Hoje (21 de setembro) se inicia a primavera e isso me lembra que, em termos políticos mundiais, estamos vivendo tempos de primavera. No início do mês ficamos imersos em deprimentes imagens do outono americano, quando os canais de TV ficaram entupidos de comentários e imagens em torno do que os americanos chamam de ‘nine eleven’, ou seja, o 11 de setembro. A mídia tentou celebrar em grande estilo o décimo aniversário da derrubada das torres gêmeas em Nova Iorque, na clara intenção de divulgar mais uma vez a ideia de que o terrorismo é o inimigo número um do mundo. Mas parece que as pessoas não se deixaram convencer, pois em nenhum momento os comentaristas conseguiram explicar o que é terrorismo. Lançar a bomba sobre Hiroshima é terrorismo? Derrubar as democracias na América Latina (nos anos 1960) foi terrorismo? Matar Bin Laden é terrorismo? Fazer a guerra no Iraque para controlar o acesso ao petróleo foi terrorismo? E a guerra no Afeganistão, o que é? Não se explicou tampouco o que estava na mente dos chamados ‘terroristas’ quando planejaram tão cuidadosamente o ataque às torres gêmeas de Nova Iorque. Só se repetiram até a exaustão as palavras do presidente Bush: ‘war on terror’ (guerra ao terror). Será que nossa tarefa, no mundo inteiro, consiste realmente em combater o terrorismo?
Bem diferente, e pouco comentado na grande mídia, é a primavera política que está tomando conta do mundo. Tudo começou com o jovem Mohammed Bouazizi que, no final de 2010, se queimou vivo na capital da Tunísia. De repente, o país todo estava em chamas, numa inesperada indignação contra o governo. Num piscar de olhos esse governo caiu e ficou claro que algo inteiramente novo estava acontecendo. Pois o jovem não era precisamente anticapitalista nem anti-imperialista, não era anti-colonialista nem antisecularista, não defendeu a religião contra a sociedade secularizada, ele simplesmente achou que não valia a pena viver do jeito que ele e seu povo estavam condenados a viver. Não havia simbolismo religioso nem ideológico no gesto de Mohammed Bouazizi. Sem fazer declarações sobre suas motivações, ele se revelou um democrata no sentido puro da palavra, pois simplesmente aspirava a ‘viver bem’ e percebia que isso era impossível em seu país. Não tinha programa político, nem organização que o sustentasse. Por trás dele não havia lideranças que o empurrassem para o suicídio. Seu gesto provinha de um fortíssimo sentimento de rejeição a autoritarismo e corrupção e é por isso que conseguiu inflamar a Tunísia e provocar um movimento que se alastra até hoje pelo Oriente médio e pela África do norte. No mês de janeiro, uma massa de dois milhões de pessoas se concentrou na praça Tahrir no Cairo para exigir a renúncia do presidente Murabak, que governou o Egito durante 30 anos (com o apoio dos Estados Unidos). Como no caso da tomada da Bastilha em Paris no final do século XVIII, a massa humana estava imbuída de um fortíssimo sentimento de rejeição da ordem reinante. Ainda nos falta um filósofo do tamanho de Hegel para comentar em profundidade o significado da movimentação na praça Tahrir em termos universais e desse modo traçar o paralelismo entre Bastilha e Tahrir. Em seguida, movimentos democráticos se espalharam em diversos países arábicos como Líbia e Síria e até hoje essa movimentação não para, mas se alastra para fora do mundo arábico, atingindo a Espanha, a Grécia, o Chile, mesmo os Estados Unidos.
É interessante observar que, no ‘calor da hora’, os líderes ocidentais ficaram desnorteados. Durante meses (até junho, mais ou menos), eles repetiam bobagens e só conseguiram dar declarações desconexas. Obama continuou a sustentar o presidente Murabak do Egito até o momento em que percebeu que a movimentação na praça Tahrir se tornara irreversível. Aí mudo de discurso, de um dia para outro. O presidente francês Sarkozy fingiu-se surpreso diante da reviravolta na Tunísia e declarou: ‘Não tínhamos tomado consciência da dor do povo na Tunísia’. Quer dizer que 23 anos de ditadura (apoiada pela França) não foram suficientes para que o presidente francês tomasse consciência do que realmente se passava na Tunísia. Vale refletir aqui: para que servem os serviços diplomáticos (que consomem rios de dinheiro) se nem o presidente sabe o que está acontecendo? O que adianta viver em sociedades que se orgulham em dispor de instrumentos informáticos dos mais eficazes, se ninguém previu o que ia acontecer na Tunísia, no Egito e em grande parte do mundo árabe? Só há uma explicação para tal contradição: os instrumentos informáticos de nosso mundo atual, tão orgulhosos de suas performances, estão permeados de uma hipocrisia monstruosa. A mentira reina nas chancelarias e administrações de praticamente todos os países ocidentais. E como, entre janeiro e junho de 2011, o rei ocidental ‘ficou nu’, tivemos uma rara oportunidade para perceber que a chamada democracia ocidental (no centro do sistema) só se sustenta por meio da ditadura (nos países periféricos).
