11.05.11 - Haiti
Organizações defendem economia solidária como meio para reconstrução
Camila Maciel
Jornalista da Adital
Adital

"A reconstrução do Haiti, depois do terremoto, deve acontecer dentro de um novo modelo de desenvolvimento”, afirma Beverly Keene, ativista da organização Jubileu Sul, que participou no final de abril do Fórum Internacional "Que financiamento, para que reconstrução?”, em Porto Príncipe, no Haiti. Em entrevista à Adital, a ativista revela os principais pontos debatidos no Fórum, que apontam para a necessidade de uma reconstrução que não aprofunde as desigualdades e dependências externas do país.

De acordo com Beverly, o Fórum avaliou que o modelo de reconstrução, hoje implementado, aprofunda, ainda mais, a dependência política e financeira do país. Ela conta que há um reforço do modelo econômico extrativista e exportador. Essas atividades, em grande parte, são "lideradas por empresas estrangeiras. Vemos uma política de cooperação que nada tem de social ou de solidária”, relatou.

O Fórum destacou a economia solidária como uma nova forma de fazer economia, com o objetivo de promover a sustentabilidade e independência do povo haitiano. "Defendemos um desenvolvimento que incorpore as experiências já existentes no país”, explica Beverly Keene. A economia solidária, por sua vez, é entendida como uma forma diferente de produzir, vender e comprar, que não explore ou destrua o meio ambiente. Cooperação, solidariedade e auto-gestão são alguns valores incentivados.

As resoluções do Fórum apontam para a necessidade de que o povo haitiano torne-se protagonista dos acontecimentos de seu país. Nesse sentido, uma das resoluções do Fórum foi a criação de uma Assembleia Permanente dos Movimentos Sociais. Para Beverly, essa é uma instância capaz de "reforçar a capacidade de mobilização e definir os meios necessários para a reconstrução”, a partir dos desejos de quem lá habita.

O Fórum denunciou o uso que organizações tem feito do desastre. A ajuda humanitária vinda de governos, instituições internacionais e grandes ONGs não contou com a participação das organizações haitianas, as quais nem mesmo foram consultadas. Beverly avalia que há interesses financeiros para que essa ajuda aconteça sem o envolvimento da população.

Reconhece-se, entretanto, a importância da ajuda humanitária, mas que respeite a cultura e as necessidades do povo. A experiência de Cuba de apoio ao Haiti, com serviços de saúde, e a cooperação da Alba foram destacadas como modelos a serem seguidos.

Outra resolução foi o estabelecimento de uma nova Missão de Pesquisa e Solidariedade, que deve estar no país no dia 28 de julho, data que marca a primeira ocupação estadunidense no Haiti. O objetivo é acompanhar as organizações populares, recolher propostas e acordar novas iniciativas conjuntas de apoio.

O Fórum reivindica também a retirada das tropas da Minutash, da missão de paz das Nações Unidas. "Não se pode construir um novo país sob a tutela de uma tropa militar”, ressalta Keene. Além disso, propõe a realização de uma campanha para a renovação do mandato da Comissão Interina para a Reconstrução do Haiti, pois ela estaria funcionando, há quase um ano, como um governo paralelo com o controle de mandatários internacionais, como Estados Unidos, Banco Mundial e BID.

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