mas eles não o reconheciam. Não percebiam a presença da Palavra de Deus que já estava com eles, na vida deles.

O 1º passo é aproximar-se, caminhar junto, escutar a realidade, os problemas; ser capaz de fazer perguntas que ajudem a pessoa a olhar a realidade com um olhar mais crítico.

2º Passo: usar a Bíblia (Lc 24,25-27)

Jesus usa a Bíblia não para dar uma aula sobre a Bíblia, mas para iluminar o problema que fazia sofrer os dois discípulos, para esclarecer a situação que estavam vivendo e para mostrar que a história não tinha escapado de mão de Deus.

O 2º passo é este: com a ajuda da Bíblia, iluminar os fatos e situá-los dentro do conjunto do plano de Deus, transformar a cruz, sinal de morte, em sinal de vida e de esperança. Assim, aquilo que os impedia de caminhar, tornou-se a força principal na caminhada, a nova luz no caminho.

3º Passo: partilhar na comunidade (Lc 24,28-32)

A Bíblia, ela por si, sozinha, não abriu os olhos dos dois, mas a sua leitura e interpretação fizeram arder neles o coração (Lc 24,32), e isto é muito importante. O que faz enxergar mesmo, é o gesto comunitário da hospitalidade, da oração em comum, da partilha do pão ao redor da mesa. No momento em que é reconhecido, Jesus desaparece, e eles mesmos ressuscitam e renascem.

O 3º passo é este: saber criar um ambiente de fé, de fraternidade e de partilha, onde possa atuar o Espírito Santo que nos faz entender o sentido das coisas que Jesus falou, e produz em nós uma experiência de ressurreição e de vida nova (cf. Jo 14,26; 16,13).

Objetivo: Ressuscitar e voltar para Jerusalém (cf Lc 24,33-35) 

Imediatamente, eles levantam e voltam para Jerusalém. Tudo mudou: coragem, em vez de medo; retorno, em vez de fuga; fé, em vez de descrença; esperança, em vez de desespero; consciência crítica, em vez de fatalismo frente ao poder; liberdade, em vez de opressão! Em vez da má noticia da morte, a Boa Notícia da Ressurreição!

O objetivo da leitura orante da Bíblia, é este: criar coragem e voltar para Jerusalém, onde continuam vivas as forças de morte que mataram Jesus. Os dois discípulos, eles mesmos ressuscitaram. Venceram o medo da morte e das forças da morte.

3. Criar um contexto comunitário orante que abre os olhos

O que abriu os olhos dos discípulos foi o contexto comunitário: a hospitalidade, a oração antes de comer, a mesa comum, a partilha do pão. A comunidade que se formava ao redor de Jesus tinha o seu ritmo de vida diário, semanal e anual, dentro do qual os discípulos recebiam a sua formação:

O ritmo diário em casa, na família:

No tempo de Jesus, nas casas de família e nos pequenos grupos, todas as pessoas rezavam três vezes ao dia: de manhã, ao meio dia e à noite. Eram os três momentos em que, no Templo em Jerusalém, se oferecia o sacrifício. Junto com o incenso e a fumaça dos sacrifícios subia até Deus a oração do seu povo. Estas orações, tiradas da Bíblia ou por ela inspiradas, marcavam o ritmo diário da vida de Jesus e da sua comunidade ao longo dos três anos de formação.

O ritmo semanal na comunidade, sinagoga:

Um escrito antigo da Tradição Judaica, chamado Pirquê Abot, dizia: “O mundo repousa sobre três colunas: a Lei, o Culto e o Amor”. Ou seja, a Bíblia, a Celebração e o Serviço. Era o que o povo fazia todos os Sábados na sinagoga. Mesmo durante as viagens missionárias, Jesus e os discípulos tinham o "costume" (Lc 4,16) de, aos sábados, se reunirem com a comunidade local na sinagoga para ouvir as leituras da Bíblia (Lei), para rezar e louvar a Deus (Culto) e para discutir os serviços a serem realizados para a edificação da comunidade e a ajuda a ser oferecida às pessoas (Amor) (Lc 4,16.44; Mc 1,39). Até hoje, este ainda é o ambiente formador das nossas Comunidades Eclesiais de Base: ouvir em comunidade a leitura da Palavra de Deus (Lei, Bíblia), rezar juntos (Culto, Celebração) e combinar entre si o que fazer para melhor a vida dos irmãos e das irmãs (Serviço, Amor).

O ritmo anual no Templo, no meio do povo:

Cada ano, o povo tinha que fazer três romarias para visitar a Deus no seu Templo em Jerusalém nas três grandes festas, que marcavam o ano litúrgico e nas quais se celebravam os momentos importantes da história do Povo de Deus: Páscoa, Pentecostes, ou festa das semanas e a festa das Tendas (Ex 23,14-17; Dt 16,9). Jesus e os discípulos participavam das romarias e visitavam o Templo de Jerusalém (Jo 2,13; 5,1; 7,14; 10,22; 11,55).

Através deste tríplice ritmo (diário, semanal e anual), criava-se um ambiente familiar e comunitário, impregnado pela leitura orante da Palavra de Deus. A formação, que os discípulos assim recebiam, não era, em primeiro lugar, a transmissão de verdades a serem estudadas e decoradas, mas sim a comunicação da nova experiência de Deus e da vida que irradiava de Jesus para os discípulos e as discípulas. A própria comunidade que se formava ao redor de Jesus era a expressão desta nova experiência de Deus e da vida. A formação levava as pessoas a terem outros olhos, outras atitudes. Fazia nascer nelas uma nova consciência a respeito da sua vocação e a respeito de si mesmas. Fazia com que fossem colocando os pés do lado dos excluídos. Produzia aos poucos a "conversão" como conseqüência da aceitação da Boa Nova (Mc 1,15). Sem esta experiência comunitária da Leitura Orante, o estudo da Bíblia cairia no vazio.