No decorrer do mês de junho, nossos líderes já conseguiram costurar um discurso mais ou menos sintonizado. Eles criaram alguns novos ditadores, além dos tradicionais Sadam Hussein no Iraque e Ahmadinejad no Irã. Entraram Murabak do Egito e principalmente Khadafi da Líbia. Esqueceu-se rapidamente que o último, pouco tempo antes, tinha recebido efusivos afagos do primeiro ministro italiano Berlusconi (o bufão da Europa). Num piscar de olhos, Khadafi foi ‘promovido’ a ditador sanguinário. Mas o discurso tinha de permanecer prudente, pois ninguém sabia (nem sabe até hoje) como as coisas iam evoluir. De qualquer modo, Obama, Sarkozy, Berlusconi, Merkel (Alemanha), Cameron (Inglaterra) afinaram, a partir do mês de junho, seus discursos. Afirmaram solenemente que a ‘civilização ocidental’, como sempre, apoia a democracia, zela pelos direitos humanos (apesar das torturas em Guantánamo) e cuida do bem-estar do povo (apesar dos bilhões injetados nos bancos privados) etc.
Mas esse discurso não consegue mais convencer. Um número sempre crescente de pessoas percebe que hoje não existe mais democracia no mundo ocidental. Ela está sendo engolida pelo poder do dinheiro. Em termos econômicos, nossa globalização opera por meio de uma ditadura de macro-empresas, sempre mais unificadas, sobre a sociedade. Oitenta por cento das decisões tomadas hoje pelos governos da Europa são impostas pelas grandes empresas. A verdadeira superpotência é a conglomeração de empresas mundiais. Os cidadãos não sabem como se libertar da crescente concentração do comércio mundial nas mãos de poucos grupos de empresas mundiais superpoderosas. A cidadania propriamente dita se perde diante de um poder ‘global’ invisível e intangível que corrói a democracia por dentro e sobrevive pelo fato que opera dentro de leis democraticamente estabelecidas, que esmagam tudo que encontram no caminho. Os políticos, na realidade, sejam eles da direita ou da esquerda, defendem os interesses de poderosos grupos financeiros.
Os antigos diziam: ‘a luz vem do oriente’ (ex oriente lux). Efetivamente, os primeiros raios de um novo sol se levantam sobre a humanidade a partir do Oriente médio e da África do norte. Embora neste momento não tenhamos certeza acerca do futuro político de Egito, Tunísia, Líbia ou Síria, podemos afirmar que a primavera árabe, por si só, contém uma chama de esperança para a humanidade toda. No Brasil participamos do movimento por meio de numerosas iniciativas de democracia participativa, nas comunidades de base, nos movimentos populares, nas escolas comunitárias, etc. Infelizmente, essas iniciativas são pouco divulgadas e falta conexão entre elas. Falta dar maior visibilidade a toda essa movimentação e é nesse sentido que gostaria de terminar com uma observação acerca do poder da rede eletrônica (o famoso www.) que se mostrou um instrumento decisivo nos acontecimentos da Tunísia, do Egito e da Líbia. Essa rede constitui uma nova forma de poder nas mãos de pessoas comuns. O novo e famoso ‘eletrodoméstico’ gratuito, que cobre o mundo todo, dispensa instrumentos pesados e custosos que são necessários ao funcionamento da rede elétrica tradicional. Daí seu imenso potencial, ainda não devidamente avaliado pelos que lutam pelos direitos da cidadania. A rede não depende de nenhuma autorização, não pede permissão a ninguém nem paga royalties. Nesse sentido entra na dinâmica daquela universalidade propagada por Jesus e pelo cristianismo das origens. Ela instiga os governos a serem mais transparentes e a fornecer dados universalmente ‘divulgáveis’. É uma plataforma universal, aberta ao que há de melhor e de pior, como tudo o que a humanidade produz. Constitui tarefa dos cristãos instrumentalizá-la em benefício de todos, segundo antiga lição do mestre Tomás de Aquino: bonum commune: o bem de todos.