Muitos já nos confrontamos com uma situação que aparece cada semana nas páginas policiais: entregar a carteira e o dinheiro, os tênis e o celular ou perder a vida. Ou um outro, a escolha, ou sem escolha, a não ser correr o risco de levar um tiro.
Já passei pelo drama do assalto. Na dúvida, corri, eles (atuam sempre em dupla) não atiraram, mas até hoje me lembro do revólver apontado para meu rosto a dois metros de distância. Estas situações-limite, porém, produzem-se também noutro sentido e dilema. Não a de contrapor o dinheiro à vida, ou perder um ou perder outro, mas o de decidir por um, o dinheiro, e perder a outra, a vida, ou optar pela vida, e deixar em segundo plano o dinheiro, ou o capital. O que escolher: o dinheiro ou a vida? Ou os dois?
O lema da Campanha da Fraternidade/2010 – ‘Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro’ (Mt 6, 24) – felizmente está dando o que falar. Vale a pena, pois, (re)ler o Evangelho de Mateus e todo capítulo 6, no meio do qual está a frase escolhida pela Campanha, e (re)descobrir o contexto de sua radicalidade. A afirmação de Jesus –‘Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou aborrecerá um ou amará o outro, ou apreciará o primeiro e desprezará o segundo. É impossível servir a Deus e ao dinheiro’ – vem no mesmo capítulo em que Jesus ensina a rezar o Pai Nosso: ‘Por isso, vocês têm que orar assim. (...) Venha o teu reino, seja feita a tua vontade na terra como no céu. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia’ (Mt 6, 9). Em seguida, Jesus fala: “Não amontoeis riquezas na terra, onde se põem a perder, porque a traça e a ferrugem as destroem, os ladrões assaltam e roubam” (Mt 6, 19). E na seqüência: “Por isso, lhes digo: Não andem preocupados por sua vida, que vamos comer, ou por seu corpo, que vamos vestir. Não vale mais a vida que o alimento e o corpo mais que a roupa? Olhem como as aves do céu não semeiam, nem colhem, nem guardam em celeiros, e o Pai celestial as alimenta. Não valem mais vocês que as aves?” (Mt 6, 25-26) E termina o capítulo: “Em primeiro lugar, busquem o Reino e sua justiça e todas as coisas boas que isso supõe” (Mt 6, 33).
Jesus não coloca em segundo lugar o alimento. Tanto que, após do falar do reino e sua vontade na terra e no céu, pede pelo pão diário. Sem pão não existe reino nem vontade de Deus a ser feita. O questionamento é outro: ele denuncia e condena o acúmulo de riquezas, porque nada acrescenta à vida e ao bem-viver. Não é possível servir a dois senhores. Ou se é escravo de um, o dinheiro e seus valores, ou serve-se outro, Deus e seus valores. Os pássaros do céu não se preocupam com estas coisas e vivem. As flores do campo crescem, embora não trabalhem e não teçam. A vida vale mais que a busca dos bens, o ser humano e seu corpo são mais importantes que os pássaros mais importantes.
Onde está a felicidade? Na busca do Reino e de sua justiça. Não está no dinheiro, não está no acúmulo de riquezas, não está em cuidar só de si próprio, esquecendo o resto. Está em Deus, que significa justiça, que significa despreocupar-se das coisas materiais enquanto centro da vida, significa não depender, para viver, do brilho dos bens ou do supérfluo das riquezas, o que leva á injustiça e à desigualdade.
Onde está o centro da vida? Quais são os valores primordiais? O que é o Reino já aqui na terra?
Estamos num mundo onde se mede a vida, o bem-estar, o desenvolvimento pela quantidade de bens produzidos, em geral nas mãos e bolsos de poucos. Estamos em tempos onde o tilintar dos números da Bolsa de Valores e os lucros anuais são os valores máximos. Ao mesmo tempo, estamos em tempos em que um bilhão de pessoas passa fome no mundo, em que guerras inúteis e sem sentido matam milhares todos os anos, em que a desesperança habita as mentes e os corações dos jovens, que se sentem amparados pelo vazio da droga e da violência inútil. Estamos em tempos em que as crises econômicas se abatem sobre os pobres e trabalhadores porque o deus mercado não resolveu todos os problemas. Estamos em tempos em que o consumo, comer e beber à farta, construir shoppings-igrejas cada vez mais suntuosos, deliciar-se no comércio do luxo, parece ser a única alternativa, o único sentido, o derradeiro sonho.
Na hora do assalto, não se trata de dar ou não dar o dinheiro para perder ou não a vida. Dê-se o dinheiro e ganhe-se a vida. O dinheiro nada vale se não houver a vida. A economia não se justifica se não consegue trazer dignidade e comida e alegria à mesa de todos e todas diariamente. A produção de bens materiais só tem sentido se melhorar a saúde, se trouxer dignidade e bem-viver, se não destruir a natureza.
A Campanha da Fraternidade/2010 faz a denúncia, mas aponta também caminhos e afirma valores que levem a novos tempos. Pode-se, por exemplo, pensar numa economia solidária, que é outro jeito de fazer a atividade econômica de produção, oferta de serviços, comercialização, serviços ou consumo baseada na democracia e na partilha, uma economia onde a cooperação, a autogestão, a solidariedade sejam a base e os valores máximos.
O dilema, em certo sentido, pode ser sim entre o dinheiro ou a vida. O dinheiro não nos salva, não salva o mundo nem a humanidade. Basta olhar ao redor, ver o que está acontecendo, ver as tragédias, ver as crises, ver a destruição de corações, corpos e meio ambiente. É preciso pois optar pela vida, sim, mas em outras bases que as atuais.
As palavras de Jesus são mesmo radicais, para escândalo e espanto de muitos. Não trazem facilidades e imediatismos. Vão à raiz dos problemas, denunciam os valores dos fariseus e as práticas dos hipócritas. Se são radicais, exigem escolhas. O Reino é essa busca utópica, mas é também onde está a felicidade, não de alguns poucos, mas de todos e todas, animais, plantas e seres humanos.
[Selvino é da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política]