A comparação dos dois Livros de Deus

Uma comparação esclarecedora de Santo Agostinho dizia: Deus escreveu dois livros. O primeiro livro é a criação, a natureza, a vida, tudo que existe e acon­tece. É pelo Livro da Natureza que Deus quer comunicar-se conosco. Mas por causa do nosso pecado as letras deste primeiro livro se atrapalharam e já não conseguimos descobrir a fala de Deus no livro da Vida, da Natureza. Por isso, Deus escreveu um segundo livro, que é a Bíblia. A Bíblia foi escrita, não para substituir o livro da vida, mas para ajudar-nos a interpretá-lo melhor. E Agostinho enumera os três objetivos desta leitura orante da Bíblia: a Bíblia nos devolve o olhar da contemplação; ela nos ajuda a decifrar o mundo; faz do universo uma teofania, uma revelação de Deus.

Clemente de Alexandria, Séc. IV, tinha a mesma intuição quando dizia: “Deus salvou os judeus judaicamente, os gregos, gregamente, os bárbaros, barbaramente”. E podemos continuar: “Os brasileiros, brasileiramente”. A convicção de fé subentendida nesta afirmação é a de que todos temos o nosso Antigo Testamento, temos nossa história, tanto pessoal como comunitária e nacional. Como o AT do povo hebreu, também o nosso AT, a nossa história, está orientada pelo mesmo Espírito do Deus Criador para desembocar na vida plena que nos foi revelada pela paixão, morte e ressurreição de Jesus. O que importa na interpretação de um texto bíblico é descobrir, através do estudo da “letra”, esta mesma orientação para Jesus dentro da nossa vida e história, para que possamos crescer e desabrochar em Jesus e na vida ressuscitada da Comunidade. Este mesmo convite chega agora até nós através da mensagem do Sínodo dos bispos.

A Mensagem final do Sínodo dos Bispos

Esta maneira tão antiga de ler e interpretar a Bíblia - tão antiga quanto a própria Bíblia - renasce hoje, tanto na prática tão simples das nossas comunidades, como na palavra abalizada dos bispos reunidos no Sínodo sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.

Nas intervenções dos bispos durante o sínodo sobre A Palavra de Deus na Vida e na Missão do Povo de Deus, havia uma insistência muito grande nestes quatro pontos: 1) A Bíblia deve voltar na mão do povo, sobretudo dos pobres; 2) A Leitura Orante diária deve ser retomada sobretudo pelos ministros que animam a fé do povo e pelos que se preparam para servir ao povo como presbíteros; 3) A exegese científica e o estudo acadêmico da Bíblia devem estar voltados para a teologia e a pastoral; 4) É importante retomar e valorizar a visão que os Santos Padres da Igreja tinham da Bíblia.

Na mensagem final do Sínodo ao Povo de Deus, os bispos sintetizaram todo o processo da descoberta, interpretação e meditação orante da Palavra de Deus em quatro símbolos muito sugestivos: a Voz da Palavra, o Rosto da Palavra, a Casa da Palavra e o Caminho da Palavra.

A Voz da Palavra

ressoa não só na Bíblia, mas também se faz ouvir na natureza, no universo, na vida, nos fatos, “sem fala e sem palavras, sem que sua voz seja ouvida” (Sl 19,4). “De fato, desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, tais como o seu poder eterno e sua divindade, podem ser contempladas, através da inteligência, nas obras que ele realizou” (Rom 1,20).

O Rosto da Palavra

é Jesus de Nazaré, sua vida, seus gestos, suas palavras, seus ensinamentos. Ele é a revelação do Pai. Nele a Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Ele podia dizer: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9).

A Casa da Palavra

é a Comunidade, a Igreja. É onde o povo se reúne em torno da Palavra de Deus: “Como pedras vivas, vocês vão entrando na construção do templo espiritual, e formando um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais que Deus aceita por meio de Jesus Cristo” (1Pd 2,5). Jesus dizia: “Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20)

O Caminho da Palavra

é a missão que recebemos como discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida. “Caminho” é a palavra usada no livro dos Atos para identificar os cristãos (At 9,2; 19,9; 22,4; 24,14). Indica o compromisso assumido de levar a Boa Nova pelo mundo afora.

Este é o sentido e o objetivo do convite que nos é feito hoje pela mensagem dos bispos. Os bispos retomaram o antigo convite feito a nós pelo salmo para praticar a Leitura Orante da Palavra de Deus:

“Feliz o homem,

que não segue os conselhos dos ímpios,
não anda no caminho dos maus,
nem freqüenta a companhia dos gozadores.
Pelo contrário,
encontra seu prazer na lei do Senhor,
e nela medita dia e noite.
Ele é como árvore plantada junto d'água corrente:
dá fruto no tempo devido,
e suas folhas nunca murcham.
Tudo o que ele faz é bem sucedido.
Feliz este homem!” (Salmo 1,1-3).

A Leitura Orante da Lei do Senhor faz a pessoa crescer e amadurecer, pois traz consciência crítica frente “aos conselhos dos ímpios”, ajuda a evitar o “caminho dos maus”, torna fecunda a vida que, “como árvore, plantada à beira da água, dará fruto a seu tempo. Sua folhagem não secará, e terá êxito em todos os seus empreendimentos”. Deste modo, se abre para nós o caminho da felicidade: “Feliz este homem!”

[Texto escrito por Frei Carlos Mesters, da Ordem do Carmo, por ocasião da celebração do Ano Vocacional Carmelitano, da Província Carmelitana de Santo Elias-Carmelitas].

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para:
Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil